quinta-feira, 30 de junho de 2011

os dois desafios


"No budismo, existem dois tipos de desafio: o primeiro é entender a vastidão e a profundidade da filosofia budista; o segundo é aceitar o aspecto de simplicidade do budismo.
O primeiro desafio é difícil, mas pode ser vencido ao se estudar, ler e ouvir os argumentos filosóficos repetidas vezes. O segundo é extremamente difícil de ser vencido, porque é fácil demais."
                                                       Dzongsar Khyentse Rinpoche



quarta-feira, 29 de junho de 2011

Polu Khenpo Dorje



    Polu Khenpo Dorje (1896 - 1970), também conhecido como Thupten Kunga Gyaltsen, foi um dos principais discípulos de Khenpo Ngawang Palzang (Khenpo Ngachung ou Khenpo Ngaga)    e era considerado um dos mestres de Dzogchen com mais realização dos ultimos tempos. Ele também era chamada de Bomta Khenpo, por causa de seus benfeitores, os Bomta Tsang, que eram uma das famílias mais ricas no Tibet.

    Ele nasceu no vale Polu, na região de Derge. Entrou para o Monastério Polu, onde aprendeu a ler e escrever, e estudou com Gönchen Shar Lama Jamyang Khyenrab, um aluno pessoal de Patrul Rinpoche. Ele também estudou em Palyul, Dzongsar e alguns outros monastérios, depois de algum tempo se tornou o abade do Monastério Polu.

    Recebeu iniciações e transmissões de Drubwang Pema Norbu e de Jamyang Khyentse Chökyi Lodrö, e especialmente de seu principal professor, Khenpo Ngawang Palzang.

    Ele foi para o Tibet Central e meditou nos mais poderosos lugares das províncias de Ü, Tsang, Dakpo e Kongpo, especialmente em Samye Chimpu e Kharchu em Lhodrak. Encontrou o grande estudioso Vimalamitra sob o disfarce de um sadhu indiano, que usou um gesto simbólico para apresentá-lo diretamente à natureza de sua mente.

    Após a invasão chinesa, ele foi para a Índia, onde deu ensinamentos. 

  Fez uma peregrinação aos lugares mais sagrados do Butão, em Bumthang teve uma visão de Longchenpa. Ele ensinou em todo o Butão, e a convite da avó da rainha, permaneceu num retiro de montanha em Dechen Chöling.

   Aos 74 anos de idade, no décimo-oitavo dia do nono mês do ano do Cão de Ferro (1970), ele faleceu, sentado, na postura da mente confortável e tranquila.

   Entre seus principais discípulos estão Taklung Tsetrul Rinpoche, Khenpo Kunga Lekpa, Dr. Trogawa, Chagdud Tulku Rinpoche e o terceiro Zhingkyong Choktrul.

terça-feira, 28 de junho de 2011

Bondade Fundamental e Harmonia por Chögyam Trungpa Rinpoche



Video postado pelo Shambhala Brasil, com legendas em português.
Se as legendas não abrirem, acesse direto no youtube: 
http://www.youtube.com/watch?v=eGCVsO5C0xQ&feature=related
e clique no ícone vermelho CC para seleção do idioma.

sexta-feira, 24 de junho de 2011

Stupa, o símbolo sagrado da Iluminação

    O quietamente inicia hoje a “sessão” Stupas, a ideia é trazer informações, fotos, links e o que estiver relacionado a esse símbolo da iluminação e da paz. Entre outros posts, sempre estaremos mostrando fotos de Stupas ao redor do mundo.

Stupa de Jamyang Khyentse Chökyi Lodrö, Sikkim

A Stupa, que em tibetano é Chorten e significa algo como  receptáculo de oferenda, é uma representação da mente iluminada, e ao mesmo tempo, uma homenagem a mente iluminada e o caminho para sua realização.

Uma Stupa representa o corpo, a fala e a mente do Buda e cada parte de sua estrutura mostra o caminho para a iluminação. Sua estrutura também representa os cinco elementos: terra, água, fogo, ar e espaço.

Muitas Stupas são construídas em memória de grandes mestres e podem conter relíquias, ou até mesmo, o corpo de grandes Lamas falecidos, também podem ser erguidas para comemorar a visita de um mestre iluminado, um evento auspicioso ou construídas pela paz no mundo.

Oito Stupas no Chagdud Gonpa Khadro Ling, Brasil

 Quando Buda Shakyamuni entrou no parinirvana, oito Stupas foram construídas para comemorar os grandes feitos de sua vida e também para guardar de forma nobre suas relíquias. Estes grandes feitos são: nascimento, iluminação, o girar da roda (quando deu seu primeiro ensinamento), milagres, descida do céu de Tushita, reconciliação, Vitoria completa e parinirvana.

Construir uma Stupa é considerado uma ação muito meritória e auspiciosa, que gera inúmeros benefícios, tanto para quem contrói como para quem a vê, toca, ouve, ou se lembre dela. Uma pratica muito comum entre os budistas das escolas tibetana é a circumambulação, o kora, que constitui andar no sentido horário ao redor da Stupa, ou lugares sagrados, recitando mantras.

A Grande Stupa Dharmakaya em homenagem a Chögyam Trungpa

 Chögyam Trungpa Rinpoche disse: “O impacto visual, de uma Stupa sobre o observador, trás  a experiência direta do despertar inerente e a dignidade. As Stupas continuam a serem construídas por causa de sua habilidade de liberar até mesmo aquele que apenas olha para sua estrutura.”

quinta-feira, 16 de junho de 2011

Shabkar Tsodruk Rangdrol




Shabkar Tsodruk Rangdrol (1781 – 1850) foi um grande yogi tibetano que se tornou famoso por ser muito generoso com os pobres e necessitados, e também por adotar os ideais do vegetarianismo.

Nascido em Amdo ele fez muitas peregrinações para lugares sagrados no Tibet Central, Tsari, Nepal e Monte Kailash. Durante essas peregrinações ele ensinava e aconselhava as pessoas que encontrava em seu caminho, alem disso, encontrou-se com renomados mestres de diferentes escolas, com quem trocou experiências e ensinamentos sobre a filosofia budista e prática, entre eles estavam o Dalai Lama, o Panchen Rinpoche e Ngawang Nyentrak Rinpoche

Shabkar sempre foi bastante flexível em suas crenças, não se atendo a uma linhagem específica do budismo, respeitando todas as tradições, que muitas vezes competiam umas com as outras nessa época. Em seus ensinamentos enfatizava a importancia de se viver a filosofia e as doutrinas do budisto, sempre condenando o abate de qualquer animal.

Segundo sua  autobiografia, ele havia sido Avalokiteshvara, Manjushrimitra, Trenpa Namkha, Milarepa, o Glorioso Gyalse Thokmé, o Senhor Lodrö Gyaltsen e Thangtong Gyalpo. Entre essas encarnações anteriores, a que Shabkar mais enfatizou foi Milarepa, isso porque seu principal mestre, Chögyal Ngakyi Wangpo, era considerado a reencarnação de Marpa, o Tradutor, que era o mestre espiritual de Milarepa.

Shabkar estudou com mestres de todas as escolas, recebendo ensinamentos de Dzogchen de seu lama raiz, Chögyal Ngakyi Wangpo – um rei mongol e discípulo do primeiro Dodrupchen. Ele passou boa parte de sua vida em refúgios nas montanhas e um periodo de três anos na inascessível ilha de Tsonying Mahadewa no meio do lago Kokonor.

Conhecido como um escritor prolífico, era capaz de compor uma centena de páginas por dia, entre seus escritos o mais popular é o "Vôo do Garuda, Khanding Shoklap", a sua composição poética sobre Trekchö e Tögal.

Alguns outros livros de Shabkar foram traduzidos para o inglês, Matthieu Ricard traduziu sua autobiografia, “The Life of Shabkar – The Autobiography of a Tibetan Yogi”, lançado pela Snow Lion e o Grupo de Traduções Padmakara publicou o “Food of Bodhisattvas – Buddhist Teachings on Abstaining from Meat” (Comida dos Bodhisatvas – Ensinamentos Budistas na abstenção da carne).

quinta-feira, 9 de junho de 2011

Chatral Rinpoche com Tulku Urgyen e seu neto



Aqui temos uma foto antiga de Chatral Rinpoche visitando o Nagi Gompa, localizado acima do vale de Kathmandu. Ao lado dele Tulku Urgyen Rinpoche com o pequeno Phakchok Tulku no colo, atrás deles em pé, está Kunzang Dechen - a mãe de Chökyi Nyima Rinpoche e Chokling Rinpoche - em um dia brilhante e ensolarado.

(fonte: Blazing-Splendor)

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Nascimento do Buda



Entre as muitas datas possíveis para se comemorar o nascimento do Buda, existem algumas variações de acordo com diferentes tradições budistas, o quietamente comemora hoje o aniversário do Buda Shakyamuni.
Para celebrar esta importante data, posto aqui um ensinamento que Sua Santidade Dalai Lama nos deu em sua última passagem por São Paulo. É um texto de Geshe Langri Tangba com comentários de S. S. Dalai Lama.


                Oito Versos que Transformam a Mente



Vou agora ler e explicar brevemente um dos mais importantes textos sobre a transformação da mente, Lojong Tsigyema (Oito Versos que Transformam a Mente). Este texto foi composto por Geshe Langri Tangba, um bodisatva bastante incomum. Eu próprio o leio todos os dias, tendo recebido a transmissão do comentário de Kyabje Trijang Rinpoche.


                                1. Com a determinação de alcançar
                                   O bem supremo em benefício de todos os seres sencientes,
                                   Mais preciosos do que uma jóia mágica que realiza desejos,
                                   Vou aprender a prezá-los e estimá-los no mais alto grau.

Aqui, estamos pedindo: "Possa eu ser capaz de enxergar os seres como uma jóia preciosa, já que são o objeto por conta do qual poderei alcançar a onisciência; portanto, possa eu ser capaz de prezá-los e estimá-los."


                              2  Sempre que estiver na companhia de outras pessoas, vou aprender
                                 A pensar em minha pessoa como a mais insignificante dentre elas,
                                 E, com todo respeito, considerá-las supremas,
                                 Do fundo do meu coração.

"Com todo respeito considerá-las supremas" significa não as ver como um objeto de pena, o qual olhamos de cima, mas, sim, as ver como um objeto elevado. Tomemos, por exemplo, os insetos: eles são inferiores a nós porque desconhecem as coisas certas a serem adotadas ou descartadas, ao passo que nós conhecemos essas coisas, já que percebemos a natureza destrutiva das emoções negativas. Embora seja essa a situação, podemos também enxergar os fatos de um outro ponto de vista. Apesar de termos consciência da natureza destrutiva das emoções negativas, deixamo-nos ficar sob a influência delas e, nesse sentido, somos inferiores aos insetos.


                                3. Em todos os meus atos, vou aprender a examinar a minha mente
                                    E, sempre que surgir uma emoção negativa,
                                    Pondo em risco a mim mesmo e aos outros,
                                    Vou, com firmeza, enfrentá-la e evitá-la.

Quando nos propomos uma prática desse tipo, a única coisa que constitui obstáculo são as negatividades presentes no nosso fluxo mental; já espíritos e outros que tais não representam obstáculo algum. Assim, não devemos ter uma atitude de preguiça e passividade diante do inimigo interno; antes, devemos ser alertas e ativos, contrapondo-nos às negatividades de imediato.


                              4. Vou prezar os seres que têm natureza perversa
                                  E aqueles sobre os quais pesam fortes negatividades e sofrimentos,
                                  Como se eu tivesse encontrado um tesouro precioso,
                                  Muito difícil de achar.

Essas linhas enfatizam a transformação dos nossos pensamentos em relação aos seres sencientes que carregam fortes negatividades. De modo geral, é mais difícil termos compaixão por pessoas afligidas pelo sofrimento e coisas assim, quando sua natureza e personalidade são muito perversas. Na verdade, essas pessoas deveriam ser vistas como objeto supremo da nossa compaixão. Nossa atitude, quando nos deparamos com gente assim, deveria ser a de quem encontrou um tesouro.


                                5. Quando os outros, por inveja, maltratarem a minha pessoa,
                                    Ou a insultarem e caluniarem,
                                    Vou aprender a aceitar a derrota,
                                    E a eles oferecer a vitória.

Falando de modo geral, sempre que os outros, injustificadamente, fazem algo de errado em relação à nossa pessoa, é lícito retaliar, dentro de uma ótica mundana. Porém, o praticante das técnicas da transformação da mente devem sempre oferecer a vitória aos outros.


                               6. Quando alguém a quem ajudei com grande esperança
                                   Magoar ou ferir a minha pessoa, mesmo sem motivo,
                                   Vou aprender a ver essa outra pessoa
                                   Como um excelente guia espiritual.

Normalmente, esperamos que os seres sencientes a quem muito auxiliamos retribuam a nossa bondade; é essa a nossa expectativa. Ao contrário, porém, deveríamos pensar: "Se essa pessoa me fere em vez de retribuir a minha bondade, possa eu não retaliar mas, sim, refletir sobre a bondade dela e ser capaz de vê-la como um guia especial."


                             7. Em suma, vou aprender a oferecer a todos, sem exceção,
                                 Toda a ajuda e felicidade, por meios diretos e indiretos,
                                 E a tomar sobre mim, em sigilo,
                                 Todos os males e sofrimentos daqueles que foram minhas mães.

O verso diz: "Em suma, possa eu ser capaz de oferecer todas as qualidades boas que possuo a todos os seres sencientes," — essa é a prática da generosidade — e ainda: "Possa eu ser capaz, em sigilo, de tomar sobre mim todos os males e sofrimentos deles, nesta vida e em vidas futuras." Essas palavras estão ligadas ao processo da inspiração e expiração.
Até aqui, os versos trataram da prática no nível da bodhicitta convencional. As técnicas para cultivo da bodhicitta convencional não devem ser influenciadas por atitudes como: "Se eu fizer a prática do dar e receber, terei melhor saúde, e coisas assim", pois elas denotam a influência de considerações mundanas. Nossa atitude não deve ser: "Se eu fizer uma prática assim, as pessoas vão me respeitar e me considerar um bom praticante." Em suma, nossa prática destas técnicas não deve ser influenciada por nenhuma motivação mundana.


                              8. Vou aprender a manter estas práticas
                                  Isentas das máculas das oito preocupações mundanas,
                                  E, ao compreender todos os fenômenos como ilusórios,
                                  Serei libertado da escravidão do apego.

Essas linhas falam da prática da bodhicitta última. Quando falamos dos antídotos contra as oito atitudes mundanas, existem muitos níveis. O verdadeiro antídoto capaz de suplantar a influência das atitudes mundanas é a compreensão de que os fenômenos são desprovidos de natureza intrínseca. Os fenômenos, todos eles, não possuem existência própria — eles são como ilusões. Embora apareçam aos nossos olhos como dotados de existência verdadeira, não possuem nenhuma realidade. "Ao compreender sua natureza relativa, possa eu ficar livre das cadeias do apego."

Deveríamos ler Lojong Tsigyema todos os dias e, assim, incrementarmos nossa prática do ideal do bodisatva.

(Extraído de The Union Of Bliss And Emptiness, de S.S. Dalai Lama)

domingo, 5 de junho de 2011

Os Quatro Pensamentos Ilimitados

Celebrando a parceria com a extinta revista portuguesa Adarsha, através de sua ex-diretora Tsering Paldron, o quietamente reproduz aqui um precioso ensinamento de Jigme Khyentse Rinpoche.



Os Quatro Pensamentos Ilimitados
Por Jigme Khyentse Rinpoche

    Quer pratiquemos ou não o Dharma, todos possuímos a natureza de Buda, a que eu chamaria uma insustentável ternura. Esta ternura exprime-se em dois tipos de ambiente: um ambiente de medo e um ambiente de coragem. Quando se exprime num ambiente de medo, fá-lo através daquilo a que se chama os três venenos. Gostaria de dar um outro nome a estes três venenos. À ignorância gostaria de lhe chamar inércia, ao apego, tendência à espreguiçadeira*, e à cólera gostaria de chamar ingerência.
    Estes três factores são a matéria de que o medo é feito. Não falo necessariamente de um grande terror; o medo pode tornar-se algo de banal e até imperceptível como por exemplo, a sensação que nos impele para o aborrecimento, ou para a curiosidade. É assim que aquilo a que se chama obscurecimentos, as emoções negativas, existe como efeito destes três elementos. Quando estamos sob o seu poder, chamamos a isso samsara.
    Na verdade, estar no samsara é simplesmente interpretar esta sensibilidade profunda da maneira menos difícil: antes de mais com a inércia – não temos vontade de nos mexermos, de arranjar outra maneira de a traduzir.
    Aliás não o fazemos, e quando nos habituamos a isso, há necessariamente uma tendência à espreguiçadeira, a que chamamos apego. É confortável, estamos habituados, ganhamos-lhe gosto.
    Cada vez que alguma coisa vem alterar este estado de coisas, cada vez que há um pedido de movimento, de não-inércia, surge então o sentimento de ingerência e tornamo-nos defensivos.
    É assim que a maior parte dos seres sofrem no samsara dos seis mundos. Mas podemos também encontrar um outro meio de traduzir esta insustentável ternura num ambiente de coragem. Trata-se da coragem de ir mais longe, de fazer uma interpretação muito mais profunda. Falamos de insustentável ternura. Ora, para ousarmos o insustentável é preciso muita coragem.
    Penso que no mais profundo de nós existe esta ternura, mas é-nos difícil ir até lá. Interpretamos então esta ternura como uma fragilidade, uma vulnerabilidade.
    Ao sentir esta vulnerabilidade, desenvolvemos todo tipo de estratégias de proteção, passando por uma defensiva que pode mesmo ir até à agressão. Mas ainda assim, profundamente, esta ternura está presente; sem ela, ninguém seria defensivo ou ofensivo.
    Quando vemos alguém zangado, desanimado, triste ou irritado, sabemos que tudo isso não passa dum mal-entendido, duma má interpretação.
    Qual é a outra interpretação possível? Podemos exprimir esta ternura através daquilo a que chamamos os Quatro Pensamentos Ilimitados. O primeiro é a equanimidade. O que significa a equanimidade? Será que é uma espécie de tampa que abafa tudo? Qual é o perfume dessa equanimidade? Penso que se trata da revolta dum certo aspecto do nosso espírito, que recusa continuar sob o domínio das emoções, decide ser imparcial e ultrapassar as várias referências pré-estabelecidas. Por exemplo, apesar de estarmos treinados para desejar a felicidade de todos os seres, temos às vezes a idéia de que essa felicidade deveria estar mais do nosso lado, ou mais do lado dos outros.
    A princípio, a imparcialidade consistiria simplesmente em ousar pensar que é possível ser imparcial. Quando dizemos: “Eu tenho de praticar a imparcialidade”, este eu toma muito espaço, é muito pesado. Um exemplo: quando penso nos meus mestres, Khyentse Rinpoche ou Kangyur Rinpoche, na vida que levaram, sinto-me muito inspirado, e esta inspiração torna-se tão intensa que quero logo apoderar-me dela. Ora, em vez disso, ao sentir essa inspiração, poderia simplesmente tomar consciência de que me é possível vivê-la, e assim acolher plenamente esse instante.
    Khyentse Rinpoche dizia muitas vezes que a grande dificuldade dos praticantes desta época consiste no fato de quererem obter logo resultados duma prática, assim que ouvem falar dela. Parece-me que de fato somos assim.
    Se assistirmos a uma passagem de modelos e virmos uma pessoa magra com roupas que nos agradam, talvez queiramos logo comprá-las e vesti-las. Porém, se calhar somos gordos ou magros demais e acabamos por ficar deprimidos.
    Para praticarmos a imparcialidade, temos de começar por aplicá-la a si mesma, sem nos precipitarmos, como habitualmente. Muitas vezes quando praticamos, esquecemo-nos quanto nos é difícil ver o fato que usamos, aquilo a que chamamos a personalidade, o carácter. Um pouco como a história do homem que tinha perdido um burro. Um homem tinha oito burros e um dia resolveu contá-los. Reparou que lhe faltava um e correu tudo à procura dele. Finalmente, uma outra pessoa, ao contar os burros, apercebeu-se de que o homem se tinha esquecido de contar o burro sobre o qual estava montado.
    Portanto, quando penso na imparcialidade, não é numa imparcialidade com enormes lupas voltadas para dentro. Os Quatro Pensamentos Ilimitados são mais como uma antena tanto voltada para o exterior como para o interior.
    O que procuramos realmente é a liberdade. Dizemo-nos livres porque somos homens e mulheres que vivem numa democracia. Mas muitos de nós têm a impressão que têm de usar a liberdade de que dispõem: se se pode fazer algo, tem que se fazer. Mas se tem que se fazer, deixa de ser uma liberdade!
    Aqui, queremos ir muito mais longe e ganhar liberdade em relação as nossas emoções.
    Normalmente são as emoções que nos ditam a maneira como reagimos com cada pessoa. Mas graça à noção de imparcialidade, passamos a ser nós a decidir.
    É-nos difícil, por enquanto, imaginar o que possa ser a imparcialidade dos Budas. Mas esta prática tem de começar no ponto em que estamos. Sentimos a inspiração da imparcialidade, mas não temos que a desejar logo sobre os outros. Não devemos confundir o desejo de sentir a imparcialidade com a imparcialidade propriamente dita.
    Não é que essa imparcialidade esteja errada, mas não é necessariamente ilimitada, limitada que está pelo nosso desejo.
    Normalmente a nossa imparcialidade está limitada a 180 graus: vemos apenas o que está à nossa frente. Devemos tentar cultivar uma imparcialidade de 360 graus. Imparcialidade em que? Imparcialidade no fato de podermos expressar a todos os seres o amor e a compaixão que sentimos. Em querermos ultrapassar as fronteiras habituais do amor e da compaixão.
    Mas o que é o amor? Nos textos diz-se que o amor é querer o bem dos outros, um pouco como o desejo de felicidade e de sucesso para os seus filhos que sente um pai ou uma mãe. Não se trata tanto do fato de desejar, mas da atmosfera terna e doce criada por essa sensação. Aquilo a que gostaria de chamar amor parece-se mais com uma abertura que não precisa de desculpas. Estamos todos obcecados com desculpas. Por exemplo, se temos alguns minutos livres, podemos querer simplesmente sentar-nos sem fazer nada. Mas se alguém bater à porta, imediatamente nos levantamos para abrir uma janela, ou nos endireitamos de modo a sugerir que talvez estivéssemos a praticar, ou dizemos à pessoa que estávamos cansados, mesmo que seja mentira. Porque havemos de procurar desculpas? Esquecemo-nos de que não precisamos de nos esconder debaixo das saias da nossa mãe samsárica, as emoções, para sermos aceitáveis enquanto seres humanos.
    Na realidade os Quatro Pensamentos Ilimitados não são quatro coisas diferentes mas quatro faces da mesma coisa. De quê? De algo que estremece em nós cada vez que uma palavra vibra no ar, cada vez que vemos uma cor.
    E a compaixão é o quê? Penso que é um sentimento insuportável.
    Não é necessariamente  terno, nem sumarento1, nem doce. Quando esse estremecimento se torna insuportável e o deixamos traduzir-se em ternura – eis a compaixão. Este sentimento de insustentabilidade é semelhante ao que sentimos em relação à fealdede2 exterior, no sentido em que uma mancha algures3 pode ser insuportável. Interiormente, essa mancha é o sofrimento dos seres. Claro que quando isso acontece, os três venenos estão presentes e, ou nos convidam a fechar os olhos, dizendo: “ É insuportável!”, ou nos levam a tentar encontrar alguém sobre quem despejar toda a nossa compaixão.
    É a tendência à espreguiçadeira que nos dá essa vontade. Não quer dizer que não o devamos fazer, mas temos de estar conscientes disso. Poder constatá-lo, já é um passo. Os venenos só funcionam quando não nos apercebemos deles.
    Queria também mudar um pouco a nossa idéia de compaixão. Neste contexto, diria que a compaixão é a coragem: ousar manter os olhos abertos quando é difícil, quando é doloroso. Os mais assustadiços desmaiam logo, mas há quem demore um pouco mais. A compaixão é não fechar os olhos, não esperar pelo momento da espreguiçadeira, desejando que alguém faça tudo por nós. Esta noção de férias é um convite à fraqueza interior.
    Por exemplo, se a meio de um longo percurso, após quatro ou cinco horas de caminhada, estivermos cansados e pensarmos: “Mereço um pouco de descanso”, paramos. Sentimo-nos tão bem que não queremos continuar.
    Se cedermos à tentação, pensando: “Só mais um bocadinho...”, não conseguiremos chegar ao fim do caminho. Esta fraqueza, ou apego, instalou-se em nós. A atitude que devemos ter é como quando caímos dum cavalo: temos de montar de novo imediatamente ou nunca mais seremos capazes de o fazer. É mais uma vez essa noção de espreguiçadeira que se instala. A única maneira de nos vermos livres dela é pensando que a espreguiçadeira é impossível, que é uma noção que não existe na via do Buda. Não quer dizer que não haja repouso, mas trata-se doutra forma de repouso, a que chamarei derreter.
    Há dois remédios para uma pessoa obesa que se cansa facilmente. Ou repousa, e vai repousar-se a vida inteira, ou emagrece e já não tem que parar de três em três passos. Esta última solução é a melhor, apesar de ser mais demorada. A noção de Iluminação, neste caso, é derreter a gordura.
    E a alegria, o que é a alegria ilimitada? É simplesmente uma alegria que se estende por todas as direções, em 360 graus. É não ter medo da alegria. Por vezes, quando sentimos alegria, pensamos: “Não devia; é o apego; é o orgulho, etc.” Mas quem diz isso é o ego. É o ego que não quer ser orgulhoso e por isso se abaixa. Mas de fato o que ele faz, ao baixar a cabeça, é tentar pousar o traseiro no trono. Portanto, mesmo quando ele diz que não se deve pensar em algo, ou quando se sente culpabilizado por estar contente, não é por isso que a partida está ganha.
    Quando estamos felizes, penso que podemos ousar essa alegria pessoal sem sentir que devíamos manejar a prática com luvas, como se estivesse contaminada. Por exemplo, se praticamos e nos sentimos bem, estamos felizes por um lado, mas por outro lado temos medo de nos apegarmos e pomos umas luvas. Não é necessário.
    Se de cada vez calçarmos luvas, um dia acabamos com a mão engessada e deixamos de sentir o que quer que seja. O amor e a alegria com esta noção de infinito não são de modo algum um convite a uma compaixão ou a um amor narcisistas. Em contrapartida, não é indispensável rejeitar o que sentimos, porque isso é, na verdade, um narcisismo disfarçado.



Este texto é a transcrição dum ensinamento oral dado por Jigme Khyentse Rinpoche no templo de Ogyen Kunzang Chöling, em Bruxelas, a 24 de março de 1995.


Publicado originalmente na revista Adarsha, n#01 - julho/setembro de 1996.

*Espreguiçadeira: Preguiceira, cadeira de bordo num transatlântico. Cadeira para repouso ou para dormir. O Rinpoche refere-se à tendência que temos para nos instalarmos confortavelmente nas situações.

1-    Sumarento:  deleitoso, delicioso, suculento. que tem muito sumo ou suco, laranja sumarenta.

2-    Fealdade: estado ou qualidade do que é feio; feiúra: fealdade de um rosto, de um vício.

3-     Algures: em algum lugar; em alguma parte. (Antôn.: nenhures.)

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Khandro Tsering Chödron, a personificação da devoção

Khandro Tsering Chödron recitando o mantra do Guru Vajra.

Desde o não-nascido Dharmakaya,
onde ela reside agora,
que ela possa continuar a abençoar, guiar e inspirar a todos nós!