quinta-feira, 7 de julho de 2011

A Confiança Interior


Continuação do ensinamento Os Quatro Pensamentos Ilimitados, de Jigme Khyentse Rinpoche, postado em junho passado.


Jigme Khyentse Rinpoche 

A Confiança Interior

    Todos nós temos algo que estremece no fundo de nós cada vez que uma palavra vibra no ar, cada vez que vemos uma cor. Ao sentirmos esse estremecimento, esse comichão, coçamo-nos. Não damos conta disso, mas trata-se dum encadeamento muito freqüente, Os ensinamentos propoem-nos o elemento que falta a este processo: a liberdade ou o espaço.

    Quando tomamos consciência do modo mecânico como nos coçamos assim que sentimos a menor comichão, seja ela física ou mental, porque não tentamos esperar alguns minutos antes de o fazer? Podemos tomar a liberdade de nos coçarmos quando queremos e não quando sentimos o impulso para tal. Esperar cinco segundos, dez talvez, ou mesmo um minuto...

    Como fazer? Ganhando confiança no nosso espírito, na nossa natureza de Buda, naquilo a que se poderia chamar a insustentável ternura do ser. Aliás a comichão só existe graças à presença dessa ternura em nós. É uma cintilação, um vislumbre de Buda, e o seu reconhecimento prova-nos que o estado de Buda é possível. Se conseguirmos esperar um pouco antes de nos coçarmos, podemos chamar a isso uma iluminação.

    Um outro aspecto dessa ternura é aquilo a que chamarei uma insustentável leveza, é o aspecto da vacuidade, o aspecto de liberdade. Estamos a tentar cortar alguns dos fios atados à enguia que se agita constantemente em nós, que nos fazem dançar como uma marionete, segundo os movimentos que esperam de nós.

    Observemo-nos um pouco; essa comichão traduz-se no facto de tomarmos uma pose. Todos temos uma pose na qual nos sentimos à vontade. Se alguém se apercebe dela, e vê claro em nós, imediatamente tomamos outra.

    Não se coçar mudando de pose é usar a nossa liberdade. Esta liberdade está ligada a uma estabilidade, uma dignidade que não vacila – o oposto da folha que o vento leva para onde quer.

    Só quando reconhecemos esta comichão, esta nossa falta de liberdade, é que a idéia de Refúgio vinga em nós. O Refúgio é a coragem de abertura, a inspiração: o Pensamento de Iluminação permite-nos uma boa utilização dessa inspiração. É nesse sentido que o Refúgio e o Pensamento de Iluminação são uma arte útil. Claro que isso depende de uma interpretação pessoal.

    Quanto a mim, acho que o Buda é um artista revolucionário no sentido em que a sua arte pode ser-nos realmente útil. A inspiração de que falo não só é o apogeu da arte, mas também abre um campo de acção a quem tome Refúgio. Eis pois uma arte prática, útil, que não é apenas mais um exibicionismo. Há quem despeje emoções sobre o papel ou sobre a matéria, há muitas formas de exibicionismo. Não se trata disso, pelo contrário. É antes algo que ousa ver-se a si próprio sem necessariamente se mostrar no exterior. Toda a prática espiritual, incluindo os preliminares, é apenas um método para tentar oferecer ao nosso espírito os meios de ganhar confiança em si próprio.


Este texto é a transcrição dum ensinamento oral dado por Jigme Khyentse Rinpoche no templo de Ogyen Kunzang Chöling, em Bruxelas, a 24 de março de 1995.

Publicado originalmente na revista Adarsha, n# 02 - outubro/ dezembro de 1996.

Reproduzido com autorização.

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