quarta-feira, 30 de maio de 2012

Reconhecendo um mestre verdadeiro

Sogyal Rinpoche (à direita) e um de seus principais mestres, Dudjom Rinpoche.

    "Reconhecer quem é e quem não é um mestre verdadeiro é um assunto exigente e sutil; e numa época como a nossa, viciada na diversão, nas respostas fáceis e nos expedientes rápidos, os atributos de maestria espiritual, mais sóbrios e nada teatrais, podem muito bem passar despercebidos. Nossas idéias sobre o que é santidade, piedade, brandura e mansidão podem cegar-nos para a manifestação dinâmica e às vezes exuberantemente jovial da mente iluminada."
                                                                                              Sogyal Rinpoche

domingo, 20 de maio de 2012

Stupa em Dordogne, França


Stupa na residência de Dilgo Khyentse Rinpoche, em Dordogne na França.
Construída por Tulku Pema Wangyal de acordo com os planos e sob a orientação de Sua Santidade Dudjom Rinpoche, que residia a poucos quilometros deste lugar. As bençãos dessa Stupa são imensuráveis, feita com desejos auspiciosos para a felicidade de todos. Contem relíquias de Guru Rinpoche dentro dela. Possa todos seres se beneficiarem.

sexta-feira, 18 de maio de 2012

A vida de Jamyang Khyentse Chokyi Lodro – Parte 2


A vida de Jamyang Khyentse Chokyi Lodro – Parte 2
Narrado por Orgyen Tobgyal Rinpoche

    Quando chegou a Lhasa ele conheceu o décimo terceiro Dalai Lama, Thubten Gyatso e o regente, e visitou os três lugares sagrados de peregrinação; Samye, Jokhang e Tramdruk, tudo enquanto fazia vastas oferendas. Ele tinha vinte e quatro quando chegou ao Tibete Central, vinte e cinco quando tomou os votos de um monge completamente ordenado, e assim deveria ter uns vinte e seis quando voltou ao Tibete Oriental.

    No seu caminho de regresso, passou por Chamdo, onde o grandíssimo e realizado mestre, o prévio Chamdo Pakpa, convidou-o a Jampa Ling de modo a dar uma séria de transmissões. Mesmo sendo Chamdo Pakpa uma lama de elevadíssimo grau da escola Gelugpa, ele foi para receber as transmissões. No seu discurso, feito perante uma vasta assembléia de pessoas da região, Chamdo Pakpa declarou, “Neste momento não existe em todo o Tibete um lama tão grande como Jamyang Khyentse Chökyi Lodrö.” Alguns dos geshes mais teimosamente conservadores  estava completamente comovidos em ouvir tal afirmação feita pelo grande Chamdo Pakpa, e choraram em devoção. Os representantes do governo local também pediram a Jamyang Khyentse para efetuar certas práticas de forma a remover obstáculos na região.

    Ele também passou pelos dois acentos das encarnações de Chokgyur Dechen Lingpa, os monastérios de Neten e Kela. Do segundo Neten Chokling, Ngedön Drubpé Dorje, um estudante de Jamyang Khyentse Wangpo, ele recebeu muitas transmissões, incluindo o Dzogchen Dé Sum e o Tukdrup Barché Kunsel. Enquanto esteve lá, Neten Ngedrön Drubpé Dorje ofereceu a Jamyang Khyentse Chökyi Lodrö o seu próprio assistente, de nome Tsering Wangyal, que ainda está vivo aos seus 92 anos, mas tinha somente treze anos naquela época. O rapaz não podia ir com Jamyang Khyentse de imediato, pois sua mãe não queria que ele fosse embora, mas ele foi para Derge uns anos mais tarde e serviu Jamyang Khyentse desde essa época, de modo que é agora uma pessoa muito conhecida e respeitada no Kham.

    Depois ele foi para Kela, o acento da outra encarnação de Chokgyur Lingpa, Kela Chokling Könchok Gyurme Tenpé Gyaltsen, do qual ele recebeu o Ridzin Samdrup de Lhatsün Namkha Jikmé, Tukdrup Sampa Lhundrup e outras transmissões.

    No regresso a Derge, chegou-lhe a noticia que Kathok Situ Rinpoche tinha entrado em parinirvana. Quando ouviu isto, Jamyang Khyentse rezou várias vezes e uniu sua mente com a do seu mestre. Como resultado, Situ Rinpoche apareceu-lhe e durante vários dias deu-lhe todas as suas instruções finais e conselhos que estavam por acabar. Durante os anos seguintes, ele teve muitas visões de dia e sonhos de noite, nos quais Situ Rinpoche lhe aparecia e dava-lhe conselhos. Isto está claramente escrito na autobiografia de Jamyang Khyentse. Ele diz que podem-se comunicar sempre que desejado, que era sem duvida um sinal de que as suas duas mentes de sabedoria estavam inseparavelmente unidas.

    Quando regressou a Dzongsar, ele enviou uma mensagem notificando Shechen Gyaltsan Rinpoche do seu regresso seguro e informando-o que a viagem ao Tibete Central tinha sido um sucesso. Como resposta, Gyaltsab Rinpoche enviou uma carta a dizer, “Kathok Situ Rinpoche faleceu e eu sou muito velho e estou também próximo da morte. Os ensinamentos Nyingma estão em perigo de desvanecerem, como uma lamparina cujo óleo foi completamente usado. Tens agora a responsabilidade de olhar por estes ensinamentos com todo a tua incomparável compaixão.” De fato, nesse ano de 1926 não menos de sete grande mestres faleceram, incluindo o Karmapa Khakyab Dorje, Kathok Situ Rinpoche, Shechen Gyatsab Rinpoche e Dodrupchen Jikmé Tenpé Nyima.

    Quando Shechen Gyaltsab Rinpoche faleceu, Jamyang Khyentse foi convidado a Shechen para realizar os rituais de gong dzok (o cumprimento de intenções) e erigir uma Stupa relicário. Ele passou a sua primeira noite da sua viagem num lugar chamado Pawok, onde ele teve uma clara visão do corpo de sabedoria de Gyaltsab Rinpoche, que lhe deu a transmissão inteira e instruções do Tesouro de Preciosos Termas, e deu-lhe conselhos. Na mesma visão, ele viu muito claramente todos os detalhes onde a reencarnação haveria de nascer, incluindo detalhes da casa, com as suas bandeiras e por aí fora. Quando chegou a Shechen, ele realizou com sucesso todos os rituais.

    Algum tempo antes da sua viagem ao Tibete Central, quando havia um pequeno conflito em Dzongsar entre os apoiadores das diferentes encarnações de Khyentse, Kathok Situ tinha chegado e disse a Jamyang Khyentse; “Talvez não devas ficar. Acho que é melhor se regressares a Kathok.” Tulku Lodrö, como ele era conhecido na época, considerou isto por algum tempo ante de dizer, “Desde o inicio da minha vida até agora, nunca fiz nada contra os teus desejos, mas porque este assunto é tão importante eu realmente pensei sobre isto. Quando cheguei a Dzongsar, foi você que me instalou aqui. Eu já estou aqui há algum tempo, mas não seria correto abandonar a minha posição aqui devido a uma coisa tão pequena. Eu devo ficar e fazer tudo o que puder para servir o monastério. Enquanto estás no monastério Kathok, nada há que eu possa fazer lá que não possas fazer ainda melhor, mas no caso de por alguma razão já não poderes lá ficar, eu prometo regressar por quinze anos completos e fazer tudo o que puder para servir o monastério.” Kathok Situ Rinpoche ficou completamente admirado com isto. Por momentos ficou sem palavras, depois com lágrimas nos olhos disse, “Sou mais velho que você, e é suposto saber mais que você. Mas com o que acabaste de dizer provaste que és o mais sábio. Não poderias ter tomado uma melhor decisão.”

    Agora Jamyang Khyentse tinha regressado a Kathok, onde ele completou a construção do Templo Mahamuni, com a sua enorme estátua de Buda, que havia sido iniciado pelo próprio Kathok Situ Rinpoche, assim como um modelo de três andares da terra pura de Zangdopalri de Guru Rinpoche, feito em cobre folheado por ouro, e supervisionou a produção de quase duas mil thangkas. Ele convidou Khenpo Ngakchung para a shedra. Em resumo, durante quinze anos ele trabalhou para servir o monastério Kathok e cumprir a visão do seu mestre. Depois do falecimento de Kathok Situ, a observância da disciplina monástica em Kathok tinha entrado em declínio e era difícil supervisionar todas as casas dentro do monastério, então Jamyang Khyentse nomeou Khenpo Kunpal, o discípulo de Mipham Rinpoche, em conjunto com Khenpo Jorden e Khenpo Nüden para  assumir a responsabilidade e eles estabeleceram uma disciplina bastante estrita.

    O monastério Kathok era um grande acento com uma história com quase mil anos e uma riqueza de objetos sagrados e representações do corpo, fala e mente iluminados. Assim Jamyang Khyentse sentiu que podiam compilar um inventário de todos os tesouros do monastério. Haviam tantos tesouros que para registrar os de uma única sala, foram precisos três meses.

    Nesta altura ele ficava somente uns poucos meses de cada ano em Dzongsar, e a maior parte do tempo em Kathok. Lá ele era muito estrito e punia severamente as pessoas por quebrarem as regras. Em Bir existe um velho homem chamado Drupa Rikgyal, que era uma monge em Kathok nesse tempo. Ele diz que mesmo todos sabendo que Jamyang Khyentse era um dos maiores bodhisattvas em todo o mundo, em Kathok ele era tão irado que era temido com o Yama, o senhor da morte. Ele disse-me que sempre que ouvia a noticia que Tulku Lodrö estava a chegar de Horkhok, todo o vale tremia de medo.

Dzongsar Monastery, Tibet, 1953. Sentado na frente: Sakya Gongma Dagchen Rinpoche, atrás da esquerda para direita: Lama Kang Tsao Rinpoche, Gona Tulku Rinpoche, Jamyang Khyentse Chokyi Lodro Rinpoche, Dilgo Khyentse Rinpoche

    Quando a reincarnação de Kathok Situ Rinpoche foi reconhecida pelo Quinto Dzogchen Rinpoche, Thubten Chökyi Dorje, em acordo com as visões de Jamyang Khyentse, Khyentse Rinpoche e o Khenpo Ngakchung realizaram cerimônias elaboradas para a sua entronização. Nesta época, devido ao grande cuidado que Khyentse Rinpoche tinha pelo monastério e também porque Khenpo Ngakchung estava a ensinar e era encarregado dos estudos, eles produziram um incrível número de acadêmicos. Na véspera da entronização, um khenpo de nome Jamyang Lodrö, tinha sido avisado por Kheyntse Rinpoche e Khenpo Ngakchung que seria necessário ele falar no dia seguinte, durante a cerimônia, no tópico A Perfeição da Sabedoria. A perspectiva de falar na presença destes dois grandes mestres era suficiente para assustá-lo completamente. Ele esteve acordado toda a noite a pensar no que iria dizer, mas não vinha nenhuma idéia à sua mente. Quando o Sol nasceu, ele sentiu uma enorme vontade de fugir, mas decidiu que isso não era uma opção. Quando entrou no templo, ele viu os detentores do trono de Kathok, tais como Drime Shingkyong Gönpo e a encarnação de Getse Mahapandita, assim como Jamyang Khyentse Chökyi Lodrö e Khenpo Ngakchung, e a encarnação de Situ Rinpoche sentado no seu trono. Jamyang Khyentse disse-lhe, “És muito versado nas escrituras, mas não tens dinheiro, então não podes comprar vestes dispendiosas. Hoje, de modo a criar a correta conexão auspiciosa, vou emprestar-te as minhas.” Jamyang Lodrö tomou as vestes e sentou-se, mas deixou de estar ciente de como ou onde se sentava. Depois, quando o festim foi oferecido, com todo o tipo de maravilhosas tigelas cheias de tremendas delicias, chegou a hora dele falar. A sua mente estava completamente em branco, mas recitou várias orações ao lama, e colocou as vestes que lhe tinham sido dadas. Quando ele se levantou para falar, ele descobriu que todos os seus medos tinham desaparecido. Ele fez três prostrações e, fechando os olhos, ele começou a sua palestra com uma homenagem. À medida que falava, não tinha noção do tempo, mas concentrou-se inteiramente no que estava a dizer. Tinham-lhe dito para falar de forma bem elaborada, então ele deu o ensinamento mais elaborado que conseguia. Eventualmente, um dos assistentes de Jamyang Khyentse de nome Jamdra foi até ele e disse-lhe que era tempo de parar. Eles ofereceram-lhe um lenço muito longo. Quanto ele abriu os olhos e olhou para cima viu que já era noite e que as estrelas estavam a brilhar. Ele tinha começado de manhã, logo após o nascer do Sol.

    Quando Jamyang Khyentse, a encarnação de Situ Rinpoche e Khenpo Ngakchung se retiraram para os seus aposentos, todos concordaram que o ensinamento sobre o prajñaparamita tinha sido extraordinário. Eles disseram que era um claro sinal que todo o trabalho que fizeram pelo monastério Kathok tinha sido um sucesso. Até à sua destruição pelo exercito vermelho Chinês, Jamyang Khyentse continuou a supervisionar o funcionamento do monastério Kathok.

    O mosteiro de Ngor era detentor das linhagens de Lamdré Tsokshé, mas Jamyang Khyentse queria mesmo assim receber as linhagens menos comuns de Lamdré Lopshé que vinham de Jamyang Khyentse Wangpo. O rei entre todos os detentores desta particular linhagem de transmissão oral era Gatön Ngawang Lekpa. Assim, embora Jamyang Khyentse o tenha conhecido em Gakhok, ele foi convidado especialmente para ir a Dzongsar, onde transmitiu os ensinamentos do Lamdré Lopshé dotado das “quatro autenticidades”.

    No passado, Gatön Ngawang Lekpa tinha ido ao monastério Dzongsar, com intenção de receber de Jamyang Khyentse Wangpo esta transmissão do Lamdré Lopshé, mas foi forçado a esperar vários anos. Durante esse tempo ele foi ignorado e até mesmo considerado inapto a entrar a assembléia. Os monges de Dzongsar e as pessoas do vale local apelidaram-o de Gambema, que significa algo como “vagabundo”, porque parecia maltrapilho e as suas roupas estavam todas rasgadas e esfarrapadas. Quando foi convidado a Dzongsar de modo a transmitir os ensinamentos a Jamyang Khyentse as pessoas disseram, “Nestes dias parece que até uma pessoa como Gambema é apelidado de 'Jamgön Rinpoche' e tratado como um grande dignitário.”

     Enquanto Ngawang Lekpa estave pela primeira vez em Dzongsar, Jamgön Kontrul Lodrö Tayé tinha visitado Jamyang Khyentse Wangpo. Todos os monges e lamas alinharam-se em procissão para receber Jamgön Kontrul, que nessa altura, era muito velho e tinha que caminhar muito lentamente com a ajuda de dois assistentes. Quando chegou ao lugar onde Gambema se encontrava, no meio da multidão, ele repousou um pouco, e enquanto ali estava, ele olhou para o céu e depois tossiu alguma fleuma e cuspiu-a para o chão. Gambema saltou imediatamente e pegou na fleuma e comeu-a. Naquele momento ele experimentou uma realização do estado natural tão vasto como o espaço. Isto significava que, de uma certa forma, ele era um discípulo de Jamyang Khyentse Wangpo e Jamgön Kongtrul. Mais tarde, tornou-se o maior mestre vivo na tradição Sakya, que, devido ao seu imenso respeito pelos ensinamentos Sakya, serviu grandemente a tradição.

    Lama Jamyang Gyaltsen,  da região de Gakhok, que era um mestre incrivelmente erudito e realizado e um monge muito estrito, era também um estudante de Ngawang Lekpa. Numa ocasião, Ngawang Lekpa Rinpoche entrou nos quartos de todos os seus estudantes, e abriu as suas caixas torma para ver o que estavam a praticar. Quando foi ao quarto de Jamyang Gyaltsen encontrou os tormas para o lama, yidam e khandro do Longchen Nyingtik. Quando viu isto, pensou para consigo mesmo: “Jamyang Gyaltsen é incrivelmente erudito. Eu pensava que ele manteria a pura tradição Sakya, e faria uma grande contribuição para o seu desenvolvimento no futuro. Agora até ele está a praticar o Nyingtik! Parece que maior parte dos eruditos e realizados detentores da linhagem Sakya estão a tornar-se seguidores da escola Nyingma. A tradição Nyingma está a ficar tão bem conhecida como o Sol e a Lua, enquanto a escola Sakya está certamente no declínio.” Ele estava tão preocupado com esta situação, que ele mal conseguia dormir.



    Mais tarde o Lama Jamyang Gyaltsen foi a Dzongsar e encontrou-se com Jamyang Khyentse Chökyi Lodrö e Pönlop Loter Wangpo, e perguntou-lhes o que podia fazer para aprofundar a tradição Sakya. Loter Wangpo e Jamyang Khyentse disseram, “Se realmente quiser fazer uma contribuição para a escola Sakya, então deve publicar a coletânea das obras de Gorampa.”  Uma vez que o Governo do Tibet tinha banido a publicação dos escritos de Gorampa, Lama Jamyang Gyaltsen teve de andar muitos anos à procura por todo o Tibet Central até encontrar todos os textos e estar pronto para os levar para o Kham. Ele colocou-os todos numa sacola e atou-a às costas de uma mula e iniciou a sua viagem. Quando chegou a região de Derge, tinha que atravessar uma ponte estreita sobre o rio Drichu, mas enquanto o fazia a mula escorregou e caiu, e com ela foi a sacola com os textos. Quando viu isto, Lama Jamyang Gyaltsen ficou destroçado. Ele apelou a Jamyang Khyentse Chökyi Lodrö, Pañjaranatha e ao Mahakala de Quatro-braços, colocou o seu robe e o seu chapéu e invocou-os. Ao fazê-lo, a mula milagrosamente chegou à margem.

    Quando começaram os trabalhos para publicar os trabalhos de Gorampa, muitos obstáculos surgiram. Assim Jamyang Khyentse, Lama Jamyang Gyaltsen, e uma assembléia de 108 monges, reuniram-se no vigésimo quinto dia do mês, no altar dos protetores Namgyal, no monastério Dzingkhok, para realizar muitas centenas de milhares de ofendas de cumprimento à divindade protetora Pañjaranatha. Para as pessoas que observavam à distância, parecia que o templo estava a arder, e muitas pessoas foram montadas a cavalo ver o que estava acontecendo. No fim da prática, todos os obstáculos tinham sido ultrapassados. Devem saber, que o fato de a coleção de obras de Gorampa estarem disponíveis nos dias de hoje é devido inteiramente a bondade de Jamyang Khyentse Chökyi Lodrö.

    O altar do protetor de Dzing Namgyal Gönkhang, tinha sido estabelecido por Chögyal Pakpa quando ia a caminho da China, era considerado excepcionalmente sagrado. Com o passar do tempo, ficou em ruínas, então Jamyang Khyentse decidiu renová-lo. Quando as renovações terminaram, ele foi lá para realizar a cerimônia de consagração (rabné) em conjunto com cerca de vinte monges. Quando chegou à parte da prática para afastar os criadores de obstáculos,  enquanto o chöpön estava a oferecer o incenso em frente da imagem, Jamyang Khyentse dirigiu a sua mente de sabedoria e a imagem de Mahakala – que tem cerca de dois andares de altura – foi vista a tremer. O mestre de cerimônias que se encontrava perante a estátua com o incenso, pensando que se tratava de um terremoto,  correu e saltou por uma janela.

    Jamyang Khyentse Chökyi Lodrö tinha uma conexão muito especial com a forma de sabedoria de Mahakala, conhecida por Pañjaranatha (Gurgyi Gönpo), que apareceu-lhe em visões ao longo da sua vida, fazendo profecias, protegendo-o de obstáculos e por aí fora.

    Em um monastério de nome Dra Gön, que era atrás de Derge Gönchen, havia um centro de retiros para a linhagem oral dos Sakya, que tinha caído em declínio, mas Jamyang Khyentse usou os seus próprios fundos, conjuntamente com uma contribuição do rei de Derge, para patrocinar a reconstrução. Daí a diante, até à destruição nos anos 1950s, tornou-se um importante centro de prática.

    Poucos anos antes, Jamyang Khyentse tinha visto como a sua atividade estava a tornar-se vasta e como a sua fama e reputação estavam a espalhar-se pelo Tibet, e apercebeu-se que precisava de alguém para o assistir em todos os seus variados projetos. Assim sendo, o seu próprio sobrinho, Tsewang Paljor, foi escolhido para se tornar o seu secretário e assistente pessoal com a pouca idade de treze anos.

    Quando estavam a renovar o centro de retiros em Dra Gön, ele enfrentaram muitos obstáculos. Quando Jamyang Khyentse chegou ao local, ele viu que isso era devido à presença de uma altar ao “protetor” Shugden. Um dia, Jamyang Khyentse assumiu uma forma irada e expulsou Shugden do templo do protetor em Derge önchen. Existem muitas histórias fantásticas que poderiam ser contadas neste momento, acerca de Jamyang Khyentse e Shugden, mas não creio que seja apropriado.

    Jamyang Khyentse Chökyi Lodrö considerou que tinha cinco principais mestres-raíz. De todos eles, o que lhe apresentou o estado natural da mente, e cuja bondade por isso mesmo excedia a de todos os outros, era o Vajradhara Loter Wangpo. Loter Wangpo era tão baixo e roliço, que quando dava transmissões ele não conseguia efetuar alguns dos mudras com o vajra e o sino, e quando se sentava num trono, ele não podia sentar-se com as suas pernas cruzadas. Aqueles que tinham devoção viam-no como Mahakala. O seu segundo mestre-raiz era Kathok Situ Rinpoche, Chökyi Gyatso. O terceiro era Shechen Gyaltsap Rinpoche, Gyurme Pema Namgyal. O quarto era Dodrupchen Jigmé Nyima.

    Quando Jamyang Khyentse foi a Dodrup Gar, Dodrup Rinpoche tinha já tomado o voto de nunca abandonar o seu eremitério e de nunca proferir uma palavra de discurso comum a ninguém para o resto da sua vida.  Quando Jamyang Khyentse chegou houve uma procissão muito elaborada e o próprio Dodrup Rinpoche foi à porta da frente do seu eremitério com os seus assistentes. Quando foram lá para fora e se sentaram, Dodrup Rinpoche disse depois de uma longa pausa, “Está cansado?” Estas foram as únicas palavras de discurso comum que ele proferiu durante a ultima parte da sua vida.

    Depois Jamyang Khyentse recebeu muitas transmissões e ensinamentos do Nyingtik. Especialmente durante o Palchen Düpa, Dodrup Rinpoche deu-lhe o nome secreto Pema Yeshe Dorje, que era tomado como sendo uma indicação de que não era somente a encarnação de Jamyang Khyentse Wangpo, mas também de Do Khyentse Yeshe Dorje.



    Nessa altura, Jamyang Khyentse também foi visitar um tertön, amplamente conhecido como Tertön Sogyal, mas cujo nome terma era Lerab Lingpa. Ele recebeu todas as transmissões orais que podia para as revelações terma de Lerab Lingpa. Lerab Lingpa estava doente nessa época, e de modo a recuperar-se, pediu que o mantra das cem-sílabas de Vajrasattva fosse recitado tantas vezes quanto possível no monastério Dzongsar. Está registrado que quando isto foi concluído, a sua doença desapareceu e a sua saúde melhorou muito. Mesmo depois de Lerab Lingpa ter passado para o parinirvana, ele continuou a aparecer a Jamyang Khyentse em muitas ocasiões no seu corpo de sabedoria, e concedeu-lhe todas as transmissões que não lhe tinha sido possível dar antes.

    De Adzom Drukpa Rinpoche, Natsok Rangdrol, ele recebeu as transmissões de Nyingtik Yabshyi  e outros ciclos, e as suas duas mentes fundiram-se em uma. Conjuntamente com Gyarong Tulku, ele recebeu ensinamentos sobre Yeshe Lama, a transmissão do poder criativo de consciência pura (rigpé tsal wang) e a transmissão de longa-vida de Könchok Chidü, do quinto Dzongchen Rinpoche, Thubten Chökyi Dorje.

    Como disse antes, Jamyang Khyentse também recebeu um vasto número de transmissões de seu próprio pai. De Lama Jamyang Gyaltsen, ele recebeu as transmissões orais de muitos dos trabalhos de Gorampa. O mestre do qual ele recebeu maior parte da sua educação escolar sobre o Madhyamika, sobre os tratados de Maitreya, e outros aspetos da filosofia Budista, foi Khenpo Kunpal. De Tulku Tashi Paljor, mais conhecido por Dilgo Khyentse Rinpoche – com o qual estava unido na mente de sabedoria – ele recebeu transmissões orais do Tesouro dos Ensinamentos Mantra Kagyü (kagyü ngak dzö) e muitos dos profundos termas do próprio Dilgo Khyentse Rinpoche. De Chatral Rinpoche Sangye Dorje, que ainda está vivo, recebeu a transmissão dos ensinamentos terma de Sera Khandro.

    De fato, ele estava preparado a receber transmissões de qualquer um que detivesse uma linhagem contínua (não quebrada), que não tivesse sido contaminada por quebras de samaya, sem qualquer preocupação de título e fama. Se lerem a lista de mestres dos quais ele recebeu transmissões, e comentários de textos, até mesmo a breve lista referida na sua autobiografia em verso, irá espantar-vos. Isto não inclui todas as transmissões que recebeu. De fato, a lista completa de tudo o que ele recebeu tem três volumes.

    Se considerarmos a sua contribuição para preservar a tradição do estudo, ele estabeleceu a shedra Kham-jé, em Dzongsar. Através da sua grande compaixão em fundar esta shedra, surgiram muitos grandes khenpos, até mesmo ao presente dia, que estiveram entre os mestres mais eruditos do Tibet. Desde o primeiro khenpo, o grande Khenpo Shenga, até Khenpo Kunga Wangchuk, que é presentemente o responsável pelo Instituto Dzongsar, na India, existiram treze khenpos. De entre aqueles a passar pela shedra estavam o grande Khenpo Apé, Khenpo Rinchen, Khenpo Pedam no Tibet, e Dhongthog Tulku que agora vive em Seatle. Até mesmo Namkhai Norbu Rinpoche, que é nestes dias muito famoso no Ocidente, estudou na shedra Kham-jé durante algum tempo. Os khenpos que se formaram em Kham-jé também estabeleceram muitos centros de estudo por todo o Tibet. Não somente isso, ele também estabeleceu a grande shedra Gyüdé, em Kathok, que também trouxe tremendo benefício para os ensinamentos.

    Em Karmo Taktsang, ele estabeleceu um grande centro de retiro para a prática das instruções essenciais das oito grande carruagens da linhagem da prática, e especialmente para a prática das revelações terma de Jamyang Kyentse Wangpo e Jamgön Kongtrul. Muitos dos antigos mestres de retiro, que aí praticaram, ainda estão vivos. Ao renovar o centro de retiros em Dra Gön, ele assegurou que a linhagem da prática do Sakya Nyengyü tenha continuado até ao presente dia.

    Se considerarmos as estátuas e imagens que ele encomendou, havia a grande estátua de Maitreya, em Kham-jé, cuja face media treze mãos de Jamyang Khyentse. Shakabpa escreveu em sua famosa história do Tibet, que esta era a maior estátua de cobre e ouro, do Buda, no Tibet Oriental. Ele também estabeleceu o templo chamado Tse Lhakhang. Se tentarmos listar todos as Stupas que ele construiu, as estátuas e thangkas que encomendou, ou os livros que ele imprimiu e copiou, não conseguiríamos contá-los. Até mesmo Tsewang Paljor, o secretário de Jamyang Khyentse, que trabalhou nestes projetos durante a maior parte de sua vida adulta, não seria capaz de listar tudo.

    Quando estas imagens eram concluídas, ele não ficava com elas no seu próprio monastério, mas enviava-as onde eram mais necessárias. Não havia um único monastério na região do Kham, que não recebesse oferendas de imagens, livros, Stupas, assim como representações do corpo, fala e mente iluminados, de Jamyang Khyentse.

    Se considerarmos o tempo que ele passou a praticar em retiro, durante toda a sua vida ele passava os meses de inverno em retiro, e em alguns anos, ele passava todo o ano em retiro. Se virem a sua biografia, e todas as praticas que fez, não conseguem encontrar uma única pratica para a qual ele não tenham terminado a recitação. Ele completou a recitação das práticas mais importantes três ou quatro vezes. Os nomes destas práticas estão listadas na sua autobiografia em verso. Por exemplo, ele recitou o Dukkar Chokdrup dez mil vezes.
 
    A realização que ele alcançou, como resultado de toda a sua prática era inigualável a qualquer mestre na historia tibetana. Podemos dizer isso porque os seus feitos registrados estão para além dos de outros. É possível que tenham existido mestres que tenham tido maiores experiências, e nada escreveram sobre isso, mas nada podemos dizer. Ele deixou um grande volume registrando todas as visões e sonhos proféticos que teve. Infelizmente, isto cobre somente dois quintos da sua vida. Khenpo Kunga Wangchuk fez uma cópia e depois publicou-a como a biografia secreta, num grande volume. Na linhagem Nyingma do Longchen Nyingtik, é bem sabido que Longchen Rabjam apareceu em visões a Jigmé Lingpa três vezes, durante as quais ele transmitiu-lhe as bençãos do seu corpo, fala e mente. Enquanto que, nos registros escritos que temos, Jamyang Khyentse menciona ter não menos que dezessete visões de Longchen Rabjam – e isso é somente da parte de sua vida que está registrada. Se virem uma lista de todos os mestres e divindades que lhe apareceram e fizeram profecias e por aí fora, dificilmente haverá um mestre ou divindade das tradições Sarma ou Nyingma que não seja mencionado. Se eu os listasse a todos, ficaríamos sem tempo.

   Jamyang Khyentse Chokyi Lodro em Gangtok, 1959

    Para ele, todo o universo de aparência e existência surgia como pureza infinita. Por exemplo, quando ele foi ao cume de Tiger Hill, acima de Darjeeling, para ver o nascer do Sol, a luz do Sol manifestou-se na forma de Vimalamitra. Quando foi a Bodhgaya, todos os dias, quando ia junto da estátua do Buda, ele tinha visões nas quais via o Buda Vajradhara no coração do Buda, e o Buda Samantabhadra no coração de Vajradhara. Quando se aproximava do templo de Bodhgaya, ele via o Mahakala de quatro-braços preto, que lhe falou diretamente e pediu um torma. Ele apercebeu-se que não tinha o texto de oferenda de torma, mas disse ao seu mestre, Lodrö Chokden, que estaria bem se recitasse o texto do Tantra de Mahakala do Kangyur, e então foi o que fizeram. Quando rezou em baixo da árvore bodhi, ele teve uma visão vivida e clara na qual viu os 1002 Budas desta Era, conjuntamente com os seus séquitos de shravakas e discípulos. Quando foi à gruta do Mahasiddha Shawaripa, em Cool Grove, ele viu Shawaripa diretamente e recebeu a sua mente de sabedoria, de tal modo que todo o seu corpo estremeceu.  Os registros dizem que isto foi visto por Gönpo Tseten. Quando perguntei a Gönpo Tseten sobre isto, ele disse que viu Jamyang Khyentse a olhar para o espaço e a proferir “Ah!” ao mesmo tempo que o seu corpo começou a tremer, e ficou a pensar que seu mestre estaria a ficar doente.

    Infelizmente, não posso falar aprofundadamente sobre a sua biografia secreta e todas as suas visões em detalhe, pois levar-me-ia pelo menos uma semana.


Extraído de palestras de Orgyen Tobgyal Rinpoche em Lerab Ling, 23 e 24 de Agosto de 1996. Originalmente traduzido por Sogyal Rinpoche. Retraduzido e editado por Adam Pearcey, 2005.


Esta é uma tradução rude para o português da tradução inglesa, efetuada por este pequeno praticante do dharma Ngawang Pema Jigme. Foi adaptado ao português do Brasil por Pema Namgyal. Possa este texto beneficiar todos os seres, afastar obstáculos e motivar a prática disciplinada do dharma.

 (Fonte: Facebook Sangha)


sábado, 12 de maio de 2012

A vida de Jamyang Khyentse Chökyi Lodrö - parte 1



 A vida de Jamyang Khyentse Chökyi Lodrö
narrado por Orgyen Tobgyal Rinpoche

    Das incarnações de Jamyang Khyentse, o segundo foi Jamyang Khyentse Chökyi Lodrö, cuja grandeza era tanta que me é dificil sequer pronunciar seu nome, e no entanto faço-o como forma de beneficiar os outros. O seu nome completo era Jamyang Khyentse Chölyi Lodrö Rimé Tempé Gyaltsen Pal Zangpo. O seu nome secreto, dado pelo terceiro Dodrupchen Rinpoche, Tempé Nyima, durante uma transmissão especial do Rigdzin Düpa, era Pema Yeshe Dorje. Uma vez que este mestre, o soberano senhor do mandala, viveu recentemente, existe muitas pessoas ainda vivas que podem-se recordar da sua vida e confirmar o que agora vou contar.

    A encarnação anterior, Pema Ösel Dongak Lingpa, passou para o parinirvana e dissolveu a sua mente de sabedoria no coração do grande pandita Vimalamitra na região da Montanha dos Cinco Picos de Wu Tai Shan na China. Assim, de modo a beneficiar os ensinamentos e os seres na Terra das Neves, ele reapareceu em cinco encarnações, tal como previsto no terma das profecias. O Vajradhara Jamgön Lodrö Thayé supervisionou o reconhecimento destas encarnações uma por uma. Cada um dos principais filhos do coração de Jamyang Khyentse Wangpo encarregou-se de uma encarnação. Por exemplo, aquele pelo qual se encarregou Jamgön Kongtrul, se instalou em Palgung e chamava-se Beru Khyentse. Uma encarnação foi entronada no acento principal de Dzongsar, e outra no monastério Dzogchen.  Uma encarnação foi reconhecida por Pönlop Loter Wangpo e chamava-se Galing Khyentse. Todas estas encarnações emulavam o seu predecessor nas suas qualidades sem paralelo de aprender, das experiências, realizações e da atividade iluminada. Mas de todas estas, a que se destaca como uma jóia a ornamentar o topo de uma grande bandeira de vitória é Jamyang Khyentse Chökyi Lodrö.

    O sobrinho e supremo discípulo próximo de Jamyang Khyentse Wangpo, Kathok Situ Chökyi Gyatso, não tinha uma reincarnação no seu mosteiro de Kathok, e assim com petições fervorosas e unidirecionadas, ele requereu ao Vajradhara Jamgön Kongtrul Lodrö Thayé para encontrar mais uma encarnação para Kathok. Jamgön Kontrul disse que ele já tinha reconhecido o corpo, a fala, a mente e qualidades de emanações, mas se requerido, ele poderia reconhecer a atividade de emanação. Mesmo assim, ele alertou que seria difícil para esta emanação beneficiar o acento principal do monastério. Ele explicou que se ele se torna-se um praticante heruka, ele traria maior beneficio. Assim Kathok Situ pediu-lhe para identificar a criança, e Jangön Kontrul viu que ele nasceria no ano da cobra, como filho de Ridzin Tsewang Chokdrup, que por sua vez era filho do grande tertön Serpa.

    Era possível identificar a família do pai até o grande tertön Düdul Dorje e incluía muitos outros autênticos reveladores de tesouros. A família de sua mãe era de Amdo, e ela era descendente do grande mestre Sergyi Chadral. Ele nasceu no ano da cobra d'água, e ocorreram muitos sinais maravilhosos e extraordinários , mas a sua mãe e seu pai eram ambos grandes praticantes de renuncia e não ficaram muito excitados com estas coisas, de modo que não as registraram, nem registraram nenhuma das informações astrológicas.

    Tal como tinha sido requerido por Kathok Situ Chökyi Gyatso, Jamgön Kongtrul reconheceu a criança como uma encarnação de Jamyang Khyentse. Assim, com a idade de oito anos, ele foi convidado a tomar o seu acento no monastério Kathok. No dia em que chegou a Kathok, toda a região circundante de Horpo e Kathok estavam completamente cobertas de neve, de modo que tudo estava branco, que era algo de muito  incomum para a região, e a população considerou isso como um sinal muito positivo para o futuro. Num dia auspicioso, Kathok Situ Rinpoche realizou a cerimônia do corte de cabelo no templo principal, na presença da grande estátua do Buda, e deu-lhe o nome Jamyang Khyentse Chökyi Lodrö. Entre os outros tulkus e as outras pessoas do monastério, nesse tempo, ele era simplesmente conhecido por Tulku Lodrö.

    Quando ele aprendeu a ler com seu tutor, conseguia ler sem dificuldade, e memorizava vários textos de práticas Sakya e a Recitação dos Nomes de Mañjushri simplesmente ao ler uma vez. Isto era um sinal de que ele estava retomando sua memória da vida passada. Eu por vezes provoco alguns dos tulkus no nosso monastério ao dizer, “O meu Lama memorizou a Recitação dos Nomes de Mañjushri em criança, mesmo sem o estudar, e vocês tulkus estão a recitá-lo à meses e ainda não conseguem memorizá-lo!”

    Uma noite ele estava numa gruta de retiro na colina atrás de Kathok, sentado num tapete ao lado de seu tutor e a recitar orações. Enquanto ele recitava a Dharani do Subjugador do Vajra, ele consegui ver claramente o monastério de Kathok lá em baixo, a brilhar ao luar da lua cheia, e nesse momento ele teve uma visão do grande centro monástico dos Sakya, tão claramente com se ele estivesse realmente lá, e claramente recordou-se da sua vida como Ratna Vajra. Ele recordou todos os detalhes da sua vida e tudo o que possuía tão claramente como se tivesse sido no dia anterior.

    Numa ocasião, Kathok Situ Rinpoche teve uma reunião com todos os tulkus residentes no monastério Kathok e pediu-lhes para fazerem uma adivinhação especial durante o sonho e procurarem por qualquer indicação sobre quem eles eram nas encarnações anteriores. Quando eles regressaram para reportar o que tinham descoberto, alguns tulkus disseram que deveriam ser encarnações deste ou daquele grande lama que tinham aparecido em seus sonhos. Alguns diziam que tinham sonhado com Vajrakilaya ou com Tara, ou qualquer outra deidade. Quando perguntaram a Tulku Lodrö – como era conhecido na altura – sobre os seus sonhos, ele disse que não tinha sonhado com alguém pouco usual, somente um homem tibetano comum vestido ao estilo do Tibet central, com uma grande tchuba branca e um sobretudo azul, brincos turquesa, e o seu cabelo estava atado atrás.  Quando ele disse isto, Situ Rinpoche pareceu surpreendido, e disse quão incrível era. “Impressionante”, disse ele, “Mas será mesmo?” Todos os outros tulkus brincavam com ele ao dizer, “Somos encarnações destes grandes mestres, mas Tulku Lodrö era somente este homem comum do Tibete Central.” Mas mais tarde , ele apercebeu-se que isto era um sinal de que tinha sido o Rei Trisong Detsen.

    Em criança, Jamyang Khyentse costumava explorar todos os lugares e estava sempre à procura de experimentar coisas novas. Uma vez, quando seu tutor tinha-se ausentado por momentos, ele começou a revolver as prateleiras e quando encontrou uma grande garrafa de mercúrio, ele bebeu-o todo. Quando o tutor regressou, viu gotas de mercúrio no chão, e ao olhar as prateleiras viu a garrafa vazia. Ele disse a Tulku Lodrö para se levantar, mas ao fazê-lo, gotas de mercúrio rebolaram de suas vestes. O tutor disse “Tinha uma garrafa de mercúrio na minha prateleira, onde está ela?” Jamyang Khyentse respondeu, “Bebi-a.” O tutor simplesmente olhou para ele. Mais tarde o tutor foi ter com Situ Rinpoche e disse, “O Tulku Lodrö é realmente excepcional. Ele bebeu uma garrafa inteira de mercúrio e nem teve sequer uma dor de cabeça. Não creio que seja uma criança comum.”

    Ele também gostava de observar danças e entretenimentos, e assim em ocasiões em que lhe apetecia observar algum tipo de espetáculo, Ekadzati, a Protetora Gloriosa do Mantra Secreto, aparecia a ele e a seu pedido, ela abriria seu peito para revelar o universo dos três reinos por completo.

     Num outro sonho que teve enquanto criança, ele foi ao templo Tramdruk, onde uma grande mandala tinha sido preparado para uma transmissão. Ali ele viu Guru Rinpoche sentado num trono elevado, com muitas pessoas sentadas em filas, prontas para receber a transmissão. Na fila em frente a ele, ele viu um monge e uma senhora num vestido tibetano e outros tantos, e ao seu lado estava um homem com uma vestimenta leiga comum. Em conjunto, eles todos recebiam a transmissão de Guru Rinpoche. Mais tarde na sua vida ele apercebeu-se que os monges sentados em frente a ele eram Vairochana e Namkhé Nyingpo e outros dos quais ele – Rei Trisong Detsen – tinha recebido transmissões. A senhora tinha sido Yeshe Tsogyal. Mesmo que ele tenha sido o rei do Tibet naquele tempo, não teria sido correto para ele sentar-se na frente de seus mestres.

    Aos treze anos de idade, Jamyang Khyentse completou os seus estudos e foi enviado por Kathok Situ a viajar por Horkhok e Dzachukha e recolher fundos para o monastério. Como ele diz na sua autobiografia em verso, ele também foi ao reino de Ling:

Encontrei-me com o rei e a rainha do Dharma de Ling,
E expliquei-lhes de memória o Gang Gi.
Com devoção recordaram-se do seu Lama,
E ambos rei e rainha lágrimas verteram.
Desse momento em diante, tornaram-se meus patrocinadores,
Com votos puros, generosidade, devoção e bondade.

    Como diz aqui, ele deu um comentário elaborado sobre o Gang Gi Lodrö, a famosa oração a Mañjushri, ao rei de Ling, que era um tertön, e a sua rainha e outros membros da família real. Eles tinha sido estudantes do Jamyang Khyentse anterior, e quando ele ensinou eles ficaram tão comovidos pelas suas memórias que o rei e a rainha realmente choraram, e viram-no como Jamyang Khyentse Wangpo em pessoa. Daquele momento em diante, eles tornaram-se seus patrocinadores.

    Depois foi para Dzachukha e Adzom Gar. Antes de lá chegar, Adzom Drukpa Natsok Randrol teve três sonhos nos quais viu seu mestre raiz, Jamyang Khyentse Wangpo. Ele entendeu isso como uma indicação, que o tulku de Kathok que ele estava à espera era a encarnação do seu mestre Jamyang Khyentse Wangpo, e assim organizou uma recepção especial, com uma tremenda procissão. Adzom Drukpa vestiu uma veste vermelha especial e atou o seu cabelo de uma forma especial. Todos os estudantes cantaram a Canção da Festa de Tsok (tsok lu) enquanto esperavam, e Adzom Drukpa foi pessoalmente receber  Jamyang Khyentse. Nesse momento, Adzom Drukpa fez uma grande oferenda de tudo o que tinha recebido em doações. Mais tarde na sua vida, Jamyang Khyentse recordou este evento e disse que tinha sido uma grande oferenda que será quase impossível igualar.

 Jamyang Khyentse Chokyi Lodro, Katok Situ, Khenpo Shenga e Jamgyal.

    Durante o retiro de verão no monastério Kathok, quando deu ensinamentos da Oração de Aspiração de Sukhavati e em outros tópicos, ele inspirou muitos milhares de acadêmicos com o brilho das suas explicações.

    Durante três anos, enquanto o seu tutor estava doente, Jamyang Khyentse trabalho arduamente para ir buscar água, recolher lenha, cuidar do tutor e daí por diante. Ele não tinha ajuda de mais ninguém, mas fez tudo por si só. Mais tarde, ele dizia que isto tinha sido um método supremo de amealhar mérito e purificar os seus obscurecimentos. Ele costumava dizer, “Purifiquei um pouco do meu karma negativo ao realmente servir o meu mestre.” O seu mestre era muito estrito, e costumava bater-lhe quer houvesse uma boa razão ou não. Mais tarde na sua vida, sempre que raspava a sua cabeça podia-se ver as cicatrizes das pancadas. Foi no fim dos seus treze anos que o seu tutor faleceu.

    Nesta mesma época, a encarnação de corpo de Jamyang Khyentse Wangpo, que ocupava o acento de Dzongsar, estava no monastério Dzogchen para receber transmissões do Rinchen Terdzö (Precioso Tesouro de Termas) do quinto Dzogchen Rinpoche, Thubten Chökyi Dorje, e faleceu prematuramente à idade de treze. Quando isto aconteceu, o lama que estava responsável pelo monastério Dzogchen, outro sobrinho de Jamyang Khyentse Wangpo, chamado Kalzang Dorje,  enviou uma carta a Situ Rinpoche na qual escreveu, “O tulku aqui do nosso acento de Dzongsar faleceu, e eu próprio estou muito doente e perto da morte. Por favor envie o tulku que está em Kathok para ocupar o acento de Khyentse aqui em Dzongsar. Se recusar, pode prejudicar o seu samaya com Jamyang Khyentse, O Grande. Este é o meu desejo na morte.”

    Situ Rinpoche leu e releu a carta e pensou que caso o lama ainda estivesse vivo haveria uma hipótese de discutir o assunto com ele, mas ele sabia que ele tinha falecido. Então, sabendo que recusar o pedido seria o equivalente a desobedecer ao seu próprio mestre, não haveria outra hipótese senão levar Jamyang Khyentse Chökyi Lodrö à Dzongsar. Ele levou-o pessoalmente. E assim Jamyang Khyentse entrou no monastério de Dzongsar Tashi Lhatse com a idade de quinze.

    Quando Kathok Situ e Jamyang Khyentse chegaram a Dzongsar, foram para os aposentos principais do falecido Jamyang Khyentse. Kathok Situ disse para o jovem Jamyang Khyentse, “Tens que ficar aqui, mas eu não me atrevo a fazê-lo. Irei para o meu quarto.” Antes de Situ Rinpoche regressar de Kathok, ele realizou a cerimônia de entronização de Jamyang Khyentse, e mesmo só havendo alguns monges e lamas presentes, foi feito de uma forma muito elaborada com um longo discurso nas cinco perfeições e daí por diante. Na primeira noite, quando ele estava a pensar onde era suposto ele dormir, olhou ao redor e viu algo feito de madeira que quase parecia uma cama com um tapete feito de pele de animal, e pensou para consigo que deveria ser o lugar. E assim dormiu nele. Alguns anos mais tarde quando Kathok Situ regressou e foi à residência, Jamyang Khyentse pediu para ele se sentar e apontou para a cama de madeira. Kathok Situ respondeu dizendo, “Como poderia eu atrever-me a sentar-me ali?” E em vez disso ele prosternou-se a ela e tocou-lhe com sua testa várias vezes. Depois olhou ao redor e perguntou a Jamyang Khyentse, “Onde dormes?” Jamyang Khyentse apontou para a cama, e disse “Eu durmo aí.” Nesse momento Kathok Situ pareceu desapontado e disse, “Ah, é verdade o que eles dizem: onde um homem dorme, um cão também dorme.” Por momentos não disse nada, mas depois acrescentou, “Nesta cama dormiu o mestre de todas as linhagens dos ensinamentos do Buda no Tibet. Achas que é correto que também durmas aqui?” Depois Jamyang Khyentse Chökyi Lodrö disse, “Talvez eu deva deixar de dormir aí de agora em diante.” Mas Kathok Rinpoche disse; “Não, deves continuar. Está tudo bem.”

    Nessa época, havia um pequeno conflito entre seguidores da encarnação descoberta por Loter Wangpo e os apoiadores das outras encarnações. Antes que o conflito pudesse desenvolver-se, o rei de Derge enviou o seu próprio emissário, um ministro chamado Jagö Tobden, que declarou muito claramente que Jamyang Khyentse Chökyi Lodrö era o que deveria ficar no acento de Dzongsar, e a outra encarnação deveria ficar no monastério de Galon. Este julgamento resolveu o assunto e evitou mais discórdia.

    Quando Jamyang Khyentse soube que Pönlop Rinpoche, Loter Wangpo estavas prestes a dar as transmissões de Gyüde Kuntü (Compêndio de Tantras) ele viajou para recebê-las. Loter Wangpo teve uma visão de Jamyang Khyentse Wangpo, que considerou ser um sinal que esta encarnação era diferente das outras, e assim ele próprio foi recebê-lo. Eles prepararam um acento bastante elevado com almofadas de seda e fizeram oferendas elaboradas, de acordo com Jamyang Khyentse, era a maior da honras. Loter Wangpo deu ele próprio todas as transmissões do Compêndio de Tantras quando chegaram à seção dos tantras do yoga inultrapassável . Em particular, quando chegou à introdução da natureza da mente, foi efetuado de acordo com a tradição Sakya, com uma semana despendida na investigação e no treino da mente, culminando com o lama a transmitir a sua realização ao estudante. Neste momento, a mente do estudante tornou-se inseparavelmente unida com a mente de sabedoria do mestre e ele adquiriu todas as qualidade de realização.

    Anos mais tarde, quando Jamyang Khyentse Chökyi Lodrö já tinha estudado com algum numero entre cinquenta e cinco e sessenta mestres autênticos, ele disse que, de todos eles, ele considerou Loter Wangpo como o seu mestre raiz, e referia-se a ele como “O Vajradhara Loter Wangpo”, dizendo que a sua bondade era incomparável.

    Ele recebeu somente a seção dos tantras do yoga inultrapassável (Skt. Anuttara) do Compêndio de Tantras, pois nessa altura seu pai, Kyabje Tsewang Gyurme, estava a sua espera há quase um ano em Dzongsar, tendo viajado para lá especificamente para lhe conceder as mais importantes transmissões da escola Nyingma. Assim, sem receber as outras seções, ele regressou ao seu acento em Dzongsar.

    Quando chegou, seu pai Kyabje Ridzin Chenpo deu-lhe as transmissões do Lama Gongdü de Sangye Lingpa, do Kagye, do Chokling Tersar, e todas as outras principais transmissões do kama e do terma, uma a seguir à outra durante um período de dois anos.

    Na idade de quinze, ele começou a ensinar alguns monges do monastério Dzongsar, dando-lhes ensinamentos na Perfeita Sabedoria (Skt. Prajnaparamita). Ele recebeu também muitos ensinamentos e transmissões de Kathok Situ Rinpoche, que era um dos seus principais mestres, e também recebeu os votos monásticos.

    Quando Shechen Gyaltsap Rinpoche veio ao monastério Dzongsar, Jamyang Khyentse recebeu a transmissão de longa vida do Könchok Chidü dele e pediu-lhe que ficasse em Dzongsar para dar mais ensinamentos e transmissões. Shechen Gyaltsap disse não poder ficar, pois a água na região de Dzongsar não era boa para a sua saúde e ele teria que regressar ao monastério Shechen. Mas antes de ir, ele disse, “És bem vindo a ir visitar-me lá, ficarei muito contente em dar-te ensinamentos e transmissões, se esse for teu desejo.”

    Então ele foi ao monastério Shechen, chegando durante o retiro de verão. Gyaltsap Rinpoche estava a presidindo uma cerimônia no templo principal, mas Jamyang Khyentse estava com tanta pressa em encontrá-lo que em vez de enviar uma mensagem e esperar ser chamado formalmente, ele entrou diretamente. Ao entrar, a assembléia estava a recitar a oração para disseminar os ensinamentos, por Chokgyur Lingpa, conhecida por As Dez Direções e Os Quatro Tempos e tinha acabado de chegar à linha: “Possam todos os mestres preciosos, os esplendor dos ensinamentos, alcançar todos os lugares como o céu.” Eles pediram-lhe que fosse para a residência do lama, e depois Gyaltsab Rinpoche deixou a assembléia e juntou-se a ele. Gyaltsab Rinpoche disse-lhe quão auspicioso era que ele tenham chegado naquele momento durante a prática, e continuou a repetir aquelas duas linhas da oração enquanto se prosternava a Jamyang Khyentse.

    Depois foram para a área de retiro acima de Shechen e montaram uma pequena tenda de algodão. Shechen Gyaltsab concedeu-lhe o Compêndio de Sadhanas (druptap kuntü), Nyingtik Yabshyi, Damngak Dzö e outras transmissões. Dilgo Khyentse Rinpoche tinha também sido convidado para o monastério Shechen nessa época, e foi entronado por Shechen Gyaltsab nos seus aposentos.

    Shenchen Gyaltsap e Kathok Situ enfatizaram várias vezes que para os ensinamentos durarem para o futuro, tanto o estudo como a prática deveriam ser estabelecidos exaustivamente. Eles diziam que sem estudo e prática, os ensinamentos não teriam vida. Em concordância com os seus conselhos, Jamyang Khyentse decidiu estabelecer um centro de estudos (shedra) para beneficiar os ensinamentos e ajudar a assegurar a estabilidade do Dharma no futuro.

    Por volta desta época, o rei de Derge, Tsewang Düdul, estava sendo entronado em Derge Gönchen, e os principais lamas da região tinham sido todos convidados a participar na cerimônia. Jamyang Khyentse foi lá e o grande Khenpo Shenga Rinpoche também estava lá. Khenpo Shenga tinha estado a ensinar na shedra de Palpung, mas surgiu um pequeno problema e então tinha-se mudado para Derge. Quando conheceu Khenpo Shenga, Jamyang Khyentse disse, “Estou pensando em estabelecer um shedra em Dzongsar, no Kham-jé, e precisarei de um khenpo. Você pode vir?” Por um momento, Khenpo Shenga nada disse em resposta. Depois, passado algum tempo, ele disse,”Sim. Tal será extremamente benéfico. Irei com certeza.” Mais tarde na vida, Jamyang Khyentse Rinpoche olhou para este evento e disse que nada mais na sua vida tinha sido tão auspicioso.



    Depois de regressar a Dzongsar, no décimo quinto dia do mês lunar, começaram os trabalhos nos quartos dos monges e no templo de Kham-jé, renovando o Templo das Três Famílias do Buda (riksum lhakhang) que havia sido construído por Jamyang Khyentse Wangpo. Nessa época, o Khyentse Labrang era bastante pobre. Eles não tinham muito que pudesse ser trocado sem ser uns poucos sacos de grãos, pacotes de chá e sal. Claro, eles tinham imagens e representações do corpo, fala e mente iluminados, mas não eram pertences para serem trocados. Isto significava que quando começaram o trabalho de preparar o solo, e aí por diante, Jamyang Khyentse Rinpoche viajou para a área de Horkhok para recolher fundos.

    Durante as suas viagens, ele visitou a casa da família Lakar, onde um grande tertön, de nome Ati Tertön, com eles vivia e recitava orações para a família. A pedido da família Lakar, Jamyang Khyentse ficou e efetuou práticas durante três dias. Ele realizou uma cerimônia para convocar o espírito de abundância (yanguk) e concedeu uma transmissão de longa vida do Chimé Pakma Nyingtik. Quando estava a dar a transmissão, Ati Tertön também veio para recebê-la. Nesse tempo, ele não era tão bem conhecido como seria mais tarde. Quando a transmissão de longa vida terminou e todos estavam sentados em silêncio, Ati Tertön levantou-se e começou a falar espontaneamente. “Hoje foi muito auspicioso,” disse ele,”Fomos suficientemente afortunados para receber a transmissão de longa vida, do Chimé Pakma Nyingtik, através da encarnação de Jamyang Khyentse Wangpo.” Nesse momento tocou nas cabeças de duas jovens moças, Tsering Chödrön e Tsering Wangmo, que eram muito novas, e disse, “Mais tarde quando Jamyang Khyentse se tornar o grande Vajradhara, estas duas farão parte da sua assembléia de dakinis, e nesse mesmo momento até eu poderei ter a boa fortuna de ter alguma pequena utilidade. Foi tudo muito auspicioso,” Jamyang Khyentse foi completamente tomado por surpresa com isto. “Que diz esta pessoa?” ele perguntou. “nunca ouvi tal coisa!” Mas anos mais tarde quando ele recordava este evento, ele disse, “Aquele tertön realmente sabia algo.”

    Gradualmente o shedra de Dzongsar Kham-jé foi ficando pronto, e Shengpa Rinpohe tornou-se o primeiro na linhagem de khenpos. Em muitos dos monastérios Sakya, no Tibet Oriental, havia a tradição de se visitar o monastério mãe no Tibete Central. No caso de Dzongsar, isto significava ir ao monastério Ngor. Assim, dando continuidade a este costume, quando tinha cerca de vinte e quatro anos de idade, Jamyang Khyentse Chökyi Lodrö foi ao Tibete Central e visitou muitos dos lugares sagrados da região em conjunto com um pequeno séquito.

    Quando ele chegou ao grande monastério Ngor, como seguidor da linhagem Thartse, ele ficou na residência de Thartse Shapdrung, e durante essa estadia recebeu os ensinamentos  do Lamdré Tsokshé. Tal como o seu predecessor Jamyang Khyentse Wangpo, que tinha sido o mais supremo dos praticantes de mantra – um bhikshu Vajradhara  – ele foi a Orgyen Mindroling para receber a ordenação monástica completa de Khenpo Ngawang Thupten Norbu.