sexta-feira, 30 de março de 2012

Kyabje Tenga Rinpoche em Thugdam

O Precioso Kundun de Kyabje Tenga Rinpoche em Thugdam  
(foto de Karma Sherab Wangchuk, atendente pessoal de Kyabje Tenga Rinpoche.)



Uma Breve Súplica para o Rápido Renascimento de Kyabje Tenga Rinpoche

CHOGTRUL TENGA RINPOCHE
THUG GONG CHÖYING CHIGSE KYANG
LARYANG TENDRO CHICHE LE
TRULPE DASHAL NYUR CHAR SOL

Surpreme emanation Kyabje Tenga Rinpoche,
even though you have merged your intention into one with dharmadathu,
for the sake of the doctrine and beings, in general and in particular,
may the moon-like face of your emanation rise again soon!

Composed by Sangye Nyenpa

This supplication was composed by H.E. Sangye Nyenpa Rinpoche in the early hours of 30th March 2012, in the presence of the precious remains of Kyabje Tenga Rinpoche.
Immediatedly translated by Sherab Drime (Thomas Roth).

O site do Monastério Benchen postou um breve relato sobre a passagem de Kyabje Tenga Rinpoche.  Link para o site.

quinta-feira, 29 de março de 2012

Kyabje Tenga Rinpoche 1932 - 2012

Kyabje Tenga Rinpoche em 02 de março de 2012

Tristemente comunico o falecimento de Kyabje Tenga Rinpoche, a Corporificação do Refúgio entrou em Parinirvana hoje às 03:45 da manhã, em horário nepalês.
Rinpoche está no estado meditativo pós-morte chamado Thugdam.

Karmapa Kyenno por Kyabje Tenga Rinpoche


    A saúde de Kyabje Tenga Rinpoche está em um estado crítico neste momento, respirando raramente, seu pulso e sua circulação sanguínea estão muito fracos. No entanto, ele despertou em um momento no dia de hoje, demonstrando total controle sobre seu corpo físico e pediu a todos os seus discípulos que recitassem muitas e muitas vezes quanto possível a prece Karmapa Kyenno.

    Sua Eminência Sangye Nyenpa Rinpoche e todos os Lamas do Monastério Benchen, em Kathmandu - Nepal, estão reunidos em meditação próximos ao quarto do Rinpoche.

Recitação da prece Karmapa Kyenno:


Fotos em slide-show de Kyabje Tenga Rinpoche:
 


Coração Desperto

Chögyam Trungpa Rinpoche

O coração desperto provém de estarmos dispostos a enfrentar nosso estado anímico. Essa exigência pode parecer excessiva, mas é necessária. Cada um de nós deve examinar-se perguntando quantas vezes tentou um contato pleno e verdadeiro com seu coração. Quantas vezes não desviou o olhar, temendo descobrir algo terrível em si mesmo? Quantas vezes pôde olhar o próprio rosto no espelho sem se sentir incomodado? Quantas vezes tentou fugir lendo o jornal, vendo televisão ou simplesmente devaneando? Esta é a pergunta crucial: em que medida cada um de nós esteve em contato consigo mesmo no decorrer da vida?

(Fonte: O autêntico coração da tristeza, em Shambhala: A trilha sagrada do guerreiro, páginas 47 e 48, no Blog Oceano de Dharma.)

quarta-feira, 28 de março de 2012

Enquanto isso, no Nepal...

Phakchok Rinpoche ensinando tarde da noite em Nagi Gonpa no Nepal.

Phakchok Rinpoche na prática de oferenda de 100 mil Tsogs, no templo da Caverna Asura, Nepal.


segunda-feira, 26 de março de 2012

Estejas presente!


O Grande Mestre Guru Rinpoche disse:

Centenas de coisas podem ser explicadas, milhares descritas

Mas uma coisa apenas deverias reconhecer.

Conhece esta única coisa e tudo é liberado -
Permanece na tua natureza intrínseca. Estejas presente!

domingo, 25 de março de 2012

Montanha de Jóias


Preciosas imagens em video de Sua Santidade Dilgo Khyentse Rinpoche.
Este filme  é o primeiro de uma série sobre a vida dele, as imagens são de Vivian Kurz e Matthieu Ricard e a edição de Nathaniel Dosky.
Clique no link abaixo e assista, curta-metragem em inglês sem legendas.

sexta-feira, 23 de março de 2012

Sede



"Se você tem sede, beba o chá da atenção e da vigilância".

                                                              Jetsun Milarepa

quinta-feira, 22 de março de 2012

Longa Vida


Milhares de pessoas se reuniram ontem, 21 de março de 2012, para receber a iniciação de Longa Vida de Sua Santidade Sakya Trizin. A iniciação aconteceu no Monastério Gyang Guth, em frente a Stupa de Boudhanath, em Kathmandu no Nepal.

foto de Thomas L. Kelly

terça-feira, 20 de março de 2012

Cerimônia Cremação de Dungse Thinley Norbu Rinpoche

    
    Imagens em video da cerimônia de cremação de Dungse Thinley Norbu Rinpoche em Paro, no Butão. O ritual teve inicio as 4 horas da manhã do dia 3 de março, com o Kundum ainda dentro de um pequeno templo, ao amanhacer foi levado para a Stupa de cremação ao som de instrumentos rituais.

    A cerimônia foi presidida por Dudjom Yangsi Rinpoche, Sangye Pema Zhepa Rinpoche e entre os muitos mestres presentes, podemos ver nas imagens Dzongsar Khyentse Rinpoche, Dungse Garab Rinpoche, Loppon Nikula e Kathog Situ Rinpoche.

     O quietamente sugere respeito ao assistir as imagens desse momento único, obrigado.




segunda-feira, 19 de março de 2012

Precioso Ensinamento do Treino da Mente - III

Jigme Khyentse Rinpoche



Ensinamentos em Barcelona, dia 7-10-2004. (Parte 3 de 3)

Por Jigme Khyentse Rinpoche


    Estamos aqui a receber ensinamentos sobre “As 8 estrofes para o treino da mente”. Tenho a certeza de que podemos ouvir muito sobre este treino da mente nas zonas onde se ensina o budismo Mahayana. Se assim não for, é muito estranho. O que quero dizer é que no passado praticou-se de uma forma muito secreta. E vós sabeis porque é secreto? É secreto porque normalmente é muito difícil que a gente tenha o suficiente mérito para escutar estes ensinamentos. É difícil devido aos pontos de referência aos quais estamos acostumados. Imaginai o difícil que é, o quanto nos custa compreender, que os outros são importantes e que as nossas coisas não são tão importantes. Inclusive se contarmos isto a alguém, é muito difícil que esta pessoa capte a ideia. O mero facto de podermos escutar estes ensinamentos, e não falo aqui de os aplicardes, só de os puderdes escutar, e não pensardes que são malignos ou estranhos, já demonstra que tendes muito mérito acumulado. O simples facto de escutar estes ensinamentos e apreciá-los, isto em si mesmo já é uma prática, já é o início do treino da mente. Não é secreto porque é algo de mau que há que esconder, ou porque não o querem partilhar por falta de amabilidade. É secreto porque as pessoas simplesmente não o podiam acolher.

    Assim alguns de vós podem perguntar-se o que quero dizer com mérito. O mérito é a habilidade de apreciar algo que é positivo. O mérito é a capacidade de transformar algo negativo em algo positivo. Inclusivamente algo realmente difícil. Tomar-se esta situação de forma muito positiva é devido ao mérito. E deste mérito vem a raiz do treino da mente. Deste ponto de vista o mérito é a habilidade, a capacidade. Então o que vos quero recordar é que o que se trata aqui é de mudar o ponto de referência usual que temos, o de pensar que nós somos o mais importante e que as pessoas nos devem algo. Esta crença baseia-se em nos considerarmos mais importantes. E com isto tentamos ser felizes. E devemos tentar encontrar algumas razões para pensar que nós não somos os mais importantes. Vamos imaginar que é verdade, que nós somos os mais importantes. Mesmo que o fossemos e nos comportássemos dessa maneira, que conseguiríamos com isto? Não muito. Porque não podemos convencer todo o mundo. É como dissemos ontem. Se hoje me vou encontrar com 100 pessoas, não posso convencê-las a todas de que eu sou mais importante do que elas. Assim e em consequência, surge a raiz da ideia de como é difícil pensar em nós como os mais importantes. Imaginai, é mais fácil convencer 100 pessoas ou uma só, nós mesmos, de que não somos os mais importantes? E quando tentamos convencer os outros de que nós somos os mais importantes, então é tentar convencê-los de que eles não são os mais importantes. E a 100 pessoas como eu, vai ser tão difícil convencê-los disto. É por isso que pensar que somos mais importantes é como um sonho bonito, mas não é prático. Convencer os milhões de pessoas que há neste mundo de que eu sou mais importante do que todos eles, isto é impossível. Assim é melhor não tentarmos. Convencer-me a mim mesmo de que sou menos importante que todos os outros, em vez de tentar convencer todos os outros de que eles são menos importantes, isso é algo que se pode compreender facilmente. Agora, se eu posso convencer-me a mim mesmo de que sou o menos importante, e que todos vós sois mais importantes que eu. Então, que acontece? Vós estareis todos mais contentes. É mais fácil convencer-vos de que vós sois mais importantes que eu, do que convencer-vos de que eu sou mais importante que vós.

    Assim, como podeis ver, o treino da mente não é algo impossível. O contrário a ele, o que pensamos normalmente, isso é algo impossível. Mas para poder compreender isto necessitamos de méritos. Então, podemos perguntar-nos, o que é que podemos fazer? “Dá-me um mantra para que o possa recitar. Dá-me algo que possa fazer. Que possa sentir que estou fazendo algo”. Mas não tem nada que ver com isto. A primeira coisa de que temos que dar-nos conta é que tomar os outros como mais importantes que nós, é algo lógico, prático, fácil e possível de fazer. E pensar que podemos conseguir algo, a felicidade, pensando que nós somos mais importantes que os outros é uma loucura. É uma loucura maior que querer ir à lua num táxi. Hoje em dia nós podemos ir à lua. Há uma companhia de aviões que tem um avião que pode ir à lua, vi-o na televisão espanhola. Não sei muito bem o que estavam a dizer, mas esta foi a conclusão a que cheguei. Se alguém paga muito dinheiro poder conseguir chegar à Lua, ao espaço. Ir ao espaço é mais fácil que convencer outra pessoa que nós somos mais importantes do que ela. O primeiro verso que lemos dizia que tínhamos que considerar os outros como mais importantes. E para poder fazer isto temos que pensar que nós somos menos importantes e considerar os outros, desde o fundo do nosso coração, como alguém muito querido. Para poder fazer isto, temos que observar a nossa mente para que não se implique em emoções que tragam dano aos outros que nos são tão queridos, e tão-pouco a nós mesmos.

                  IV   Quando encontrar um ser malévolo  
                          Esmagado sob os males que inflige e sofre,  
                          Possa eu aprecia-lo como se tivesse achado   
                          Um precioso tesouro tão difícil de encontrar!  

      Que quer dizer este verso? Pois diz que quando nos encontrarmos com alguém que nos produz aversão ou medo, então temos que pensar que esta pessoa é alguém muito precioso. Aqui referimo-nos a alguém que pela sua aparência física, ou maneira como fala nos produz rejeição. Ou também pela maneira como nós pensamos que ele pensa, ou qualquer coisa que nos pode ocorrer e que cria em nós esta aversão. Devemos ter a determinação de superá-la e de apreciar este ser. Então, como podemos apreciá-lo? Primeiro não temos que desviar o olhar, seja fisicamente afastando os nossos olhos, ou interiormente fechar-nos. Temos que abrir-nos, não fechar-nos. E quando fazemos isto, não é agradável. Se isto fosse fácil, então todos os seres o estariam a fazer. Todos seriam Budas. É por isto que é difícil. É por isto que é uma coisa tão estranha. Em certo sentido diria que é importante libertar-nos do mal-entendido da prática do Dharma nos fazer felizes. Porque quando fazemos este tipo de treino nos damos conta que não é fácil. Assim podemos pensar, “que estou a fazer? ”. Sigo esta coisa, estou a estudar esta coisa para ser feliz e tudo o que me manda fazer são coisas difíceis. A questão aqui é que, quando pensamos em felicidade, pensamos em algo que consiste em desapegar-mo-nos das emoções que nos surgem. Por exemplo, alguém que é um fumador empedernido, se dissermos a esta pessoa que se deixar de fumar vai ser feliz… quando deixar de fumar não se vai sentir feliz. Quando praticamos o Dharma não deveríamos pensar na felicidade que nos traz o Dharma, tal como alguém que está sob a influência de um produto, por exemplo alguém que está a fumar. Todos podemos dizer que somos viciados nalgum tipo de produto, como o tabaco ou outro tipo. Mas somos todos e da mesma maneira levados a seguir as nossas emoções. Então, o treino da mente trata de reduzir estas dependências.

    Assim quando começamos o treino da mente devemos perceber que vamos ter sintomas de abstinência. Assim quando começamos com a prática do treino da mente e surgem dificuldades, isto são simplesmente os sintomas de abstinência, não é assim tão grave. Às vezes, havendo-o praticado durante algum tempo, podemos pensar: “isto não funciona. Ainda não mudei. Estava melhor como fazia anteriormente” e voltamos aos velhos hábitos. E isto não é diferente de alguém que tenta deixar de beber ou fumar. Tenho a certeza que as pessoas que fumam e querem deixar dizem: “a partir de amanhã vou deixar de fumar.” É o mesmo que ocorre quando estamos a praticar. Quando praticamos não temos que acolher a prática para substituir, para tentar substituir, o nosso vício anterior. Deste ponto de vista, há que considerar que não podemos esperar essa felicidade com a nossa prática.

A dependência mais difícil de superar é a de pensar que “eu sou o mais importante”.

    Às vezes tentamos mudar este pensamento, então começamos a pensar que somos o pior de todos, no sentido que nos aniquilamos a nós mesmos. Temos essa forma de o interpretar, pensando que somos os piores, mas isso não funciona.

    Quando dizemos “nós não somos importantes, são mais importantes os outros”, então estamos dizendo-o, estamos talvez pensando-o, mas realmente nas entranhas não o sentimos. O que temos que fazer aqui é permitir que este pensamento, “eu sou menos importante”, afecte os pontos de referência e pouco a pouco penetre em nós, nas nossas emoções. E para este processo necessita-se paciência. A impaciência é um sinal de que ainda temos este pensamento de que “eu sou o mais importante”. Aqui a paciência que necessitamos é aquele tipo de paciência que sentimos: “ainda que me custe cem anos de trabalho, só para sentir-me 5 minutos menos importante que os outros, vou fazê-lo.”. Um aspecto disto é o facto de que diminui o exigente que somos. Isso é treino da mente. Claro que é importante também o facto de que podemos fazer o treino da mente numa sessão formal que temos estabelecido para nós. Mas isto é simplesmente a preparação, o facto real é quando estamos com os outros. E, por esta razão, Atisha levou, quando foi ao Tibete, um homem da Índia que não era seu assistente. A sua única função, com o seu carácter muito irritante, não era ajudar os outros senão a Atisha a treinar a sua mente. E por isto diz-se aqui, no treino da mente, que quando nos encontramos com outra pessoa temos que pensar nela como algo precioso difícil de encontrar. E realmente apreciá-la como um precioso tesouro.

                          V  Vítima do ciúme e da inveja,  
                               Alvo de injúria e de desprezo,  
                               Que a derrota me aconteça:  
                               Ofereço a vitória aos outros!

    Este verso é simplesmente a extensão dos versos anteriores logo recordam-nos da importância dos outros seres. Realmente compreender o que é isto a que chamamos “os outros”. Quando dizemos “os outros”, que sentimento surge em nós? Agora não tendes que pensar nos outros como se estivésseis numa ilha deserta, não. Pensai, agora mesmo, que sinto quando digo “os outros”. Na minha própria mente, ao menos, não dou um salto de alegria. Pelo menos, na minha própria mente, não dou um salto de alegria. Tento o melhor que posso para dar um salto de alegria, mas não consigo. No melhor dos casos, os outros são como uma espécie de peões de xadrez. E creio que me ocorre isto porque não passei tempo suficiente pensando nos outros. Por exemplo, pensamos: “esta noite estiveram algumas pessoas nesta sala.”. A maioria de vós só vê a nuca das costas das pessoas que têm à frente. Agora mesmo, olhai uma só pessoa, vede as costas diante de vós como um amigo. Esta pessoa, além das costas tem nariz, boca, olhos, alguns têm óculos, outros enfeitaram-se esta manhã e levam o que se chama a “barba das 5 da tarde”. E não só esta, se pensais: “todas as pessoas que estão aqui alguma vez foram uma criança. Quando eram crianças estavam desprotegidos. Crianças que não se podiam valer a si mesmas, que gritavam e não deixavam dormir os seus pais. Que fizeram os seus pais passarem durante muitos meses, quando não anos, muitas noites sem dormir. O que está claro é que todos temos contribuído muito para que os nossos pais tenham rugas e cabelo branco. E do que não há dúvida, é que alguns de vós estão passando o mesmo que passaram os vossos pais.

Então, quando dizemos “os outros”, este “outro” que está diante de nós tem uma cara, tem sentimentos, vai para casa, tem um trabalho… porque não queremos as outras pessoas como uma responsabilidade nossa? Porque não o queremos? Por medo. Quando falamos dos outros trata-se de seres sensíveis como nós. Da mesma maneira que nós queremos ser felizes eles também o querem ser. E tenho a certeza que da mesma maneira que eu não quero sofrer, os outros seres tão-pouco querem sofrer. Mas este tipo de pensamento não é muito prático. Imaginai que estais no trabalho prestes para ir para casa e alguém telefona e vos pede ajuda, vais dizer-lhe: “sinto muito, terminou o meu horário do escritório”? Porque o dissemos? Por medo. Pelo medo de ter de aceitar outra pessoa. Pensamos que não podemos dizer “sim”, porque se o fazemos logo virá outro, e outro e outro… e logo não poderei ir dormir. E isso é do que trata o ensinamento da mente.

    Depende do quão longe queiramos ir. O treino da mente trata de desenvolver um estado de ausência de medo. O libertar-nos do medo de estar ameaçados, este é o treino da mente. De facto quando dizemos a alguém: “não quero, o escritório está fechado.”. Ali, na resposta, está implicado o medo. O treino da mente trata de dispersar este medo. Não se trata de fazer “horas extras”, só trata de eliminar este medo. Eliminar o medo, esteja ele onde estiver. Hoje em dia, quando há uma guerra, escondem-se nas igrejas ou nas mesquitas, entendeis o que quero dizer? Os terroristas, hoje em dia, refugiam-se dentro das igrejas ou mesquitas, para que os outros não disparem. Da mesma maneira, nós também nos escondemos dentro das igrejas do nosso próprio medo. Fazemos isto quando dizemos: “o escritório já está fechado”. Tratamo-lo como se fosse algo sagrado. Assim o treino da mente não implica, de todo, que façamos “horas extras”, trata antes da erradicação do medo. A nossa mente vai fazer com que isto soe como se estivéssemos a atacar alguém. Quando a polícia chega e quer tirar os terroristas da igreja, onde se refugiaram, estes vão dizer que os polícias estão a atacar um lugar sagrado. E isso é o que vai dizer o nosso medo. Assim podemos estar muito seguros de que quando estamos a aplicar o treino da mente, não se trata de nos convertermos em escravos, simplesmente trata-se de erradicar o nosso medo. Aqui diz: “quando outros, devido à inveja me maltratam, acusando-me e depreciando-me…”. O que isto quer dizer é que, quando vêm ao nosso escritório não só querem que os atendamos fora de hora quando ainda por cima nos maltratam e nos insultam, diz-nos também que aceitemos a derrota e lhes dêmos a vitória. O que quer dizer aqui é que não sucumbamos ao medo. E deste ponto de vista, o não responder ou reagir, não quer dizer que nos deixemos maltratar ou que os outros abusem de nós. Mas para poder fazer isto realmente necessitamos duma grande maturidade dentro do treino da mente. Necessitamos dum certo grau de compreensão do treino da mente, porque senão podemos pensar que fazer este tipo de coisas não está feito para nós. E podemos pensar que se fizermos esse tipo de coisas vamos ficar piores, vamos ser piores. Pensar assim, é não ter maturidade suficiente no treino da mente. E é por isto no princípio a compreensão é algo tão importante. No treino da mente, para conseguir esta maturidade, não é suficiente escutá-lo uma vez, há que escutá-lo, contemplá-lo, estudá-lo, logo surgirão muitas dúvidas, e essas dúvidas há que dispersá-las e eliminá-las com o debate, seja consigo mesmo ou com os outros.

Com isto tudo não quero dizer que é necessário que vos surjam dúvidas. Se não surgem dúvidas, óptimo, mas se elas surgirem não é nada mau. As dúvidas estão aí para que trabalhemos com elas. Quando diz aqui: “… que aceite a derrota…”, aqui “derrota” refere-se ao que normalmente chamamos e tomamos como uma derrota. Mas na realidade não é nada uma derrota. Na realidade, é ser “não ferido”. Na realidade é não permitir ser maltratado. Não permitir que as palavras e as acções nos afectem. Aqui trata-se simplesmente de não ser tão fraco. Aqui trata-se de ter a força suficiente, confiança e valentia para tomar a derrota para nós. Ter a coragem de oferecer aos outros a vitória. E então, sob este ponto de vista, estas quatro linhas não soam tão mal. Quando só ouvimos estes versos: “quando outros, devido à inveja, me maltratam, acusando-me e depreciando-me, que aceite a derrota, e lhes ofereça (a eles) a vitória”, pode soar estranho, mas não é. De facto oferecem-nos algo mais doce, mais saboroso e do que a mera compreensão normal que deles podemos ter. Os Ensinamentos de Buda têm uma qualidade especial, quanto mais os praticamos e os aplicamos, mais poderosos se tornam. Estas linhas, ainda que as tenhamos lido vinte anos, se as voltamos a ler, encontramos sempre algo de novo.

                 VI   Quando alguém, a quem ajudei,  
                        Em quem depositei todas as minhas esperanças,  
                        Sem motivo, Injustamente se volta contra mim:  
                        Considerá-la-ei como o meu mestre sublime.     

    Aqui o verso dirige-se a algo mais profundo que os outros versos. Aqui quando, por exemplo, a pessoa que temos diante de nós, a tratamos como nosso próprio filho, ou nosso pai ou mãe, e logo esta pessoa nos trata mal, parece que temos direito de sentir-nos mal por isso. Alguém a quem quisemos muitíssimo, a quem dissemos ter como muitíssimo querido, alguém por quem temos muito apego. Por exemplo, quando pensamos no amor e na desilusão. Cremos mais no amor? Não sei se cremos mais no amor ou no apego. Mas quando a temos, sentimos essa coisa por alguém e então criamos muitas expectativas. E quando essa expectativa não se realiza, quando não somos correspondidos, então podemos sentir-nos devastados. Algumas pessoas podem inclusive perder a confiança na vida. Porque estas pessoas foram um ponto de referência para nós e agora maltratam-nos. Aqui diz: “Quando alguém, a quem tenha ajudado, em quem haja depositado grandes esperanças, me prejudique profundamente, sem motivo, possa eu considerá-la como o meu mestre sublime.” Mas como podemos fazer isto? 

Enquanto usarmos o amor para disfarçar o nosso apego ou as nossas expectativas, ou o nosso aborrecimento, não há nenhuma possibilidade de que possamos obter a felicidade. 

    A quem queremos enganar, com esta concepção adulterada de “amor”? Esta é a lição que se pode aprender aqui. Por isso o verso diz: “… que possa considerá-la como meu mestre sublime.” Por exemplo, com as pessoas com quem temos tantas expectativas, se por elas não tivéssemos apego, se a única coisa que tivéssemos por elas fosse o amor incondicional, então não nos teríamos que sentir tão devastados. Em vez de nos sentirmos aborrecidos, ou devastados, ou perder a confiança na vida, sentiríamos antes compaixão. Sentiríamos tristeza por eles. Mas não nos sentiríamos devastados. E não nos sentiríamos feridos. Tão-pouco pensaríamos que não é justo. Se pensamos que podemos ser felizes com o apego, com o aborrecimento, a inveja e o orgulho, então estamos sob o efeito da ilusão e muito enganados. Então, que temos que fazer?

    Expor-nos à compaixão, à nossa própria compaixão. Isto quer dizer que nos permitimos sentir compaixão. Que não tenhamos medo da compaixão. E como o fazemos? Teremos que aceitar que há outras pessoas, para além de nós, neste mundo. Que há gente. Que isto não é só uma ideia, uma crença. Gostaria de ser o único! Mas há tantas pessoas! Assim, quando tentamos aceitar os outros, no princípio é difícil, mas depois acostumamo-nos. É assim que nos acostumamos a esta sensação difícil de que há outros seres e isto é muito importante. Então, quando queremos fazer isto, temos que aceitar que essa pessoa não é feita de cartão como uma marioneta. Essa pessoa tem sentimentos, e faz coisas um pouco diferentes das que nós fazemos. E este é o seguinte passo que temos que aceitar. Temos que sentar-nos e pensar nisto. Contemplar o ensinamento até que estejamos preparados para realmente pô-lo em acção. E logo surge o desejo de realmente experimentá-lo, de pô-lo em prática. Imaginemos que tendes toda um piso de um bloco de edifícios para vós. Então, no princípio, com todo este piso a que vos tendes de acostumar, surge-vos a ideia que poderíeis alugar algum quarto. Então, no princípio, há que acostumar-se a este pensamento: “talvez poderíamos alugar um quarto.” Temos que dar-nos algum tempo para nos acostumarmos a esse pensamento. Temos que contemplá-lo. Imaginamos que há ali alguém a viver conosco. Meditamos nisso. Então, temos de imaginar que essa pessoa vem ao nosso piso com todas as suas coisas, e que tem o hábito de ir para a cama desfasado do nosso. E a maneira como se move é diferente. E quando se senta, não se senta suavemente, se desapruma. Há que imaginá-la. E quando nos tenhamos acostumado à ideia, então podemos pô-la em prática. Podemos imprimir o papelito “alugam-se quartos”. Quando pudermos fazer isto, libertamo-nos de bastante medo. E então quando vem a pessoa, ou inquilino, não nos sentimos ameaçados. Quando não nos sentimos ameaçados, sentimo-nos mais abertos. Podemos, de alguma maneira, ser amigos. Quando não nos sentimos ameaçados podemos gerar esse desejo em nós mesmos. De certa maneira, quando essa pessoa não está contente, não está feliz, então nós nos sentimos preocupados com ela. E este sentimento pode-se desenvolver até ao ponto de não podemos suportar o sofrimento do outro. E isto é o que chamamos compaixão.

                 VII     Possa eu, directa e indirectamente,  
                           Vos oferecer mães queridas, toda a paz e a felicidade,  
                            E secretamente tomar sobre mim 
                            Toda a vossa negatividade e todos os vossos sofrimentos.

    E então surge em nós uma ausência de medo e um coragem tal, que podemos estar completamente abertos aos outros. E já não há medo de sentir compaixão. E então, neste momento, podemos tomar sobre nós o seu sofrimento. Talvez não podemos dá-la, mas temos essa disponibilidade de dar, de querer dar-lhes a nossa felicidade.

                 VIII    Que em todo o momento a minha mente
                            Não se contamine com as oito preocupações mundanas,
                            E, quando reconhecermos que todas as coisas são ilusórias,
                            Livre de apego, libertará todos os seres dos seus laços.
      
    Quando tentamos treinar a nossa mente, não o fazemos para chegar a ser ricos, ou por medo de não ser ricos, nem tão-pouco o fazemos para libertar-nos das coisas desagradáveis, nem tão pouco para conseguir elogios, nem tão pouco o fazemos por medo da crítica, nem para conseguir fama, tão-pouco pelo medo de não sermos apreciados, nem para que os outros olhem para nós, tão-pouco por medo de sermos ignorados. Fazemo-lo para libertar a nossa mente das ataduras às emoções negativas, para assim podermos libertar todos os seres. E desta maneira estamos a faze-lo, compreendendo que o estamos a fazer, compreendendo que tudo é mera ilusão. Isso quer dizer simplesmente “que não estamos presos pelas nossas emoções negativas”. Estamos livres para nos agarrarmos a essa ideia de que podemos obter libertação das nossas ataduras.
     
    E agora que lemos estes 8 versos, que fazemos? Como faremos?

    O que quero dizer aqui é que é possível utilizar isto como uma prática diária. Os primeiros sete versos há que lê-los, pelo menos, um cada dia. O oitavo verso há que lê-lo cada dia acompanhado de um dos outros sete versos. No primeiro dia lemos o primeiro verso e o oitavo. No segundo dia, o segundo verso e o oitavo. E assim sucessivamente. O que necessitamos fazer é que esse verso, durante esse dia, seja importante. Assim pela manhã, quando nos levantamos, fazemos tudo o que fazemos normalmente. E logo nos surge, “pelo bem de todos os seres, vou recordar este ponto, este verso”. Não importa que não possamos praticar bem o que diz o verso, o que temos de fazer é que o dia seja “encantado”, “enfeitiçado”, por esse verso. E no dia seguinte, o seguinte verso. E desta maneira temos, para cada dia da semana, um verso sobre o qual reflectir. E não vos deixais incomodar por uma “boa prática”. Não tendes que procurar uma boa prática. Simplesmente, pela manhã, o ledes, uma vez, e ao passar umas horas volteis a lê-lo. É impossível que não tenhais tempo de ler oito linhas. Não vos pode fazer mal. Talvez pode ser que vos faça a vida um pouco difícil. O que vos custará? Dois segundos? Cronometramo-lo? 10 segundos? 14 segundos, 28 segundos os dois. 28 segundos cada 2 ou 3 horas. Assim que vamos dizer que o fazeis cada 6 horas. Tudo depende… (?) assim que o possamos fazer antes de irmos para a cama, e logo após nos levantarmos. Devemos dividir todo o tempo que passamos acordados em 6 partes, e ler o verso 6 vezes. No total, um máximo de 3 minutos por dia, e isto não é muito. Inclusive a pessoa mais atarefada do mundo, é impossível que não possa ter 3 minutos para fazê-lo. E assim que o tenhamos decorado, então temos que contemplá-lo. Podeis ser generosos e lê-lo mais de uma vez.

    Assim foram estes os 8 versos. Enquanto estais lendo estes versos, por favor, pensai na impermanência. Tudo, tudo, começando pelo universo e terminando por nós mesmos, é impermanente. Se estamos felizes agora, isso é impermanente. Se estamos tristes e infelizes, isso também é impermanente. Se temos êxito, isso também é impermanente. Não só isto, também o nosso corpo é impermanente. E isto tudo depende das nossas acções. As acções positivas e negativas. E com base nisto, a aplicação da lei de causa e efeito é muito importante.

    No caminho budista a felicidade depende das nossas próprias acções. Disto depende o nosso próprio sofrimento. Não podemos ser felizes tentando, de alguma maneira, subornar o Buda. Tão-pouco os Bodhisattvas. Confirmo-o. Não sei, o Buda gostaria? Não pode. E é por isto que o Buda ensinou os Ensinamentos do Dharma. Os Ensinamentos de Buda, realmente, são baseados nisto. O treino da mente também baseia-se nisto. Devido à lei de causa e efeito é possível treinar a mente. Diminuindo as causas do sofrimento e aumentando as causas da libertação, assim funciona o treino da mente. Não há nenhum mistério no treino da mente!




Prece pela longa vida de Jigmé Khyentsé Rinpoché:

OM SVASTI, DJIGMÉ RABJAM TSÉ EU TCHINLAP KYI
Om svasti! Que a intrepidez infinita das bênçãos de vida e de luz
KYENTSÉ DEUKAR LOUNGZIN NUDÉN TCHOK
Permita ao Poderoso supremo, encarnação profetizada de Khyentsé,
CHAPZOUNG MICHIK DORJÉ TARTÉN TCHING
Gozar de uma longa vida e de uma saúde indestrutíveis como o diamante.
TÉNDROR MÈNPÉ TRINLÉ TARCHIN CHO
Para levar a término todas as suas actividades destinadas aos ensinamentos e beneficiar todos os seres.


(Nota: Sua Santidade Dalai Lama também conferiu este ensinamento, em São Paulo chamado "Oito Versos que Transformam a Mente", a versão em português do brasil foi postada AQUI em junho passado.)

domingo, 18 de março de 2012

Precioso Ensinamento do Treino da Mente - II

Jigme Khyentse Rinpoche e Dzongsar Khyentse Rinpoche


Ensinamentos em Barcelona, 6-10-2004. (Parte 2 de 3)

Por Jigme Khyentse Rinpoche


    Quando pensamos no treino da mente, é algo em que temos pensado durante bilhões de vidas. 

     II         Possa eu, em qualquer companhia,
                 Ver-me como o mais humilde
                 E de todo o coração prezar o meu próximo
                 Pela sua supremacia!  

    Considerar os outros como os mais importantes, não é porque a nós nos falte confiança. Não é porque pensemos que nós somos inferiores ou incapazes, não é por nada disto. O primeiro verso diz-nos que os seres são muito valiosos, como um tesouro. No segundo verso diz-nos que temos que considerar os outros seres como superiores a nós. E como dissemos, não é porque sejamos débeis, inúteis. É porque pensamos que somos menos importantes do que os outros. Porque que é que então nós mudamos esta ideia? Porque se nós andamos por aí pensando que somos os mais importantes, então pensamos que os outros nos devem algo, temos expectativas muito altas. E qual é a consequência de ter as expectativas tão altas a respeito dos outros? Pois a frustração, o sofrimento, os anti-depressivos. Não é só isto, como também vamos sentir que o mundo inteiro está por nossa conta. Assim é simplesmente inverter isto ao pensarmos que nós somos menos importantes que os outros. Se olharmos, num certo sentido, observamos que neste mundo há duas coisas: os outros e eu. E os outros, quantos milhões são? Só na China há 1.200 milhões de habitantes. E em Espanha quantos há? 40 milhões? E aqui em Barcelona? 4 milhões. O que é mais importante, 4 milhões ou uma pessoa? Não é 4 milhões, senão 3.999.999. Se continuar contando matematicamente nós terminamos sendo o menos importante. Matematicamente somos o menos importante. Assim este verso não diz nada que não seja verdade. Se não gostamos do que diz é simplesmente porque não gostamos da verdade. E da próxima vez que nos sentirmos aborrecidos ou irritados com alguém temos que dizê-lo a nós mesmos.

    Outro ponto é ver se temos que aceitar que somos o menos importante. Se pensamos que sim não é lógico pensar que todo o mundo nos deve algo. É pouco lógico pensar que aqueles que são mais importantes devam algo a alguém tão insignificante. E podemos começar pensando: “Bom, não somos tão importantes”. E nós despertamos pela manhã e temos menos expectativas de que todo o mundo nos deve algo. E saímos de casa, ninguém nos dá nada, mas (por 10 minutos?) não nos sentimos frustrados. Há uma expectativa menos que colmar. Pelo contrário, se saímos a rua e pensamos que toda a gente é mais importante que eu, eu sou o menos importante, que posso eu fazer por eles? Desta maneira de certeza que haverá uma ou duas pessoas que serão felizes. Então, simplesmente trata-se de deixarmos o nosso sítio para estacionar outra pessoa. Então há outra pessoa que estará contente, e nós não estaremos frustrados. Não é só isto, estamos satisfeitos. Isto é a consequência de pensar que os outros são sublimemente importantes. Intelectualmente podemos entendê-lo. Mas, concretamente, na prática, já é outra coisa.

    Mas não há nenhum segredo. Simplesmente fazê-lo. É o que dizem na publicidade da Nike: “Just do it” (Simplesmente fazê-lo). Se os da Nike podem dizê-lo, porque não podemos dizê-lo com o nosso treino da mente? O que quero dizer é que os da Nike fazem essa publicidade, ensinam-nos: “fazê-lo”. Mas eles não o podem fazer. Eles não nos podem obrigar a comprar, depende de nós. O que fazem é copiar o que disse o Buda. O Buda disse: “Eu ensinei-vos o caminho, depende de vós segui-lo.” É aborrecido, não é? Simplesmente ter que fazê-lo. Em Portugal há um cartaz com um anúncio de Coca-Cola que diz: “Simplesmente bebe-a.” 

           III          Em todo o acto observarei a minha mente,
                         E surgindo aí a mínima emoção negativa,
                         Causa de todos os nossos tormentos,                                    
                         Afrontá-la-ei e eliminá-la-ei imediatamente.

    Para que os seguintes versos nos façam efeito temos que, pelo menos, ter confiança em que os outros são mais importantes que nós. O que estamos tentando mudar aqui é o ponto de referência da nossa vida diária, dos nossos hábitos, da nossa educação. Assim, de certa maneira, quando pensamos nos outros como alguém mais importante do que nós, não é simplesmente para sermos educados. É educado, é amável, mas esta educação, esta amabilidade, baseiam-se na racionalidade. Estas são as razões, segundo os Ensinamentos de Buda, pelas quais a mente necessita de treino. Treinar a mente não significa somente ter ideias novas, também significa dissipar as crenças antigas. E junto a este dispersar as ideias equivocadas, também estamos dispersando as consequências que trazem estas ideias equivocadas sobre a felicidade.

    Por exemplo, quando nos levantamos pela manhã, e pensamos: “que posso conseguir hoje para mim? O que poderei obter dos outros para meu bem?” Este tipo de ideias não necessariamente nos vai trazer a felicidade. Poderíamos tentar. Podemos levantar-nos de manhã e com a primeira pessoa que encontremos podemos tentar que nos dê algo que queiramos. Talvez essa pessoa nos pareça pequena, débil, e podemos obrigá-la. Inclusive se todas as pessoas forem mais débeis que eu, menos inteligentes, mais pequenos, conseguiremos realmente que façam aquilo que queremos? Imaginai num dia quanta gente vamos encontrar? Talvez no máximo 100, com os quais tendes uma interacção. Imaginai, tentar que 100 pessoas façam aquilo que nós queremos. É tão cansativo! Normalmente, não pensamos desta maneira. Pensamos simplesmente que vai funcionar. Nunca comprovamos a nossa estatística. Não olhamos a nossa própria experiência para comprovamos se funcionou, simplesmente fazemo-lo, cada ano, cada hora. Não funciona, mas fazemo-lo. Mas agora podemos olhar-nos. Imaginai-vos terem que conseguir que 100 pessoas façam aquilo que nós queremos, cada dia. Vamos ir mais longe, vamos pensar: “se não fazem o que queremos, vamos lutar”. Imaginai as 100 pessoas, quantas vezes tereis de lutar, para conseguir o que quereis? Vamos imaginar que lhes damos 10 murros. E às seguintes 99 pessoas, quantas vezes teremos que bater? Dar 1000 murros. Imaginai, ter que dar 1000 murros a todas essas pessoas.  No dia seguinte tereis que ir ao médico osteopata. Assim é impossível. Mas ainda assim estou certo que pensais que isso é possível. A isto chama-se fé cega. Talvez nem todos nós nos consideremos crentes. Mas o que pode ser fé mais cega que isto? Assim, nós em vez de pensar que somos mais importantes que os outros, que os outros nos devem algo, deveríamos pensar que os outros são mais importantes que eu, que os outros não me devem nada, e temos menos 1000 muros que dar cada dia. (…)

    Ao princípio, considerar os outros como mais importantes, pode-nos soar um pouco estranho, mas logo vemos que é tão razoável. Imaginai, não terdes que dar 10.000 muros a mil pessoas numa semana. E em 100 dias, imaginai o que haveis poupado no desgaste do vosso punho. E não é só isto, quando a gente se aborrece e pega um murro não o faz em silêncio, temos que gritar. Pois imaginai as vossas cordas vocais, o esforço que têm de fazer. Assim considerar os outros como mais importantes que nós parece-me uma coisa tão simples e pequena, mas com muitas vantagens. E em vez de ser uma coisa que nos dá medo, que nos ameaça, é exactamente o contrário.

    Mas este tipo de treino da mente requer certo compromisso, esforço da nossa parte. Só pensar que tudo isto é necessário, não é suficiente, não nos vai ajudar. Não importa o quanto estranho que nos possa soar, temos que aplicá-lo e praticá-lo um pouco cada dia. Temos que pensar nisso um pouco cada dia. Devemos quase fazê-lo uma rotina nossa, até que surja de uma maneira natural. Mas agora a ideia que nos surge naturalmente, é a ideia de que eu sou mais importante que todos os outros, que os outros me devem algo. Até que vós não tenhais mudado esta maneira de pensar, mudará muito pouco.

    Agora só para a diversão, como um jogo, imaginai: alguém que está completamente bêbado, doente e cansado, que necessita de um sítio para dormir, e temos que hospedá-lo em nossa casa. É muito difícil quando alguém procura guarida dizermos: “eu, eu!”. E este é o ponto que queremos mudar. Se, por exemplo, o que está bêbedo e necessita dum sítio para dormir é Bill Gates ou um multimilionário, estou certo que inclusive se quisermos forçar a nossa mão para que não se levante, ela se levantará automaticamente. Ou imaginai que não é Bill Gates, é Brad Pitt ou Cláudia Shiffer. É esta reacção que temos nesse momento a reacção que queremos mudar quando fazemos treino da mente. Até que isto não mude não seremos capazes de adestrar a nossa mente. E para isso temos que pensar muito. Temos que pensar de uma forma muito repetitiva. Contemplar o pensamento que os outros são mais importantes, e realmente pensar nas vantagens disto. Simplesmente, temos que pensar que podemos mudar esta ideia de que “os outros devem-me algo”, e podemos mudá-la pela ideia de “que podemos fazer nós por eles”. Até que esta mudança não surja de forma natural, o nosso treino da mente sempre será como uma luta. Pois, se nós ouvimos falar do treino da mente e o queremos aplicar, só isso não funcionará. E não é que o treino da mente não funciona, é simplesmente porque todavia não criamos as condições para que funcione.

    Creio que todos haveis ouvido dizer as práticas budistas, como por exemplo a prece do Refugio ou a prática da Bodhichita, tem-se que recitar 100.000 vezes. A razão pela qual se recitam 100.000 vezes é que estas constituem um mínimo para que a nossa mente se acostume a ela. O que está claro é que se o recitamos uma e outra vez, e a nossa mente não está concentrada no significado, então não tem muito efeito. E se temos que concentrar-nos nisto 100.000 vezes, é aborrecido. Imaginai que tendes que estar concentrados 100.000 vezes no pensamento que “os outros são mais importantes, e que eu sou o menos importante”. Assim só concentrar-se e repeti-lo 100.000 vezes não é suficiente. A maneira de fazê-lo interessante é pensar nas vantagens. As vantagens de não ter de lutar com todo o mundo cada dia. E quando lutais com todas estas pessoas, elas não vos vão simplesmente dizer “olá!” Vão lutar também. Se pensarmos assim nisto, ao não estarmos incomodados, agredidos pelo aborrecimento, o apego, tudo isto é mais interessante.

    Se tendes que pensar no Wooddy Allen 100.000 vezes pode ser um pouco aborrecido, lamento se aqui há algum fã. Algum actor espanhol? António Banderas. E uma rapariga? Penélope Cruz. É bonita? Quem gosta deles? Se tivéssemos que pensar 100.000 vezes no António Banderas, sendo raparigas ou alguém que é fã dele, isto não seria nenhum problema, simplesmente estaríamos sentados pensando nele. Imaginai se pudéssemos estar aí sentados e só ver a Júlia Roberts. Antes de vos sentardes a olhar para todas estas belezas, imaginai que alguém vos diz que vos podeis sentar e tereis de contemplá-la durante 100.000 horas. Ao princípio creio que não vos queixarias. Da mesma maneira, quando estamos aqui pensando nisto, temos que fazê-lo interessante.

    Imaginai se tivesses a hipótese de ir jantar com o Wooddy Allen ou António Banderas. Assim que quando pensamos neste treino mental, no importante de considerarmos a nós como os menos importantes, as vantagens que podemos ter para nós com esta mudança de atitude e o que nos podemos poupar. 

                 “ Em todo o acto observarei a minha mente,
                    E surgindo aí a mínima emoção negativa,
                    Causa de todos os nossos tormentos,
                    Afrontá-la-ei e eliminá-la-ei imediatamente.”

      Em todo o tipo de actividades que podemos levar a cabo, quando falamos, quando caminhamos, quando pensamos, o estar consciente de qual o tipo de emoções surgem em nós, isso é algo muito importante. Ao princípio, nem sequer vamos falar de estar conscientes das emoções que tenhamos, no princípio só estar consciente já é muito difícil. É tão aborrecido, tão cansativo. Porque a nossa mente está acostumada à distracção total. Está acostumada à excitação. E se não está, começamos a sentir-nos desanimados e às vezes deprimidos. E é por isto que quando começamos a praticar, os nossos Mestres nos ensinam práticas como “shiné”. Estou certo que alguns de entre vós já tentastes fazer isto. Por exemplo, o exercício da atenção consciente da respiração. Simplesmente respirar e estar conscientes que estamos respirando. Simplesmente inspirar e expirar, e quando inspiramos, estar conscientes, e quando expiramos, estar conscientes. Observai simplesmente, se podeis estar conscientes durante três ciclos de respiração consecutivos. E quando haveis terminado o terceiro ciclo de respiração, então podeis dizer que haveis estado conscientes, por dedução ou por experiência. Quando digo aqui dedução quero dizer pensar: “estive consciente durante estes três ciclos de respiração.” Simplesmente, quando fazemos isto de respirar três vezes, para vermos se podemos estar conscientes da respiração ou se há luta para estar conscientes. E inclusive só tentar estar consciente disto já é uma luta. E tentar estar conscientes, nas diferentes situações, do tipo de emoções que surgem em nós, é igualmente difícil ou mais. E inclusive mais difícil que estar consciente, é o aplicar essa mudança de atitude. Com isto não vos quero desanimar sobre o treino da mente. Mas não serve de nada se pensamos que é fácil. Mas, comparado com o facto de fazê-lo, então é muito mais fácil. Inclusive se a vida com o treino da mente não é fácil, a vida sem o treino da mente é muito mais difícil. Para nós é importante saber que quando aplicamos algo e surgem dificuldades, isso não quer dizer que a técnica não funciona, nem tão pouco quer dizer que nós não a fizemos bem.

    Agora, que fazemos quando surgem as emoções? O texto diz-nos, primeiro é estar conscientes do que ocorre na nossa mente. Requer valor. O valor de aceitar, de estar consciente todo o tempo. Somos seres humanos e temos uma consciência. Temos um “damos conta”. E o treino da mente requer que usemos isto. E não se requer algo que é extra a nós. Então, o primeiro é ter esse valor de estar conscientes logo quando nos damos conta de que surge a emoção, damo-nos conta que esta emoção não só faz dano aos outros, como também a nós. E deste ponto de vista diz-se: “possa enfrentá-las… eliminá-las com firmeza”. E para podê-las eliminar com firmeza necessitamos fazer umas quantas preparações. O primeiro que temos que fazer é mudar o ponto de referenciar e isto faz-se contemplando, logo temos que fazer esta contemplação de forma repetitiva, muitas vezes. Isto, de facto, requer algum tipo de planejamento, pensá-lo de antemão. Se temos isto, a próxima vez que surja a emoção estaremos preparados. Se não o temos, que vamos fazer? E inclusive se temos este pensamento de antemão, se surgem as emoções com muita força, que vamos fazer? Ficar imóveis. No Bodhisatvashariavatara diz-se que sejamos como um pedaço de madeira. E podeis pensar: “sim, mas se isso não nos tira a emoção de cima”. Não podemos ser demasiado selectivos, no princípio. No princípio temos que fazer ou aplicar o que podemos. Quando nos convertemos num pedaço de madeira, inclusive se não podemos mudar a coisa em si, mudamos o resultado da coisa.

    Normalmente estamos acostumados que no momento que sentimos algo, soltamo-lo, dizemo-lo. E isto nos deixa uma memória na nossa consciência. E isto vai-nos trazer outro resultado. Mas neste caso se surge a emoção e vamos dizê-la, temo-la na “ponta da língua” mas não a dizemos, isto muda a nossa memória. Inclusive se a pessoa que nos olha sabe o que pensamos dela. Se não lhe dizemos, alteramos essa memória. Podemos mesmo estar totalmente vermelhos, com os lábios tremendo, e os olhos desorbitados… mas não o dissemos. Se conseguimos não dizer nada algumas vezes, talvez depois de 100 momentos e situações assim conseguimos que os nossos lábios não tremam. Talvez depois de 100 vezes mais, os nossos olhos não estejam desorbitados. Depois de 100 vezes mais a nossa cara não esteja tão vermelha. E com 100 vezes mais não teremos essas palpitações no nosso corpo. Isto quer dizer que teve certo efeito sobre nós. Se por exemplo surge em nós o pensamento e nós actuamos com a palavra ou inclusive dando-lhe um muro, então isto cria em nós um hábito, e cada vez que surja em nós esse pensamento vamos fazê-lo. Mas, se pelo contrário, se surge o pensamento e nós nos convertemos num “pedaço de madeira”, pouco a pouco este pensamento deixa de ter força sobre nós. Por isso, convertermo-nos num “pedaço de madeira” não é uma má ideia.

    Imaginai que estás brincando com o telemóvel na varanda, e ele está atado ao pulso com um laço. Se vos escapa o telemóvel da mão e se cai através da grade da varanda, só porque vos caiu não quer dizer que tenhais que cortar o laço e deixar que caía totalmente. Assim que a ideia de converter-se num “pedaço de madeira” é uma boa ideia. Se alguém vos irrita ou vos faz aborrecer, tentar diminuir o efeito que isto tem sobre vós, isto é converter-se num “pedaço de madeira”. Não vos preocupeis, isto não vai conseguir logo as primeiras. Se comeceis pode funcionar neste momento, mas logo podeis pensar: “tenho que dizê-lo”. Assim ocorrerá muitas vezes. A ideia é não abandonar. Só porque uma vez resvalámos e caímos no chão, não temos que ficar no chão. Porque senão com todas as vezes que já caímos, ainda estaríamos ali caídos. O que quero dizer é inclusive se o tentamos, ainda assim depois de muito tempo teremos a necessidade de dizer-lhe a essa pessoa o que pensamos. Se a pessoa já se foi temos a necessidade de escrever-lhe ou de telefonar-lhe. Se não o dizemos à pessoa em questão, se o explicamos a outra. Isto não quer dizer que não estejais treinando a vossa mente. Isto só quer dizer que ainda estamos treinando. Assim quando nos acontece isto, não nos temos de preocupar. Simplesmente temos que tomar outra resolução.

    Por exemplo, as pessoas que fazem patinagem sobre gelo caem muitas vezes. Inclusive vós, quando aprendestes a andar de bicicleta, caístes muitas vezes. As pessoas que são ginastas, quantas horas no dia têm que treinar? Quando sabem saltar sobre esta barra, tenho a certeza que têm de treinar 16 horas por dia. Tenho a certeza que devem ter caído muitas vezes… se só para cair elegantemente sobre um pau de madeira as pessoas treinam 16 horas por dia durante muitos anos… e na patinagem, quantas horas as pessoas investem treinando só para poder dar voltas sobre uma coisa afiada. Não só isto, pensai no ténis. Ali há duas pessoas perseguindo uma bola. Quantas horas investiram? Tantas horas! Tenho a certeza que perderam muitos jogos. Inclusive quando fazem isto não estão livres do pensamento de “eu sou o mais importante”. Assim que quando vós estais aqui, tentando treinar a vossa mente, não é algo tão ridículo como o tentar cair bem sobre uma barra de madeira. E isto não estou dizendo por uma falta de respeito pelo que fazem os ginastas. Eu tenho a certeza que o que fazem é muito difícil. E especialmente imaginai estas duas pessoas que estão aí caçando uma bola com uma raquete. E logo o outro desporto, o golfe. Quantos paus (tacos) levam as costas! Como é caro! Não só é isso, temos que ser membros de um clube e temos que pagar. Sabeis o que custa ser membro de um clube de golfe? Não é barato. Não sei como jogar golfe, mas não é barato. O que é o golfe? Normalmente agora são pessoas jovens, mas antes eram pessoas idosas de 50 anos, que golpeiam uma bola de plástico com um pau estranho. E pagam tanto dinheiro para fazer isso! Para o treino da mente não necessitais de raquete, não necessitais de um pau de golfe e sobretudo não necessitais ser membros de um clube de golfe. Não tendes que comprar as sapatilhas especiais para o golfe. Não tendes que levar aos ombros 20 paus. Assim realmente o treino da mente é bastante atractivo. E não é nada difícil. Mas, claro, isso di-lo alguém que não é um fã e um conhecedor desses desportos. E é tão interessante ver as pessoas que jogam golfe! Lançam a bola e logo ficam assim, com o pau, como se de alguma maneira pudessem empurrar a bola. Deste ponto de vista, o treino da mente não é nada difícil ninguém o vê. Não temos que levar nada. Não temos que investir. Pode-se levar para todas as partes. E não só isto, também é bom para a saúde. 

    Por  hoje esta bem assim.