quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Oito Versos que Transformam a Mente

Geshe Langri Tangba

 Oito Versos que Transformam a Mente

Vou agora ler e explicar brevemente um dos mais importantes textos sobre a transformação da mente, Lojong Tsigyema (Oito Versos que Transformam a Mente). Este texto foi composto por Geshe Langri Tangba, um bodisatva bastante incomum. Eu próprio o leio todos os dias, tendo recebido a transmissão do comentário de Kyabje Trijang Rinpoche.

                                1. Com a determinação de alcançar
                                   O bem supremo em benefício de todos os seres sencientes,
                                   Mais preciosos do que uma jóia mágica que realiza desejos,
                                   Vou aprender a prezá-los e estimá-los no mais alto grau.

Aqui, estamos pedindo: "Possa eu ser capaz de enxergar os seres como uma jóia preciosa, já que são o objeto por conta do qual poderei alcançar a onisciência; portanto, possa eu ser capaz de prezá-los e estimá-los."

                              2  Sempre que estiver na companhia de outras pessoas, vou aprender
                                 A pensar em minha pessoa como a mais insignificante dentre elas,
                                 E, com todo respeito, considerá-las supremas,
                                 Do fundo do meu coração.

"Com todo respeito considerá-las supremas" significa não as ver como um objeto de pena, o qual olhamos de cima, mas, sim, as ver como um objeto elevado. Tomemos, por exemplo, os insetos: eles são inferiores a nós porque desconhecem as coisas certas a serem adotadas ou descartadas, ao passo que nós conhecemos essas coisas, já que percebemos a natureza destrutiva das emoções negativas. Embora seja essa a situação, podemos também enxergar os fatos de um outro ponto de vista. Apesar de termos consciência da natureza destrutiva das emoções negativas, deixamo-nos ficar sob a influência delas e, nesse sentido, somos inferiores aos insetos.

                                3. Em todos os meus atos, vou aprender a examinar a minha mente
                                    E, sempre que surgir uma emoção negativa,
                                    Pondo em risco a mim mesmo e aos outros,
                                    Vou, com firmeza, enfrentá-la e evitá-la.

Quando nos propomos uma prática desse tipo, a única coisa que constitui obstáculo são as negatividades presentes no nosso fluxo mental; já espíritos e outros que tais não representam obstáculo algum. Assim, não devemos ter uma atitude de preguiça e passividade diante do inimigo interno; antes, devemos ser alertas e ativos, contrapondo-nos às negatividades de imediato.

                              4. Vou prezar os seres que têm natureza perversa
                                  E aqueles sobre os quais pesam fortes negatividades e sofrimentos,
                                  Como se eu tivesse encontrado um tesouro precioso,
                                  Muito difícil de achar.

Essas linhas enfatizam a transformação dos nossos pensamentos em relação aos seres sencientes que carregam fortes negatividades. De modo geral, é mais difícil termos compaixão por pessoas afligidas pelo sofrimento e coisas assim, quando sua natureza e personalidade são muito perversas. Na verdade, essas pessoas deveriam ser vistas como objeto supremo da nossa compaixão. Nossa atitude, quando nos deparamos com gente assim, deveria ser a de quem encontrou um tesouro.

                                5. Quando os outros, por inveja, maltratarem a minha pessoa,
                                    Ou a insultarem e caluniarem,
                                    Vou aprender a aceitar a derrota,
                                    E a eles oferecer a vitória.

Falando de modo geral, sempre que os outros, injustificadamente, fazem algo de errado em relação à nossa pessoa, é lícito retaliar, dentro de uma ótica mundana. Porém, o praticante das técnicas da transformação da mente devem sempre oferecer a vitória aos outros.

                               6. Quando alguém a quem ajudei com grande esperança
                                   Magoar ou ferir a minha pessoa, mesmo sem motivo,
                                   Vou aprender a ver essa outra pessoa
                                   Como um excelente guia espiritual.

Normalmente, esperamos que os seres sencientes a quem muito auxiliamos retribuam a nossa bondade; é essa a nossa expectativa. Ao contrário, porém, deveríamos pensar: "Se essa pessoa me fere em vez de retribuir a minha bondade, possa eu não retaliar mas, sim, refletir sobre a bondade dela e ser capaz de vê-la como um guia especial."

                             7. Em suma, vou aprender a oferecer a todos, sem exceção,
                                 Toda a ajuda e felicidade, por meios diretos e indiretos,
                                 E a tomar sobre mim, em sigilo,
                                 Todos os males e sofrimentos daqueles que foram minhas mães.

O verso diz: "Em suma, possa eu ser capaz de oferecer todas as qualidades boas que possuo a todos os seres sencientes," — essa é a prática da generosidade — e ainda: "Possa eu ser capaz, em sigilo, de tomar sobre mim todos os males e sofrimentos deles, nesta vida e em vidas futuras." Essas palavras estão ligadas ao processo da inspiração e expiração.
Até aqui, os versos trataram da prática no nível da bodhicitta convencional. As técnicas para cultivo da bodhicitta convencional não devem ser influenciadas por atitudes como: "Se eu fizer a prática do dar e receber, terei melhor saúde, e coisas assim", pois elas denotam a influência de considerações mundanas. Nossa atitude não deve ser: "Se eu fizer uma prática assim, as pessoas vão me respeitar e me considerar um bom praticante." Em suma, nossa prática destas técnicas não deve ser influenciada por nenhuma motivação mundana.

                              8. Vou aprender a manter estas práticas
                                  Isentas das máculas das oito preocupações mundanas,
                                  E, ao compreender todos os fenômenos como ilusórios,
                                  Serei libertado da escravidão do apego.

Essas linhas falam da prática da bodhicitta última. Quando falamos dos antídotos contra as oito atitudes mundanas, existem muitos níveis. O verdadeiro antídoto capaz de suplantar a influência das atitudes mundanas é a compreensão de que os fenômenos são desprovidos de natureza intrínseca. Os fenômenos, todos eles, não possuem existência própria — eles são como ilusões. Embora apareçam aos nossos olhos como dotados de existência verdadeira, não possuem nenhuma realidade. "Ao compreender sua natureza relativa, possa eu ficar livre das cadeias do apego."

Deveríamos ler Lojong Tsigyema todos os dias e, assim, incrementarmos nossa prática do ideal do bodisatva.

(Extraído de The Union Of Bliss And Emptiness, de S.S. Dalai Lama)

quinta-feira, 31 de agosto de 2017

Documentário sobre Kangyur Rinpoche


Este Documentário de longa-metragem é sobre um dos mais notáveis Mestres Tibetanos, que teve um papel fundamental na introdução dos Ensinamentos Budistas no Ocidente e, inclui os primeiros e poucos ocidentais que o conheceram. Narrado de acordo com a visão do Neo Zelândes, Kim Hegan, à medida que empreende a sua corajosa viagem de regresso a Darjeeling, 40 anos mais tarde.
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Trailer


Uma breve conversa com Dzongsar Khyentse Rinpoche sobre o motivo de se fazer o documentário Kangyur Rinpoche, 54 Gandhi Road.

Documentário de Kangyur Rinpoche: 54 Gandhi Road

Ajude-nos a espalhar por toda a parte a história de Kangyur Rinpoche
Visite a página de crowdfunding Indiegogo para saber mais e compartilhe-a com os seus amigos.
 

Documentário de Kangyur Rinpoche: 54 Gandhi Road

Este Documentário de longa-metragem é sobre um dos mais notáveis Mestres Tibetanos, que teve um papel fundamental na introdução dos Ensinamentos Budistas no Ocidente e, inclui os primeiros e poucos ocidentais que o conheceram. Narrado de acordo com a visão do Neo Zelândes, Kim Hegan, à medida que empreende a sua corajosa viagem de regresso a Darjeeling, 40 anos mais tarde.

Quem foi Kangyur Rinpoche?

Foi um dos primeiros Mestres Tibetanos que, antevendo o perigo iminente para o Budismo Tibetano durante a Revolução Cultural, nos anos 50 do século XX, enfrentou a árdua viagem ao longo das montanhas dos Himalais até à India, salvando duas toneladas de textos Budistas que, de outro modo, enfrentariam a potencial extinção.

A viagem durou mais de três anos, foi feita a pé, realizada em conjunto com a sua família – membros mais novos inclusive -  e, envolvendo imensas dificuldades físicas.

Chegados a Darjeeling, Kangyur Rinpoche construiu o Mosteiro Orgyen Kunsang Chokhorling na 54 Gandhi Road. Foi nesta morada que, começaram a chegar, um a um, um pequeno grupo de ocidentais determinados e resolutos que haviam deixado o conforto das suas casas em prol de uma vida com um maior propósito.

Este encontro, ainda que breve (com o falecimento de Rinpoche passou em 1975), teve acabou por ter um efeito extraordinariamente amplo - contribuindo de forma directa para a propagação do Dharma pela maior parte do mundo ocidental.

Este Documentário é narrado através dos olhos do Neo Zelândes, Kim Hegan, um dos primeiros estudantes ocidentais de Kangyur Rinpoche. Kim, 35 anos depois do falecimento de Kangyur Rinpoche, irá percorrer a mesma viagem a partir da Nova Zelândia até à Índia, que fez 40 anos antes, para contar a história de Kangyur Rinpoche.

Este Documentário é orientado pelos dois filhos de Kangyur Rinpoche, Tulku Pema Wangyal Rinpoche e Jigme Khyentse Rinpoche e terá a participação da notável família de Rinpoche, bem como dos primeiros estudantes ocidentais que o conheceram no final dos anos 60, na 54 Gandhi Road. Irá ser o encontro directo com um homem pouco conhecido, cujas ações absolutamente extraordinárias, tiveram uma abrangente influência positiva na vida de dezenas de milhares de pessoas até hoje.

Ajude-nos a levar esta história para o mundo - segundo a segundo

Mais de 75% filmado na Índia e em França está agora completo e, estamos prontos para começar a fase de edição. Mas, não podemos continuar sem as verbas necessárias aos custos à pós produção. Por $108,000 (668,80€) podemos terminar este filme e levar a história de Kangyur Rinpoche para o mundo.
Chega a $1,300 (81,00€) por minuto do filme.
$ 21 (13,00€) por segundo.
Por favor, ajude a levar esta história, segundo a segundo, para o mundo.

Outras formas de ajudar

  • Partilhe esta campanha com os seus amigos! Envie o trailer do filme copiando o link  https://youtu.be/89cGxAYSDqA
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  • Tem algum filme do Tibete nos anos 50? Gostaríamos saber (54GandhiRoad@gmail.com).

Ficha Técnica

Produtor Executivo: Dzongsar Khyentse Rinpoche
Mestre e Cineata de Renome, Dzongsar Khyentse Rinpoche é o mentor chave.

Produtores Executivos: Jigme Khyentse Rinpoche e Tulku Pema Wangyal Rinpoche
Este projecto é orientado pelos dois filhos de Kangyur Rinpoche, Jigme Khyenste Rinpoche e Tulku Pema Wangyal Rinpoche.

Narrador e Produtor Neo Zelândes: Kim Hegan
Após 40 anos de produção de eventos ao vivo e para a televisão, Kim coloca agora os seus conhecimentos de produção num projecto que lhe é tão próximo do coração

Escrito e dirigido por: Yeshe Hegan
Yeshe estudou Cinema nas Universidades de Otago e Auckland, onde se especializou em documentários. Ela escreveu e dirigiu 6 curtas metragens. Para uma amostra das suas curtas metragens, incluindo o documentário, vai a www.54GandhiRoad.com.

Produtor Francês: Fabrice Frank da Elephant Productions
A Elephant é o principal grupo de produção audio-visual, localizado em Paris, França, na produção de Cinema, Documentários, Televisão e nova media.

Diretor de Fotografia: Fred Renata
Fred Renata é um galardoado DOP da Nova Zelândia. a sua expeiência cruzou todos os meios, desde a produção de videoclipes na área da música e publicidade, da televisão local e internacional, incluindo documentários reconhecidos pela crítica.

terça-feira, 29 de agosto de 2017

O Guru e o Aluno no Vajrayana

O Guru e o Aluno no Vajrayana

por Dzongsar Jamyang Khyentse

Escrevi o que segue em resposta a vários pedidos, inclusive alguns por parte da imprensa, para que expusesse minha visão da situação atual na Sanga Rigpa sobre o comportamento de Sogyal Rinpoche.

Não respondi a nenhuma das perguntas que me foram colocadas pela imprensa até agora porque o que quero dizer não é para ser editado ou alterado de nenhum modo. Infelizmente, os jornalistas sempre picotam o texto, e escolhem a dedo trechos e frases que se encaixem em suas próprias preconcepções. Caso você não acredite em mim, apenas fique cinco minutos olhando a CNN, a Fox News, a al-Jazeera, o New York Times, o Guardian ou a Breitbart News Network. Logo você descobrirá qual é a natureza da “liberdade de imprensa” na sociedade moderna. Infelizmente, a maioria das revistas “budistas” e outros periódicos não é diferente.

Então aqui está o que quero dizer, sem cortes ou edições. Por favor, concentre toda paciência que tiver disponível e leia a coisa toda do início ao fim; este texto deve ser lido inteiro, não aos fragmentos.

Em primeiro lugar, porém, acho que preciso apontar que o que quero expressar diz respeito apenas ao relacionamento entre guru e aluno específico ao vajrayana. Como este tipo de relacionamento guru-discípulo é um fenômeno vajrayana, eu gostaria de poder dizer que, se você não é um praticante do vajrayana, não precisa dar atenção ao que vem a seguir, ou sequer se importar com isso. Mas o fato é que não posso dizer isto. E por quê? Porque, independente de alguém achar isto bom ou ruim, o vajrayana está associado ao budismo, e assim ao tratar de uma situação vajrayana, não consigo evitar falar sobre o budismo e o futuro do budismo.

Tendo dito isto, tenho certeza que os budistas do Theravada e de outras escolas mahayana que foram arrastados para este debate público apenas por estarem conectados ao budismo, devem estar arrancando os cabelos de frustração. Simpatizo com essa situação; se eu estivesse no lugar de vocês, sentiria o mesmo.

Porém, precisamos estar bem cientes quanto a uma coisa. Há uma distinção bem clara entre o papel de Sogyal Rinpoche como mestre vajrayana e seu papel enquanto professor budista bastante público, na direção de uma organização sem fins lucrativos. Os mestres vajrayana não são necessariamente figuras públicas. A maioria deles não é nem mesmo reconhecida como professores budistas – no passado, alguns mestres vajrayana ganharam sua vida como prostitutas ou pescadores. Porém, ao contrário do relacionamento professor-aluno que existe em outras tradições, no vajrayana a conexão entre o aluno e o guru é algumas vezes mais pessoal e constante do que a familiar.

Muito frequentemente, para os professores que apresentam o budismo de uma forma mais geral, o oposto disso é o que ocorre. Estes professores são geralmente figuras públicas. Em muitos casos, têm muitos seguidores, e tanto eles próprios quanto seus ensinamentos, estão amplamente disponíveis. 
Eles também podem estar na liderança de vários mosteiros e organizações sem fins lucrativos.

Assim, ‘guru vajrayana’ e ‘professor budista’ são, de fato, papeis totalmente diferentes – mesmo quando ambos os papeis acabam desempenhados pela mesma pessoa. O que quero discutir aqui é o papel do mestre vajrayana em geral, e o papel de Sogyal Rinpoche como diretor espiritual da Rigpa, e professor de budismo no âmbito público.

Esta distinção é importante, porque muitos alunos budistas agora se perguntam como explicar este tipo de escândalo para seus amigos e para pessoas próximas. Como tocar no assunto com a irmã menor, que estuda num colégio cristão? Ou com seu novo namorado não budista, essa pessoa que você realmente quer impressionar, mas que já começou a pensar que sua disposição para fazer tudo que aquele guru lhe pede é realmente esquisita. Então, esta é uma questão que precisa ser contemplada e respondida separadamente, especialmente à luz do aumento em cobertura por parte da imprensa que o comportamento de Sogyal Rinpoche necessariamente vai sucitar.

Nada do que aqui tenho a dizer sobre o vajrayana em particular é fácil de explicar. De fato, estou um pouco preocupado por possivelmente acabar produzindo mais questionamentos do que respostas. E também estou certo de que minhas palavras serão mal interpretadas. De todo modo, a decisão de escrever este artigo já foi feita, uma vez que há muitos praticantes genuínos do vajrayana que podem estar passando dificuldade sobre como encarar a situação atual, e que também podem achar interessante ponderar as questões que me disponho a levantar aqui.

O Relacionamento Guru-Discípulo

A Universidade de Nalanda na Índia foi uma das primeiras universidades do mundo. Foi em Nalanda que, mil e quatrocentos anos atrás, eruditos confirmaram não haver algo como um átomo, ou “partícula indivisível”, ou um deus que exista inerentemente; e estes eruditos ririam muito das teorias de hoje em dia sobre Big Bang e democracia. Meu ponto aqui é que na Universidade de Nalanda não havia espaço nenhum para sentimentalismo, ou devoção ou fé cegas.

Naropa era o Reitor desta magnífica universidade. Suas conquistas enquanto estudioso eram extraordinárias, mas ainda assim o deixavam insatisfeito. Então ele abandonou a posição de prestígio e se dispôs a encontrar um professor cuja sabedoria transcendesse sua própria enorme erudição, e tudo que ele conhecia. Num determinado ponto, ele encontrou Tilopa, um pescador, e este encontro marcou o início de uma jornada cheia de aventura e altamente imprevisível.

Entre muitas outras tarefas inexplicáveis, Tilopa pediu a Naropa que beliscasse as nádegas de uma princesa em público, e que também roubasse sopa, ações que fizeram com que Naropa acabasse violentamente surrado. Ainda assim Naropa – com seu treinamento de cético total – fez, incondicionalmente, tudo que Tilopa pediu, sem interpor nem uma única pergunta. Sua recompensa foi o ensinamento de Mahamudra, que ele passou a seus próprios alunos, que por sua vez o passaram adiante. Ao longo dos séculos, a linhagem dos ensinamentos de Mahamudra de Naropa veio a liberar incontáveis seres humanos.

As pessoas que valorizam o Mahamudra não são burras; não são são bajuladores, ou gente disposta a seguir uma seita. A linhagem de Mahamudra de Naropa se espalhou por todo lado – e não só atraindo hippies desempregados, gente que largou a faculdade, desajustados sociais e rebeldes, mas alguns dos maiores imperadores do mundo. E a história sobre como Tilopa ensinou a Naropa foi contada vez após vez. E não como algum tipo de lenda, mas como ensinamento e exemplo – um exemplo que a maioria dos praticantes iniciantes no vajrayana anseiam por imitar.

A linhagem de Mahamudra de Naropa continua até os dias de hoje graças aos grandes mercadores de Mahamudra do extremo oriente, tais como Chogyam Trungpa Rinpoche, que a transportou até mesmo para o oeste selvagem da América do Norte.

Mais de trinta anos atrás, Trungpa Rinpoche ordenou que seus alunos, incluindo aí advogados e dentistas bem-sucedidos de Boulder, no Colorado, se mudassem para o lugar mais sombrio do planeta, Halifax, na Nova Scotia. E eles foram. Para os dias de hoje, uma ordem desse tipo é o equivalente a pedir a Naropa que roube sopa. E, o que é mais fantástico, décadas depois do falecimento de Trungpa, estes dentistas e advogados obedientes ainda moram em Halifax, e agora já são avós de uma terceira geração de praticantes.

Por falar nisto, caso você se descubra cercado por alguns destes praticantes, eles vão falar das glórias de Trungpa Rinpoche até que seus ouvidos caiam!

Este tipo de história – do tempo de Naropa até Trungpa Rinpoche no séc. XX – exemplifica o relacionamento guru-discípulo que é absolutamente crucial para a transmissão do Mahamudra.

Sogyal Rinpoche cometeu ‘Erros’?

Recentemente alguns alunos de Sogyal Rinpoche, pessoas que também se consideram praticantes da tradição vajrayana, alegaram que Rinpoche considerava seu comportamento abusivo os “meios hábeis” da “compaixão irada” na tradição da “louca sabedoria”.

Não importa como se descreva o estilo de ensinamento de Sogyal Rinpoche, o ponto crucial aqui é que, caso os alunos tenham recebido uma iniciação vajrayana, estando totalmente cientes de que era uma iniciação vajrayana ao recebê-la, e caso Sogyal Rinpoche tenha se assegurado de que todos os pré-requisitos tenham sido aceitos e completados, então, do ponto de vista vajrayana, não há nada de errado com as ações subsequentes de Sogyal Rinpoche. (Aliás, ‘iniciação’ inclui a instrução que aponta diretamente, a mais elevada iniciação vajrayana, também conhecida como quarto abhisheka.)

Francamente, para um aluno de Sogyal Rinpoche que recebeu abhisheka conscientemente, e que, portanto, começou o caminho vajrayana, pensar em rotular as ações de Sogyal Rinpoche como ‘abusivas,’ ou criticar um mestre vajrayana, mesmo em privado, que dizer em público e na imprensa, ou simplesmente revelar que tais métodos existem, é uma quebra de samaya.

Isto não quer dizer, como foi sugerido, que o tantra forneceria aos professores uma lista métodos para o abuso sexual, emocional ou financeiro de seus alunos – não se encontra qualquer lista desse tipo em tantra algum. Por outro lado, um guru vajrayana irá utilizar o que quer que esteja disponível a ele para desafiar e contrariar o ego, o orgulho, o autocentramento e o pensamento dualista de cada um de seus alunos, podendo até mesmo acabar mandando um homem muito cúpido e sexualmente voraz se tornar um monge.

Sinto muito, mas não podemos aqui dar um jeitinho nas regras. Quando tanto a pessoa que concede e a pessoa que recebe a iniciação vajrayana estão totalmente cientes e lúcidas quanto ao que aconteceu, ambos precisam aceitar que a percepção pura é a principal visão e prática do caminho vajrayana. Não há espaço algum para sequer um lampejo de percepção impura.

Mas o que é ‘percepção pura’? Num sentido último, de acordo com o vajrayana, a prática da percepção pura não significa apenas ver o guru como um deus, ou mesmo como uma deidade tântrica. Embora o vajrayana seja famoso por incluir técnicas de visualizar não só o guru, mas cada ser deste planeta e no universo como uma deidade, o ponto principal da percepção pura é ir completamente além da percepção dualista e reconhecer a união de vacuidade a aparência.

Colocando isso de forma simples, a percepção pura é a forma mais elevada de treinamento mental – dag nang byang em tibetano. Dag significa ‘puro;’ nang significa ‘percepção,’ e byang significa ‘treinar’ ou ‘se acostumar com.’

E como funciona a percepção pura? Como um aluno do vajrayana, caso você olhe para Sogyal Rinpoche e pense que ele está acima do peso, isto é uma percepção impura. Para tentar corrigir a percepção impura, então você pode talvez tentar visualizá-lo com o corpo de Tom Cruise, porém isso ainda não é percepção pura. Um dos infinitos meios hábeis utilizados no vajrayana para desconstruir e desmantelar a percepção impura é visualizar Sogyal Rinpoche com uma cabeça de cavalo, mil braços e quatro pernas. Porém, até mesmo esta técnica precisa ser eventualmente transcendida de forma a completamente realizamos a percepção pura.

Basicamente, enquanto a percepção do aluno permanecer impura, o guru que ele vê será uma projeção baseada em sua própria projeção impura, de forma que, portanto, só poderá ser impura também. O único modo de transformar a percepção impura e reconhecer o guru como um ser iluminado é treinando a mente com as práticas de visualização fornecidas no caminho vajrayana.

Nenhum ensinamento vajrayana, ou professor vajrayana qualificado, jamais esperaria que as percepções de um aluno sejam puras desde o primeiro momento em que dá o primeiro passo no caminho vajrayana. É por isso que as técnicas que aplicamos são chamadas de ‘treinamentos’ – e mesmo a palavra em português implica que erros são inevitáveis. Porém há uma forma muito simples de verificar o progresso na prática. No vajrayana esperamos ver não só o guru, mas a nós mesmos como uma deidade. Então, caso alguém tenha recém recebido o ensinamento de que é uma deidade, e perde o almoço, e por causa disso sente fome, isso significa que o treinamento não está completo. Alguém só está perfeitamente treinado em percepção pura quando finalmente realizar a união de aparência e vacuidade.

Assim, caso um aluno de Sogyal Rinpoche o veja debatendo-se em meio a um lago, e baseado em sua percepção impura projete nele a ideia de que parece estar se afogando, talvez não seja uma boa ideia para esse aluno pensar, “Como Rinpoche é um ser iluminado, ele deve ser capaz de caminhar sobre as águas.” Um pensamento muito melhor seria, “É a minha percepção impura! Rinpoche está se manifestando como um homem se afogando para que eu possa acumular o mérito de salvá-lo.”

À medida que a prática se aperfeiçoa, a percepção do guru não segue atada ou limitada pelas causas, condições e efeitos que antes nos fizeram pensar que ele estava se afogando. Este é o ponto do desenvolvimento espiritual em que se realmente vê o guru externo como o Buda, e também se é capaz de ver o próprio guru interior.

Até este momento, quando o guru lidera uma reunião da diretoria, e fica evidente que ele não entende nada sobre a questão, como membro prudente desse comitê que você é, você não deve hesitar em fornecer a ele a informação de que ele precisa. Ao mesmo tempo, como aluno do vajrayana, é preciso que você lembre habilidosamente de que o guru apenas parece estar sem noção, e isso é assim para você devido a sua própria percepção impura. Ao parecer precisar de sua ajuda, na verdade o guru está lhe dando uma oportunidade de acumular mérito.

Todos nós temos hábitos, e é o hábito que torna a percepção impura inevitável. No momento em que entramos no caminho vajrayana, começamos a quebrar os “samayas” – que são nosso compromisso com sustentar a percepção pura. É por isso que a presunção de que todos os praticantes vajrayana irão cometer erros está embutida no caminho vajrayana. O caminho de um praticante é, portanto, imediatamente confessar, expor e consertar quaisquer percepções impuras no momento que surjam, e continuamente aspirar para cometer cada vez menos erros.

E é isso que se quer dizer com “manter os votos de samaya”. De fato, a prática do Vajrayana não pode ser separada da manutenção do samaya. Não faz sentido nenhum algo como: “Vamos manter o samaya e depois praticamos.”

Num sentido último, uma vez que tenhamos transcendido toda possibilidade de cometer erros ou quebrar samaya, até mesmo pensar que haja algo a confessar, ou que exista algo como um confessor, é uma quebra de samaya. No Darma do Buda inteiro, e não apenas no vajrayana, a única forma pela qual qualquer um de nós tornará capaz manter todos os samayas é com a realização de uma compreensão perfeita de shunyata.

Caso uma percepção impura – tal como a crítica ao próprio guru – é feita deliberada e conscientemente, e acaba se tornando uma discussão bem organizada e pública, sem espaço para emendas ou correções, isso constitui quebra total de samaya.

Uma vez que a iniciação tenha sido concedida e recebida, nem o guru nem o aluno podem seguir analisando um ao outro – o guru não pode analisar o aluno, e o aluno não pode analisar o guru. Tendo concedido iniciação a alguém, não importa quão irritante, teimoso, neurótico ou até mesmo criminoso alguém seja, o guru precisa aceitar essa pessoa como seu aluno e cuidar dele como se fosse seu próprio filho – até mais do que se fosse o próprio filho, na verdade. Sei que muitos de vocês não querem ouvir isso, mas esta é a visão do vajrayana, e é isso que é ensinado em todos os tantras.

É um grande erro especular sobre a possibilidade de continuar a analisar e criticar o guru depois de receber uma iniciação profunda – de fato, isto é completamente equivocado. Não podemos alterar a visão fundamental do vajrayana apenas porque não se adapta às mentes de alguns ativistas progressistas, puritanos, abraâmicos, ou individualistas.

Caso você ache que essa visão não lhe é adequada, mas ainda assim você quer seguir o caminho do Buda, sempre é possível tentar os caminhos mahayana e shravakayana. Caso nenhum desses caminhos funcione para você – caso você não se sinta confortável com a ausência de chão não dualista do Budismo – você pode muito bem seguir alguma das religiões abraâmicas.  São religiões que seguem um caminho claramente firmado e dualista, e dizem coisas como “não coma carne de porco, não coma peixe, mulheres precisam vestir burcas”. Caso o rótulo “religião” seja em si embaraçoso demais para suas mentes elitistas e supostamente progressistas, você pode tentar algum tipo de secularismo semi-ateísta, com uma cobertura de ética moralista, e inchado por uma hipocrisia dogmática de classe média. Ou quem sabe você pode se permitir ser engolfado pela angústia existencialista, e então ficar incomodado com aqueles que se deleitam na curtição da esperança.

Ainda assim, pode haver alguns entre vocês que anseiam por ensinamentos tântricos porque querem rapidamente obter todas as realizações espirituais que puderem, e sem passar nenhuma dificuldade; ou porque são o tipo de pessoa que se acha merecedora e cheia de direitos, e assim adora pular as práticas preliminares. Ou talvez sejam muito espertos, queiram seguir o caminho mais simples com os resultados mais rápidos, e, a fim disto estão dispostos a dar um jeitinho no sistema e fazer uns atalhos para chegar o mais rápido possível aos mais elevados ensinamentos Dzogchen ou Mahamudra. Ou quem sabe são um daqueles tipos que chora amargamente quando o guru diz que não é o momento certo de dar tais ensinamentos, e então faz chantagem emocional extrema para conseguir o que quer. Caso você caia em qualquer uma dessas categorias, tudo que lhe resta é um relacionamento guru-discípulo do tipo é-tudo-ou-nada. Sinto muito, mas é assim que as coisas são, e eu não posso fazer nada quanto a isso.

Não podemos mudar a visão do vajrayana ou inventar alguma versão “moderada” do budismo vajrayana apenas para agradar a mentalidade ocidental do séc. XXI. Caso fizéssemos isto, seria o mesmo que dizer que nestes tempos modernos podemos dizer que alguns fenômenos compostos são permanentes, e que alguns fenômenos existem inerentemente – porém, também não podemos fazer isto. Esta visão é fundamental para o Darma do Buda, e, portanto, também para o caminho vajrayana.

No budismo, a ideia geral é que treinamos nossas mentes para realizar a não dualidade. O tantra nos oferece a forma mais profunda de atingir essa não dualidade pela prática da percepção pura; e no vajrayana essencializamos esta prática com a sustentação da percepção pura quanto ao guru.

Num sentido último, como praticantes vajrayana, precisamos aplicar a percepção pura a tudo e todos, e a qualquer coisa sem exceção, o que significa que a precisamos aplica-la também a Donald Trump, e mesmo a Hitler. Porém, só conseguiremos atingir uma percepção pura de tudo e todos caso em primeiro lugar sejamos capazes de manter percepção pura de nosso próprio guru. Caso tentemos reter a opção de questionar, criticar e analisar – em outras palavras, caso retivermos algum tipo de percepção impura seletiva como uma apólice de seguros que nos permita questionar o próprio caminho – então como se atingiria a cessação da mente dualista? Como o “um só sabor” vai ser realizado assim? Como se realiza a união de samsara e nirvana?

Uma das práticas fundamentais do budismo é trabalhar com as próprias projeções. É uma prática que é particularmente enfatizada no vajrayana. Sei que muitos de vocês vão rolar os olhos e me acusar de estar vacilando quando digo isto, mas todas as acusações dos alunos críticos de Sogyal Rinpoche estão baseadas nas projeções deles. Sei que isso é difícil de aceitar, sei que parecem coisas muito reais, mas, mesmo assim, elas são apenas projeção.

A conclusão aqui é: caso tanto o aluno quando o guru estejam cientes da teoria e da prática do vajrayana, não consigo ver nada de errado no que Sogyal Rinpoche fizer a seus supostos alunos de vajrayana – especialmente aqueles que ficaram com ele por vários anos. Estes alunos se colocaram voluntariamente no caminho vajrayana; é uma jornada que eles escolheram fazer. Pelo menos eu presumo que seja assim.

Aspectos dessa jornada se contrapõem a leis comumente aceitas? Possivelmente. Contradizem a forma que os seres humanos modernos do séc. XXI normalmente pensam? Sim. De um ponto de vista mundano, a maior parte do vajrayana parece impensável, talvez até criminosa. Caso Tilopa estivesse vivo hoje, teria sido preso há muito tempo. E agora que falamos nisso, que país ou cultura ocidental se gabaria em plena literatura sobre Marpa surrando Milarepa? Ainda assim, os tibetanos celebram esta história, resguardando-a como um dos mais gloriosos exemplos de um genuíno relacionamento guru-discípulo.

Também presumo que aqueles alunos próximos de Sogyal Rinpoche que lhe foram críticos não foram até ele em primeiro lugar lhe pedir conselhos sobre como alcançar sucesso mundano, ou buscando terapia, mas para descobrir como transcender este mundo ordinário – o que necessariamente envolve ir contra todos os tipos de valores mundanos tais como moralidade, o estado de direito, prestação de contas, transparência, e assim por diante. Não é possível manter um pé firmemente plantado nas zonas de conforto mundanas e então esperar ser capaz de transcendê-las.

É por este motivo que se diz que o vajrayana se destina exclusivamente aos discípulos de “qualidades superiores” – que neste contexto não tem nada a ver com alguém ser inteligente o suficiente para receber uma bolsa de prestígio ou se graduar de uma universidade de primeira linha. A pessoa com “qualidades superioras” é aquela que tem nojo total do dualismo de samsara e nirvana, que é cheia de repulsa pelas ideias de fundamentalismo e moderação, que é revoltada com o anarquismo e a moralidade, e que é determinada e sincera em sua devoção pela transcendência da dualidade. E é por isso que os alunos recebem tantas advertências antes de receberem ensinamentos vajrayana.

Terão os alunos de Sogyal Rinpoche sido advertidos? Foram Estabelecidas as Fundações Necessárias para a Entrada no Vajrayana?

Qualquer um que tenha um pouquinho de bom senso sabe que uma advertência precisa ser dada antes, e não depois, do fato ocorrido. Então é o dever de um mestre vajrayana advertir repetidamente os alunos aspirantes sobre no que eles estão se metendo. Os alunos precisam ser advertidos sobre pelo que irão passar – uma descrição completa, não só os pontos principais.

Caso Sogyal Rinpoche tivesse fornecido esses avisos, caso ele tivesse estabelecido fundações adequadas ensinando as bases do budismo, caso ele tivesse se assegurando de que os alunos haviam estabelecido uma sólida fundação pelo estudo e prática, e caso ele lhes tivesse relatado, antes de receberem iniciação e ensinamentos, sobre a natureza do caminho vajrayana e as consequências com que se deparariam caso quebrassem samaya, é bem possível que uma situação com essa nunca tivesse surgido.

Porém, suspeito que não foi bem isso o que se deu. No que se baseiam minhas suspeitas? Parte se devem a meu conhecimento dos hábitos tibetanos de conceder ensinamentos, e também no pouco que sei sobre os métodos de ensino do próprio Sogyal Rinpoche.

Em primeiro lugar, muitos professores tibetanos ainda têm o hábito de ensinar não tibetanos como se fossem tibetanos. No Tibete, o vajrayana nunca foi ensinado com o segredo com que foi ensinado na Índia. Lá a necessidade de manter segredo absoluto sobre a natureza dos ensinamentos, e mesmo sobre a identidade do professor, foi sempre enfatizada. Mesmo as iniciações eram concedidas em segredo, muitas vezes em locais inabitáveis, como cemitérios e o topo de montanhas. Ou seja, bem o oposto de como os lamas tibetanos – que geralmente sentam em tronos enormes em frente a milhares de pessoas – concedem iniciações.

Na Índia, nossos antecessores tântricos já chegavam extremamente bem informados – Naropa, por exemplo, sabia exatamente no que estava se metendo. Na maior parte da história do budismo tibetano, este não foi o caso.

É irônico que os alunos ocidentais de hoje estejam tão ansiosos em imitar o modo tibetano de fazer as coisas – estes são hábitos que, em sua maioria, não merecem a apreciação que recebem. Dois milênios antes da Renascença Europeia iniciar uma nova cultura de questionamento e investigação no mundo moderno, o Buda já havia apontado e enfatizado a parte vital que a análise toma na descoberta da natureza da realidade. Mais de dois milênios antes da queda do autoritarismo no ocidente, o Buda ensinou, “Você é seu próprio mestre. Ninguém além de você mesmo é seu mestre.” Nenhum destes dois conselhos foi levado a sério no Tibete. Não levar estes ensinamentos a sério é um hábito muito ruim, e certamente não é nada de que se orgulhar.

Os lamas tibetanos muitas vezes usam rituais tântricos como parte de eventos públicos locais, o que significa que as iniciações vajrayana se dão em conjunto com o hastear de bandeiras, e o cortar de fitas. Este uso do tantra era totalmente desconhecido entre os antecessores budistas dos tibetanos na Índia, onde nem mesmo um traço da transmissão sagrada do vajrayana podia ser vista antes, durante ou depois de ser executada numa dada ocasião. Os lamas tibetanos também abertamente se gabam de seus gurus, como se estivessem desvelando uma placa comemorativa. Porém eu me surpreenderia muito caso eu descobrisse que Naropa havia colocado qualquer esforço em melhorar seu CV, ou caso alguma vez tenha anunciado publicamente que seu guru tântrico era Tilopa.

Pode ser possível conceder iniciações e ensinamentos vajrayana aberta e publicamente em locais em que os iniciados têm absoluta devoção, são em sua maioria analfabetos, e não possuem treinamento acadêmico, nem o costume de analisar. Mas é difícil descobrir esse tipo de pessoa num mundo que está cheio, que está quase estourando, de tanta gente esperta. Então, hoje em dia, quando os lamas tibetanos aplicam seu hábito de conceder abertamente ensinamentos vajrayana para não tibetanos – em particular ocidentais – mas se esquecem de que estão presenteando estas disciplinas a pessoas que leem o New York Times, que são bem preparadas em pensamento crítico, treinadas para dar valor à analise e à contemplação, e aplaudidas por se rebelarem contra as convenções, não é inevitável que nada funcione?

Em contraste profundo com as características que marcam os alunos modernos do darma, a maioria dos discípulos tibetanos era culturalmente obrigada a receber iniciações e ensinamentos como parte de sua vida tradicional. Muitos poucos tibetanos se aproximaram do vajrayana com qualquer ideia de aplicar a análise adequada e recomendada, e em vez disso apenas confiaram em devoção cega. Até os dias de hoje muitos entre nós, lamas tibetanos em geral, não só Sogyal Rinpoche, mantemos fortemente nossos hábitos tradicionais, e assim devotamos pouco tempo para conceder aos alunos as advertências apropriadas, bem como para estabelecer as fundações necessárias antes de conceder iniciações e ensinamentos.

Conheço um pouco sobre Sogyal Rinpoche porque visitei vários centros Rigpa, e testemunhei a configuração dos centros Rigpa de primeira mão. Para ser franco, não vi evidência suficiente e convincente de que as advertências apropriadas eram concedidas, ou de que fundações adequadas haviam sido estabelecidas, ou de que os ensinamentos fundamentais haviam sido fornecidos de forma adequada. Em várias ocasiões, me parecia como que se alguns dos alunos fossem cristãos até talvez o dia anterior a ouvir o ensinamento que estavam ouvindo, e então, repentinamente, 24 horas mais tarde, já estavam ouvindo sobre devoção ao guru, recebendo instruções que apontam diretamente, e praticando Guru Ioga – a coisa era extrema assim.

Caso este seja o caso – caso advertências adequadas e treinamento de fundação não tenham sido concedidos antes dos ensinamentos vajrayana – então o Sogyal Rinpoche está ainda mais errado do que os alunos que levantaram as críticas. Por quê? Porque é sua a responsabilidade de preparar o terreno para o vajrayana de acordo com os ensinamentos e práticas de fundação prescritos e bem estabelecidos pelo próprio vajrayana. Não há dúvida alguma de que a pessoa com mais conhecimento, poder, e, portanto, responsabilidade, também tem a maior culpa quando tais obrigações não são preenchidas.

Como Respondem os Alunos Ocidentais

Ainda assim, há coisas com relação a tudo isso que me deixam intrigado. Os alunos criticando Sogyal Rinpoche parecem ser altamente inteligentes. Por que, então, não foram espertos o suficiente para examinar e analisar o professor antes de se alistarem? Como se deixaram arrastar pela experiência na Rigpa, com aqueles panfletos lustrosos tão bem elaborados, e toda a agitação do centro? Não compreendo porque esperaram dez, ou até mesmo trinta anos, antes de dizer qualquer coisa. Como é que não viram todos estes problemas no primeiro ou no segundo ano de seu relacionamento com Sogyal Rinpoche?

Devo também dizer que embora intrigado, minha confusão se mistura com simpatia, porque nós como seres humanos não só somos servos de nossos intelectos, mas também somos levados por nossos sentimentos. Só posso especular, mas não será possível que estes alunos tenham ficado comovidos, e talvez até mesmo deslumbrados, com tudo que encontraram na Rigpa? Talvez os panfletos luxuosos, o incenso, os tronos, e as recitações cantadas tenham feito seu trabalho? E, é claro, a Rigpa recebeu muitos lamas altamente respeitados e ilustres, inclusive o mais elevado de todos, o que deve ter cimentado a veneração e o respeito que estes alunos sentiam não só pela tradição toda, mas também pelo próprio Sogyal Rinpoche. Como resultado dessa erupção inesperada de sentimentos piedosos que vivenciaram, talvez não tenha sobrado muito espaço em suas mentes para fazer uma análise mais criteriosa, uma vez que emocionalmente só queriam “se jogar!” Pelo que vi na Rigpa, pode muito bem ter sido isso que aconteceu.

Puxa vida, mas também o carma parece ter um papel nisso tudo, não é mesmo? E agora que eu falei em carma, estou certo de que alguns de vocês me acusarão de cair em outro vacilo. Ainda assim, o fato é que cair em propaganda em papel de boa qualidade e parafernália tibetana, se sentir inspirado e tocado pelo exotismo tibetano e por toda essa espécie tibetana que está em vias de extinção, e tudo mais que surge em nossas mentes, apenas surge de causas e condições que são a essência do carma.

É assim que funciona, e tudo que posso fazer é encorajar cada um de nós a acumular mais carma bom, de forma que não nos deparemos outra vez com esse tipo de situação em nossas vidas. Sentimentos são cármicos. E temo que essa situação não vai se apaziguar enquanto seu carma não se exaurir.

Caso um Professor e um Aluno Vajrayana Briguem, Quais são as Consequências?

Caso o professor e o aluno tenha atingido uma compreensão genuína sobre o caminho sendo praticado, e todas as fundações necessárias e apropriadas tenham sido estabelecidas, e uma ideia clara das consequências possíveis tenha sido passada, mas o aluno ainda mantém uma visão errônea e age segundo ela, difamando e criticando o professor, então, de acordo com o tantra, o aluno encontrará consequências graves e inimagináveis.

Mas o mesmo se aplica ao professor. De fato, caso o professor não tenha estabelecido as fundações apropriadas, caso o professor tome vantagem de um aluno física, emocional ou financeiramente, e caso o professor conceda ensinamentos da mais elevada ioga para aqueles que ainda não estabeleceram uma fundação adequada, e como resultado, um aluno imaturo quebre os samayas raízes mais fundamentais, então o professor também sofrerá consequências extremamente graves – consequências ainda mais sérias e terríveis do que as do aluno.

Caso as fundações adequadas tenham sido estabelecidas, mas as ações do guru – físicas, verbais, emocionais, etc. – não deixarem  o aluno um centímetro mais próximo da iluminação, e caso as ações do professor tenham objetivo ganho pessoal, sexo, dinheiro, poder ou autogratificação, é claro que ele não sabe o que está fazendo. Ele, portanto, obviamente não é um grande mestre vajrayana, muito menos um mahasiddha. E assim ele passará por consequências extremamente graves.

Quando digo ‘consequências graves,’ não estou falando de acabar exposto nas mídias sociais, ou ter a reputação arruinada por um escândalo, ou mesmo ser condenado e preso. Isso não é nada! As consequências para o professor são muito piores do que a mera humilhação mundana: ele vai para o inferno vajra. O que é o inferno vajra? Não é apenas ser fervido em ferro derretido, ou fritado em imersão por guardiões do inferno, – coisas que, em comparação, soam até bem confortáveis. A característica insuportavelmente terrível do inverno vajra é que, uma vez que você esteja lá, você não ouve nem uma única palavra dos ensinamentos sobre causas e condições, originação dependente, shunyata, e o resto todo, por zilhões de éons. Mil budas podem surgir e desaparecer, mas no inferno vajra, você não vai ouvir nada a respeito deles ou de seus ensinamentos.

Caso as ações de um professor arruínem a imagem do Darma do Buda, estraguem o apetite pelo darma de um aluno aspirante, ou caso a semente de inspiração que leva uma única pessoa a seguir o Darma do Buda seja queimada de forma irreversível, as consequências serão tão terríveis que são, de fato, inexprimíveis.

Poucas pessoas parecem saber como é difícil ser um aluno do vajrayana, mas quase ninguém sabe como é muito mais difícil ainda ser um mestre do vajrayana. Acredito que a tão amplamente difundida e execrável ignorância quanto a estas consequências é o que leva tantas pessoas hoje a passarem por grandes esforços para conseguir uma vaga como guru – e isso vale mesmo para os secularistas não budistas. Porém, se lhes fosse dada a oportunidade, estes supostos gurus dispensariam o abuso exatamente da mesma forma que as pessoas comuns o evitam. Caso as pessoas soubessem quão precário e perigoso é o trabalho de um guru, duvido que alguém ainda o quisesse.

O próprio prestígio e as vantagens que um guru parece desfrutar representam exatamente o quanto, em comparação com as oportunidades do aluno, são maiores as chances dele enganar ou ser enganado. Como Patrul Rinpoche afirmou em As Palavras de Meu Professor Perfeito, quando um aluno oferece um único centavo, ou faz qualquer tipo de esforço, por pequeno que seja, para mostrar respeito ao professor – ficando de pé quando o professor entra na sala, ou se curvando a ele, ou abrindo passagem para que o professor vá na frente – há consequências; e caso o suposto mestre vajrayana não seja iluminado, ele não está acima dos débitos cármicos que tais oferendas produzem.

Claro, idealmente, um mestre do vajrayana deve ser iluminado. A realidade é que muitos mestres do vajrayana talvez não sejam, ainda que, por razões que nada tenham a ver com ganho pessoal, fama e fortuna, eles assumam esse papel. Alguns deles o assumem por necessidade. Ou porque os ensinamentos precisam ser preservados, ou a linhagem corre o risco de ser rompida, e eles então aceitam o papel de mestre vajrayana por amor pelos próprios ensinamentos. Basicamente, caso eles estejam na posição de não ter outra escolha senão passar adiante estes ensinamentos preciosos, então, bastante relutantemente, eles se tornam mestres do vajrayana.

Portanto, um mestre não iluminado não deveria sustentar qualquer ilusão. Ele precisa saber em seu interior que não é iluminado, e ele nunca deve enganar a si próprio dizendo que é. Como aluno, porém, é preciso que você veja seu mestre vajrayana como um ser iluminado. Esta é uma escolha que você precisa fazer. Mas isso não está em contradição com o Buda quando ele diz, “Você é seu próprio mestre. Ninguém fora você mesmo é seu mestre”? Não, não entra em contradição, porque é você que está fazendo esta escolha.

Um mestre vajrayana definitivamente não é um mahasiddha caso seja afetado pelo escândalo, ou tema ser publicamente envergonhado, e tenha pavor da ideia de ser jogado numa prisão. Ele também não é um mahasiddha caso se preocupe com perder alunos. Um mahasiddha de verdade, como Marpa ou Tilopa, não estaria nem aí com relação a qualquer uma destas coisas, e nem pensaria duas vezes sobre ser jogado na cadeia. E um mahasiddha certamente nunca sentiria necessidade de pedir desculpas por suas ações, uma vez que tudo que ele faz é feito por compaixão.

Por outro lado, caso seu mestre vajrayana não seja um mahasiddha e não só surre os alunos, mas também pessoas aleatórias na rua, aprecie mais a merda do que a comida gourmet, rasgue notas de 100 dólares, carregue uma mala cheia de bolas de futebol ou areia por aí, fique igualmente excitado com uma pedra, ou por homem ou mulher atraentes, fale besteira, e não guie ninguém num caminho que tem visão, meditação e ação, ou base, caminho e fruição, então ele é só um louco, e deveria ser hospitalizado.

Mas e se um mestre vajrayana não é nem um mahasiddha, nem é louco, como ele deveria se portar? Ele deve se comportar de forma “decente”.

Seja ele iluminado ou não, um mestre do vajrayana terá estudado muitos ensinamentos e técnicas preciosos e profundos. Agora que ele é um professor, ele pode compartilhar o que aprendeu com alunos sinceros e devotados. Ele sabe que ao utilizar esses ensinamentos e os métodos que seus próprios mestres utilizaram ao ensiná-lo, é totalmente possível que os discípulos se iluminem antes dele. Então ele tem uma razão muito boa para ser decente, e para não tirar vantagem daqueles que entregaram suas vidas a ele. Não importa o que os alunos tenham sacrificado e oferecido – tempo, dinheiro, oferendas, respeito, o que for – ele precisa utilizar estas coisas para ajudá-los. Caso ele acenda uma única vela e a coloque em frente a uma estátua do Buda com aspirações genuínas para a iluminação de seus alunos, isso será suficiente.  

Ser decente também significa que o mestre vajrayana precisa conhecer os limites de seus alunos – o que eles aguentam e o que eles não aguentam. Para fazer isso, ele precisa apenas usar o bom senso e se perguntar quais seriam seus próprios limites. O que, por exemplo, ele não teria feito nem caso seu próprio mestre vajrayana lhe tivesse pedido? Caso o mestre vajrayana de Sogyal Rinpoche o tivesse pedido para que fosse celibatário, ele o faria?

Obedecer sempre às ordens do guru é difícil. Felizmente, nenhum de meus mestres vajrayana jamais me pediu para fazer nada que considerei impossível tentar realizar – tenho bem certeza que eles sabiam que eu não tinha capacidade de fazer absolutamente nada do que me pediam.

No mínimo, um mestre vajrayana que não seja iluminado precisa sempre considerar as consequências de suas ações. Em particular, ele devia perguntar a si mesmo se suas ações afastam as pessoas do Darma do Buda em geral e do vajrayana em particular. E um mestre vajrayana não iluminado, mas decente, precisa sempre se lembrar de distinguir bem entre o destemor da “louca sabedoria” e a estupidez de “ninguém vai descobrir!’

Perdido na Tradução: Confundir Sinais Culturais Sutis

De meu próprio ponto de vista muito limitado, e depois da experiência de ter amigos ocidentais por várias décadas, eu diria que apenas um único lama realmente entendeu a cultura ocidental e agiu de forma adequada com relação a ela, Chogyam Trungpa Rinpoche.

A maioria dos lamas tibetanos, como já disse antes, ensinam a não tibetanos da exata mesma forma que ensinam tibetanos. Neste processo, tentam fazer o impossível, transformar alunos ocidentais em tibetanos. Acredite se quiser, conheci pessoas que realmente acreditam que, para elas, a única forma de estudar e praticar o Darma é aprendendo tibetano, cantando no estilo tibetano, recitando orações em tibetano, e até mesmo vestindo roupas tibetanas tradicionais.

Também percebi que lamas tibetanos passam muito tempo ensinando aos alunos tradições tibetanas que nada tem a ver com o Darma. Eu não me surpreenderia se, ao fazer isto, alguns lamas não tenham feito com que seus alunos ocidentais acreditem que só possível atingir a iluminação sendo tibetano.

Para o Darma do Buda em geral e o vajrayana em particular serem mesmo passado e ensinado a não tibetanos, é muito importante que haja uma compreensão cultural adequada entre o professor e o aluno, assim permitindo que o darma genuíno se transmita de forma apropriada e com precisão. Isto é realmente difícil, mas é absolutamente necessário.

A cultura, no fim das contas, é um hábito, e os hábitos são a manifestação fundamental da ignorância. Então é totalmente injusto culpar o sistema vajrayana quando lamas e alunos não seguem procedimentos vajrayana, preferindo confiar em suas presunções e hábitos culturais – que é o que a maioria dos lamas gosta de fazer.

O próprio sistema do vajrayana estabelece todos os procedimentos muito claramente. Quase todas as iniciações profundas – mesmo a primeira das quatro iniciações usuais – são precedidas por pelo menos seis advertências. Estas advertências incluem instruções sobre o lama mostrar o vajra, dar água de compromisso, e outras. Porém, quantos de nós lamas realmente enfatizam essas advertências?

Quando lamas tibetanos dão iniciações a tibetanos e butaneses, a maioria deles não tem ideia alguma do que está acontecendo, e muitos poucos sequer se importam em vir a entender. Cada vez mais, os lamas tibetanos assumem que os alunos ocidentais têm a mesma atitude. Estes lamas algumas vezes dão iniciações a milhares de alunos de uma só vez, e muitas vezes os alunos nem sabem o que receberam, muito menos o que o ritual significou, porque as advertências do vajrayana foram simplesmente lidas em voz alta e não foram explicadas.

Para ser justo, alguma responsabilidade também precisa ser depositada nos alunos ocidentais, que algumas vezes estão mais interessados em parecer com tibetanos e falar com eles do que com realmente praticar o darma. Caso eles sejam tibetanologistas, ativistas que anseiam salvar a cultura tibetana, então até tudo bem – e presumo que haja algum benefício nisso.

Porém aqui estamos falando sobre o Darma do Buda, e o Darma do Buda está muito além de “país” e “cultura”. Então, se você está interessado em atingir essa tal iluminação, se você quer “despertar” e liberar-se de todas as máculas e dos efeitos das máculas, então obviamente você precisa ir além da cultura completamente – ir além até mesmo das culturas de comedor de curry, mastigador de tsampa e tomador de cafezinho.

Distinções claras entre o Darma e a cultura também precisam ser feitas, caso queiramos algum dia solucionar estas confusões de agora – que, como já disse, provavelmente seguirão por mais algum tempo. Olhando para a próxima geração de lamas e como eles estão se manifestando, devo dizer que não vejo sequer um lampejo de consciência quanto a esta questão vindo de qualquer um deles.

Disseram-me que Chogyam Trungpa Rinpoche fez seus alunos fazerem prática sentada – shamata – por vários anos. Ele também os fez estudar os ensinamentos do shravakayana e do mahayana em detalhe, os fazendo passar por anos de preparação antes de receber quaisquer iniciações vajrayana ou instruções que apontam diretamente. Trungpa Rinpoche chegou ao ponto de criar o fenômeno Shambhala – o treinamento Shambhala e a prática de meditação sentada – para garantir que seus alunos estivessem realmente preparados para o Darma do Buda.

Todos os procedimentos de preparação prescritos são importantes. Lembre do fato de que Naropa já era um celebrado estudioso, e o Reitor da Universidade de Nalanda antes de sequer tentar encontrar um guru – em outras palavras, ele estava completamente preparado.

Advertências Diretas que São Mal Entendidas

Outro fator que adiciona complexidade à situação atual é que por mais que os alunos estejam familiarizados com o conselho de que devem analisar e testar o guru antes de se tornar um aluno – e mesmo quando lhes são dadas advertências diretas – parte da experiência humana é que há coisas que simplesmente não se quer ouvir, especialmente quando estamos com a flecha da inspiração fincada no peito. Isto significa que na prática, nas raras ocasiões em que advertências apropriadas são concedidas, muitas pessoas simplesmente não ouvem. Algumas nem querem ouvir as palavras de advertência. Para muitos de nós, seres humanos, a capacidade de ouvir, e a capacidade efetivamente captar o que se está ouvindo, não são coisas muito fáceis de estabelecer.

Infelizmente, advertir pessoas do perigo potencial ou sobre problemas pode até mesmo causar ainda mais problemas. Recentemente eu fui bastante franco com uma jovem que era nova no Darma, e sugeri que ela ficasse longe de certo lama jovem em particular, devido a algumas coisas que sabia sobre ele. Meu conselho foi desinteressado e de coração. Eu não só estava preocupado com ela, mas também com o jovem Rinpoche, e com Darma do Buda. Porém, ela não aceitou bem meu conselho – na verdade, o entendeu completamente errado. Para ela, eu a estava sendo controlador, possessivo e ciumento. Claro, muitos jovens têm naturezas rebeldes, e muitas vezes fazem o oposto do que lhes é sugerido. Porém, neste caso ela repetiu tudo que eu havia lhe dito em privado para o jovem lama, e o resultado disso é que agora há se formou uma pequena ruptura entre minha pessoa e este lama. Isto é uma circunstância muito infeliz.

Algo bastante parecido ocorreu quando uma aluna veio até mim reclamar sobre como seu guru sempre pedia que lhe comprasse coisas – relógios caros Rolex, carros, antiguidades, etc. Quando veio até mim, ela já lhe havia comprado muitas coisas, mas agora não estava mais podendo manter essa situação, já que tinha também obrigações financeiras para com a própria família. Respondi que, falando de forma geral, se ela, como aluna, realmente quisesse fazer oferendas caras para o professor, ela podia fazer quantas fosse capaz de fazer, pelo tempo que fosse. Porém, também disse que se ela estivesse sentindo qualquer constrangimento sobre o que estava fazendo, ela devia explicar sua preocupação diretamente para seu guru, em vez de falar comigo. Então ela falou com o professor. Infelizmente, ela também lhe disse que havia sido eu que havia dito para ela falar com ele diretamente, e desde então até hoje eu e este lama não estamos mais nos falando. Dar conselhos pode ser perigoso.

O que teria acontecido caso, muitos anos atrás, eu tivesse advertido os estudantes da Rigpa que escreveram esta carta crítica a Sogyal Rinpoche, e lhes tivesse dito para examinar e analisar o professor cuidadosamente antes de se tornarem seus alunos? Teriam me ouvido? Duvido. O pior que poderia acontecer é uma advertência aberta desse tipo resultar em graves desentendimentos e conflitos bastante sérios – que eu como ser humano certamente sempre anseio evitar. Também me lembro de algumas reações muito defensivas por parte de alguns alunos da Rigpa quando fiz uma piada sobre a parafernália tibetana excessiva que vi em seus centros.

Mas e se eu tivesse assumido o papel de advogado do diabo? E se eu não só tivesse aconselhado estes alunos a verificar e analisar o guru, mas fosse além disso e dissesse: “Sogyal Rinpoche apresentou vocês para muitos professores do vajrayana realmente fantásticos. Porque vocês escolheram continuar seguindo ele, em vez desses outros grandes mestres?”

E se eu tivesse levantado a questão: “Fora o que o próprio Sogyal Rinpoche lhes disse, que prova têm de que ele recebeu um treinamento completo e adequado? Ele era apenas uma criança quando recebeu ensinamentos de Jamyang Khyentse Chökyi Lodrö – sabiam disso? Sabiam que ele tinha apenas dez ou doze anos de idade quando Khyentse Chökyi Lodrö faleceu? Sabiam que ele foi para uma escola católica em Kalimpong e depois para a Universidade em Delhi? Então, quando é que ele fez seu treinamento?”

E se eu tivesse perguntado: “Vocês veem tibetanos se amontoando para receber ensinamentos de Sogyal Rinpoche? Os tibetanos são sempre muito respeitosos na frente uns dos outros, mas vocês sabem o que eles realmente estão pensando? Talvez, apesar do fato deles saberem que ele não foi bem treinado, eles sigam respeitosos com Sogyal Rinpoche porque estão seguindo os costumes tibetanos.”

E se eu tivesse levantado estes questionamentos? Algum dos alunos que agora está sendo tão crítico teria me ouvido? Não estou falando apenas sobre Sogyal Rinpoche aqui. E se eu levantasse questionamentos do mesmo tipo sobre todos os lamas, rinpoches e khenpos de hoje em dia?

O carma muitas vezes ignora a análise e pula as advertências. E, é claro, as conexões cármicas e os débitos cármicos estão sempre acontecendo, incluindo nisso a contínua má interpretação de sinais culturais sutis – por exemplo, toda vez que os tibetanos pensam uns sobre os outros, os tibetanos seguem sempre publicamente respeitosos uns com os outros, o que muitos ocidentais interpretam como confirmação de terem grande consideração mútua.

Os tibetanos e os butaneses – e eu mesmo sou um híbrido tibetano-butanês – estão totalmente marinados em incontáveis hábitos culturais. Eu preciso admitir que é bem frequente que estes hábitos interfiram e criem obstáculos quando se trata de falar franca e honestamente sobre questões importantes deste tipo. Pessoas como eu sempre achamos que devemos nos portar de forma humilde, e muitas vezes confundimos ser humildes com não ser diretos. Ainda assim, o hábito da humildade tem sem lugar, e pode, por exemplo, prevenir discussões desnecessárias. Pessoalmente, eu ainda preferiria este enfoque, em parte por hábito, e em parte para não entrar em complicação – e como seres humanos, a maioria de nós deseja evitar a complicação, caso seja possível.

Claro, os lamas muitas vezes não dizem certas coisas abertamente porque suas palavras já foram muitas vezes mal citadas, mal noticiadas, e cortadas e editadas para significar outra coisa totalmente diferente – a fala dos lamas é muito frequentemente deturpada de todas as formas. Então, conseguir dizer o que eles realmente pensam pode ser problemático.

Basicamente, como já disse, advertir pessoas sobre como escolher seu guru é uma das coisas mais difíceis que um lama pode fazer. Porém, caso evitemos advertir abertamente os alunos, como seremos capazes de evitar consequências?

Tempos Diferentes, Desafios Diferentes

Recebi abhishekas de cerca de trinta lamas, mas não posso afirmar ter analisado adequadamente todos eles. Para ser totalmente honesto, sou um desses tibetanos que apenas se joga nas iniciações sem realmente dispor o devido tempo, ou algum tempo, para examinar o preceptor. Ainda assim, antes de receber uma iniciação ou ensinamento de um lama, eu geralmente lembro de usar meu bom senso.

Um método que se pode usar para escolher de que lamas receber iniciações é muito similar ao que se usa para, por exemplo, descobrir onde se come bom macarrão na Itália. Assumimos que os locais onde os italianos comem são bons, uma vez que os italianos entendem de macarrão. Já evitei receber ensinamentos de certos lamas me baseando neste princípio de bom senso.

Orgyen Tobgyal Rinpoche certa vez me disse que quando Kyabje Dilgo Khyentse Rinpoche visitou a França pela primeira vez, quase ninguém foi a seus ensinamentos, mas tão logo era anunciado que Sogyal Rinpoche ensinaria, todos queriam ir ouvi-lo. Claro, entendo porque as pessoas se amontoavam para ouvir Sogyal Rinpoche: ele fala inglês e é engraçado, e assim os alunos se identificam com ele – se sentem conectados. Como seres humanos, tendemos a optar pelo que é acessível sempre que possível, e então este também pode ser um fator.

Tenho que dizer que nenhum dos gurus de quem recebi iniciações e ensinamentos jamais me abusou financeiramente, sexualmente, fisicamente ou emocionalmente. Porém também tenho que admitir que assumi que eles jamais fariam uma coisa dessas – o que é equivocado de minha parte. Uma vez que decidimos tomar um professor como guru, não devemos manter nenhuma presunção com relação a se ele vai nos tratar bem ou mal, porque o ponto é ter coragem de se render completamente antes de embarcar na jornada completamente desconhecida e imprevisível do vajrayana. E, como aluno do vajrayana, gostaria de aspirar que em vidas futuras eu seja realmente capaz de manter percepção pura quanto a meu guru, e ter a capacidade de fazer o que quer que ele me peça, sem questionamentos.

Porém, o método de bom senso para escolher um guru de que falei, usando o exemplo do macarrão, tem suas limitações. Tenho certeza que muitas pessoas acabam com um determinado guru porque ele ou ela por acaso é aluno de um grande mestre, ou porque ele ou ela apareceu em situação pública ao lado de muitos outros grandes gurus, que pareciam lhe demonstrar afeto e respeito. Minha própria experiência mostra que essa abordagem nem sempre funciona.

Kyabje Dilgo Khyentse Rinpoche venerava e respeitava tanto Jamyang Khyentse Chökyi Lodrö, Shechen Gyaltsab e Khandro Tsering Chödrön que qualquer um que estivesse ligado a eles se tornava igualmente precioso para ele – mesmo seus cachorros. Eu não conseguia ver muita grandiosidade em várias das pessoas por quem Kyabje Dilgo Khyentse Rinpoche demonstrava um afeto enorme desse tipo. Quando mencionei como me sentia para meu tutor pessoal, ele respondeu que Kyabje Dilgo Khyentse Rinpoche tinha percepção pura de tudo e todos, especialmente daqueles conectados com seu guru. E então ele me repreendeu, “Isto é algo que você precisa aprender”. Agora reconheço quanto este conselho me foi inestimável.

Em resumo, para aqueles entre nós que estamos começando uma jornada espiritual, julgar o guru pelo CV dele, e pelos mestres ilustres que ele conheceu, nem sempre é um método confiável. De fato, neste caminho a própria existência de um CV desse tipo é suspeita. Naropa não foi atrás de Tilopa porque ele tinha um grande CV. Pelo contrário, Naropa teve que descobrir quem era Tilopa. Ninguém conhecia Tilopa, porque ele era apenas um pescador comum, e assim o descobrir foi extremamente difícil.

Pesos e Contrapesos

Instituir pesos e contrapesos ou prestação de contas no mundo espiritual não é fácil. Como o próprio Buda disse, uns milênios antes ser reconhecido na constituição estadunidense, nenhum sistema é perfeito. O budismo é, ainda assim, um sistema, mas um sistema que não acredita em sistema; e seus pesos e contrapesos definitivos são as causas e condições cármicas. O budismo também reconhece que apenas um ser iluminado pode dizer se outra pessoa é perfeita ou não.

Alguns de vocês atualmente estão tentando fazer tudo que o que podem para garantir que lamas que se portam mal não deixem de ser punidos. Sua motivação pode mesmo ser boa: pode ser que vocês queiram poupar mais pessoas inocentes do sofrimento causado por esse tipo de comportamento ruim, e talvez vocês não queiram ver mais ninguém ser afastado do darma por causa dele.

Meus sentimentos pessoais são de que, nos dias de hoje, há muitos poucos seres humanos moralmente decentes, compassivos, bondosos, zelosos e não corrompidos neste mundo – o tipo de pessoa por quem sentimos admiração imediata ao conhecer. E, na medida em que a mentalidade de “cada um por si” cresce a cada dia, os poucos seres humanos decentes que sobraram neste planeta estão desaparecendo rapidamente. Quem sabe o expor dos defeitos das pessoas publicamente desta forma, nas mídias sociais e por todo lado, ajude a fazer com que os outros sintam medo de agir errado? Talvez seja esse o melhor que possamos fazer hoje, nesta era degenerada. Pelo menos alguns lamas, especialmente a geração mais jovem, está recebendo uma mensagem muito poderosa de que não vai se safar com esse tipo de comportamento. Então num momento em que o poder e o prestígio são tão intoxicantes que alguns lamas se consideram intocáveis e esquecem que podem mesmo ser responsabilizados, talvez algo assim seja necessário? Mas realmente não creio que envergonhar publicamente, ou punir legalmente, seja a resposta, ou que vá de fato resolver o problema todo.

Muitas pessoas parecem estar tão desiludidas com essa situação atual que acreditam que chegamos a um ponto de transição, que significa o início do declínio final e o desaparecimento do Darma do Buda. Tristemente, alguns alunos podem mesmo estar tão desiludidos que para eles não há volta.

Temo que não há dúvida alguma: o budismo está em declínio neste mundo. Estou certo de que as desconfianças que as pessoas têm sobre as principais figuras no Darma do Buda – tais como os Rinpoches tibetanos, que devem ter um interesse ostensivo pela sobrevivência do budismo – são uma das razões pelas quais tantos se sentem desencorajados.

Enquanto que o budismo sempre encarou obstáculos externos – tais como invasões, conversão forçada ao Islã, conversão dissimulada pelo cristianismo, assimilação condescendente pelo hinduísmo, e assim por diante – seu principal obstáculo é interno, e surge de atitudes sectárias. Neste momento a maioria de nós nem está nem bem ciente disso, ainda que seja uma das maiores ameaças que o budismo está enfrentando.

Há muitos fatores contribuindo para a degeneração do Darma do Buda. Sob a égide da objetividade racional, contra a superstição, e mascarados por um progressivismo supostamente não dogmático, hoje em dia muitas pessoas na elite americana e europeia promovem uma versão do budismo totalmente destituída de reencarnação. Esta campanha tem o potencial de destruir o budismo de forma muito mais certeira do que qualquer um de seus escândalos internos. Afinal de contas, o escândalo atual é apenas sobre uma pessoa, enquanto que a tendência perniciosa e aparentemente contagiosa de deturpar o Darma – que está sendo perpetuada por muitos, e afeta a tantos outros – está se espalhando tão rápido que se torna muito mais traiçoeira e destrutiva.

Além disso, há um enorme grupo de “professores de estilo de vida” “respeitáveis” que sem remorso algum plagiam e selecionam como lhes convém ideias budistas. Eles vendem suas abordagens como “mindfulness” e “ética secular”, mas cuidadosamente evitam quaisquer termos, expressões ou jargão que soe remotamente religioso, sob o pretexto de tornar as ideias do Buda acessíveis para as pessoas modernas. A eles falta a decência de sequer reconhecer o autor original das ideias e práticas que comercializam, e muitas vezes, pelo contrário, eles até tentam insinuar, ou mesmo descaradamente afirmam, as terem descoberto sozinhos. Para mim isto é roubo, pura e simplesmente. Achava que ocidentais, que valorizam tanto noções de propriedade intelectual, e que têm países que fazem cumprir legislações de direitos autorais tão estritas para a proteção de escritores e instituições, se comportariam melhor.

Ainda mais perigosos do que estes são os gurus autoproclamados que usam a mindfulness e outras práticas budistas para transformar a essência do caminho budista em técnicas para aumentar o amor pelo samsara. Ao fazer isto, eles destroem completamente a finalidade inteira do Darma do Buda, que é liberar os seres dos samsara. Se esta perversão dos ensinamentos não é demoníaca – “o diabo encarnado”, como dizem os cristãos – o que mais pode ser?

No outro extremo, o budismo também está sendo enfraquecido pela tendência predominante no Sikkim, Nepal e Butão para preservar a dita “cultura preciosa” e a “tradição milenar” a qualquer custo. No esforço em embalsamar as próprias tradições, eles acabam efetivamente se apropriando do budismo e dele retirando qualquer sentido e relevância para a era moderna.

A má conduta de Sogyal Rinpoche pode ser sua ruína, e, infelizmente, pode ser a ruína de alguns de seus alunos. Mas estas outras tendências muito mais destrutivas para o Darma do Buda tem o poder de afetar milhões, e efetivamente destruirão o budismo de uma forma muito mais completa do que este escândalo pontual. Francamente, são até mesmo mais letais do que o extermínio ao Darma do Buda produzido pela Revolução Cultural e por outras forças externas.

E agora?

A situação atual é difícil e infeliz, não há dúvida com relação a isto. Mas ao mesmo tempo, não é nada novo. Ao longo da história budista muitos escândalos deste tipo eclodiram – alguns deles foram muito piores. Acho que esta situação atual está nos fornecendo uma oportunidade de mostrar o quanto somos resistentes. Também é nossa chance de olhar para o budismo de uma forma mais panorâmica, sem se fixar apenas numa parte pequena dele.

Para os seguidores do Buda, particularmente os alunos vajrayana, e especialmente os alunos de Sogyal Rinpoche, e para aqueles que estão fazendo perguntas muito difíceis, minha crença firme é que a discussão atual sobre como se portam os gurus está enraizada num desejo sincero de resolver as coisas e de ajudar a sanga Rigpa e o mundo budista em geral. Este é o aspecto positivo desse tipo de questionamento que vemos hoje, e é um aspecto que realmente precisa ser reconhecido e apreciado.

Gostemos disto ou não, como membros da sanga budista mais ampla, e especificamente como irmãos e irmãs vajra, criamos entre nós um laço que é muito mais importante do que a família. Porém, em nossos relacionamentos próximos como seres humanos muitas vezes sofremos devido a problemas de comunicação. Qual é o antidoto para problemas de comunicação? Comunicação! Então agora é a hora de limpar um o espaço para que a comunicação verdadeira e honesta possa ocorrer. De fato, já vi várias cartas e posts online feitos por pessoas que estão fazendo um grande esforço em encontrar uma boa solução.

Acima de tudo, porém, precisamos ter um olhar panorâmico – isto é o mais importante. Precisamos não degredar a sanga Rigpa, ou qualquer um de seus membros individuais. Também é vital lembrar e reconhecer quanta bondade Sogyal Rinpoche trouxe para a Europa e para a América. O fato de que ele apresentou tantas pessoas a professores tão verdadeiramente magníficos por si só é uma contribuição inestimável ao Darma, uma vez que estes mestres extraordinários não eram apenas professores autênticos do darma, mas também alguns dos mais espetaculares seres vivos do século.

No final das contas, eu diria que Sogyal Rinpoche contribuiu com muito mais beneficio para este mundo e para o Darma do Buda do que causou dano. Precisamos lembrar-nos disto. É muito fácil ver essa situação de forma simplista, e então assumir um lado e formar uma gangue contra aqueles que têm visões opostas – especialmente quando a devoção está envolvida nisso.

Com relação a mim mesmo, o que tem acontecido recentemente entre os membros da sangha Rigpa realmente aumentou muito minha apreciação por muitos dos alunos da Rigpa – aqueles que alguns podem rotular de bajuladores cegos. Eu mesmo conheço muitos que são diligentes, gentis, dispostos a aprender, e que realmente se importam com a continuidade do Darma do Buda e da linhagem – o que é raro neste mundo. Nos dias de hoje, o fato de alguém sequer tentar praticar percepção pura e manter devoção por seu professor e pelos ensinamentos é realmente admirável. É tão encorajador ver tantos praticantes ocidentais de primeira ou segunda geração se dedicando à prática budista deste modo. Enquanto que é tentador permanecer inteiramente focados inteiramente no escândalo e na desgraça, o que deveríamos realmente tentar fazer é ver tudo com uma lente muito maior e mais positiva. Até onde pude perceber, a maioria dos alunos da Rigpa reconhece que há algo de incrivelmente bom nos ensinamentos que receberam, e em sua linhagem. E de todos os alunos vajrayana ocidentais que conheci, os da Rigpa estão entre os melhores e mais humildes.

Os tibetanos também precisam reconhecer que estes ocidentais, ao contrário deles mesmos, nasceram e cresceram em países que não tinham nenhuma forma de influência do Darma. Ainda assim, muitos destes alunos ocidentais se esforçaram muito para encontrar os ensinamentos budistas. Sem quaisquer raízes históricas budistas, e absolutamente sem nenhuma cultura budista em seus países de nascimento, eles ainda assim tentaram fazer tudo que os tibetanos, seus professores, lhes pediram. Eles sempre tentaram fazer o melhor. Muitos até mesmo fizeram coisas como transformar suas salas de estar em pequenos espaços de reunião onde as pessoas podem praticar. E a maioria deles não é rica – muitos mal conseguem pagar as contas.

Nesta era extrema, fanática, em que tantos estão perdidos e desesperadamente procuram dar algum sentido a suas vidas, a busca destes ocidentais pelo Darma é significativa e merece os mais generosos louvores. Este é o caso especialmente num momento em que tantas pessoas no mundo voluntariamente escolhem seguir as visões e caminhos mais extremos, visões e caminhos que glorificam machucar a si próprios e aos outros. Ainda assim, nossa sociedade intelectual, supostamente progressista e liberal tenta tanto justificar este tipo de perspectiva e ação extremistas. Alguns até rotulam esta posição como “moderada”, atribuindo a culpa da violência a algumas exceções, sem reconhecer que é a visão e o caminho que estão equivocados.

Eu chegaria a dizer que parece haver uma tendência entre progressistas e intelectuais – todos os que se orgulham em ser objetivos e amam criticar – em descobrir defeitos em coisas que são obviamente boas, e encontrar algo bom em coisas que são obviamente muito ruins. Como resultado disso, colocam tremendos tempo e energia em zombar de um caminho baseado em amor e compaixão, que virtualmente não tem histórico de violência, e que ensina a mais profunda sabedoria da originação dependente. E colocam ainda mais tempo e energia em justificar um caminho que glorifica violência e dualismo.

O agitação atual causada pelas críticas tão públicas a Sogyal Rinpoche é perturbadora para muitos praticantes budistas genuínos, especialmente agora que a mídia ocidental está se apropriando dela com tanto entusiasmo. Suspeito que muitos progressistas, ateístas, e boa parte da mídia ocidental ficaria deleitada caso notícias de um homem-bomba jainista chegassem nesse momento às manchetes: isso provaria seu ponto de que todas as religiões têm um lado negro, e fomentam extremistas. Como não se sentir desencorajado quando o maior jornal diário alemão, o Süddeutsche Zeitung, com um público diário de mais de um milhão de leitores, publica um artigo de capa sobre o escândalo de Sogyal Rinpoche sob uma sessão encabeçada “Budismo”, e intitulada “Abuso”. Imagine o clamor caso a imprensa ocidental publicasse cada notícia sobre bomba ou massacre muçulmanos com o título “Islã!”

Assim, nesta era hipócrita, os seguidores do Buda precisam ser mais corajosos e valentes do que nunca. Num momento em que não há quase apoio ou encorajamento para aqueles que seguem um caminho genuíno, e quando a dúvida é semeada a cada curva na estrada, é mais importante do que nunca que nós – como praticantes individuais e sanghas – não nos deixemos engolir pelo escândalo e por conflitos faccionários. Numa era em que visões errôneas e ações homicidas não só predominam, mas são celebradas e até mesmo justificadas por intelectuais progressistas respeitados, precisamos redobrar nossos esforços para estudar a visão autêntica do Darma do Buda. Ao nos focarmos no panorama mais amplo, e no futuro de longo prazo do budismo, esta crise atual pode muito bem ser uma oportunidade perfeita para que renovemos, pelo bem de todos os seres que sofrem, o nosso compromisso e dedicação ao estudo e prática do caminho autêntico para a iluminação ensinado pelo Buda.

* Em 14 de julho, uma carta detalhada assinada por oito membros seniores desligados da Rigpa, uma rede internacional de centros budistas fundada por Sogyal Rinpoche, circulou entre membros da organização, e logo veio a público. Endereçada diretamente a Sogyal Rinpoche, a carta descreve vários abusos alegadamente cometidos pelo fundador da Rigpa, juntamente com pedidos para uma grande mudança dentro da comunidade.

* Em respeito a seu desejo de que suas visões sejam adequadamente entendidas em contexto, sem edições, a declaração de Dzongsar Khyentse Rinpoche está reproduzida acima de forma integral. Esta tradução, feita por Padma Dorje, foi patrocinada pela Lúcida Letra, Gustavo Gitti e Marcos Bauch, sem aprovação expressa de Rinpoche ou de sua organização no Brasil, como um esforço de mídia independente.

* FONTE: Blog da Editora Lúcida Letra 

terça-feira, 15 de agosto de 2017

Guru e Estudante no Vajrayana


Guru and Student in the Vajrayana
by Dzongsar Jamyang Khyentse

I have written the following in response to a number of requests, including some from the press, for my take on the present situation in the Rigpa Sangha over Sogyal Rinpoche’s behaviour.
I have not responded to any of the questions put to me by the press before now, because what I want to say can’t be edited or altered in anyway. Unfortunately, journalists always cut up texts, then pick and choose the bits and pieces that fit in with their own preconceived ideas. If you don’t believe me, just spend five minutes looking at CNN, Fox News, al-Jazeera, The New York Times, The Guardian newspaper or Breitbart News Network. You’ll soon see what the nature of ‘freedom of speech’ is like in our modern society. Sadly, most ‘Buddhist’ magazines and bulletins are no different.
So here’s what I want to say, uncut and unedited. Please summon up all your patience and read the whole thing from beginning to end; this text is meant to be read all the way through, not in bits.
First, though, I feel I must point out that what I want to say concerns the relationship between a guru and a student that is specific to the Vajrayana. As this kind of guru-student relationship is a Vajrayana phenomenon, I wish I could say that if you are not a Vajrayana student, you don’t need to worry or care about any of what follows. But I can’t. Why? Because like it or not, the Vajrayana is associated with Buddhism, and so in the process of addressing a Vajrayana situation, I can’t avoid talking about Buddhism and its future.
Having said that, I’m sure that the Theravada and Mahayana Buddhists who have been dragged into this public debate by mere association, must be pulling their hair out with frustration. I empathize; if I were in your shoes, I would feel the same.
But there is one thing we must all be clear about. There is a clear difference between Sogyal Rinpoche’s role as a Vajrayana master and his role as a very public Buddhist teacher and head of a non-profit organization. Vajrayana masters are not necessarily public figures. Many aren’t even known to be Buddhist teachers – in the past, some Vajrayana masters earned their livings as prostitutes and fishermen. But unlike the teacher-student relationship in other traditions, in the Vajrayana, the connection between the guru and the student is sometimes more personal and constant than family.
More often than not, the opposite is true for teachers who present Buddhism more generally. These teachers are often public figures. In many cases, they have a many followers, and they and their teachings are widely available. They may also be at the helm of any number of monasteries or non-profit organizations.
So ‘Vajrayana guru’ and ‘Buddhist teacher’ are, in fact, totally different roles – even when both roles are fulfilled by one person. What I want to discuss here is the role of Vajrayana master generally and Sogyal Rinpoche’s role as Vajrayana master in particular, not Sogyal Rinpoche’s role as spiritual director of Rigpa and public Buddhist teacher.
This distinction is important because many Buddhists students are wondering how to explain this kind of scandal to their friends and loved ones. How can you talk about it with your little sister who goes to a Christian high school? Or to your new non-Buddhist boyfriend, who you really want to impress but who already thinks your eagerness to do anything this guru asks of you is really strange. So this is an issue that should be contemplated and addressed separately, especially in light of the increased media coverage Sogyal Rinpoche’s behaviour is bound to elicit.
None of what I have to say here about the Vajrayana in particular is easy to explain. In fact, I am a bit concerned that I might end up raising more questions than answers. And I’m also sure that my words will be misinterpreted. But I have decided to try to write this piece anyway, because there are many genuine Vajrayana practitioners out there who are struggling with how to view the present situation and who might want to consider the issues I wish to raise.

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The Guru-Disciple Relationship

Nalanda University in India was one of the oldest universities in the world. It was at Nalanda that one thousand four hundred years ago, scholars confirmed that there is no such thing as an atom, or a ‘smallest particle’, or a god that inherently exists; and these scholars would have laughed heartily at today’s theories about the Big Bang and democracy. My point here is that at Nalanda University there was absolutely no room for sentiment or blind devotion or blind belief.
Naropa was Dean of that great university. His scholarly achievements were remarkable, but left him unsatisfied. So he relinquished his prestigious position and set out to find a teacher whose wisdom transcended his own great scholarship and all he knew. Eventually, he met Tilopa, a fisherman, and that meeting marked the beginning of an adventurous and highly unpredictable journey.
Among many other inexplicable tasks, Tilopa told Naropa to pinch a princess’s bottom in public and to steal some soup, as the result of which Naropa was badly beaten. Yet Naropa – a fully trained sceptic – wholeheartedly did everything Tilopa asked of him without asking a single question. His reward was the teaching on Mahamudra, which he passed on to his own students, who also passed it on. Over the centuries, Naropa’s lineage of Mahamudra teachings went on to liberate countless human beings.
People who treasure Mahamudra are not stupid; they are neither sycophants, nor are they prone to cultism. Naropa’s Mahamudra lineage has spread far and wide – not just to jobless hippies, dropouts, social misfits and rebels, but to some of the world’s greatest emperors. And the story of how Tilopa taught Naropa has been cited again and again. Not as some kind of legend, but as a teaching and an example – an example that most budding Vajrayana practitioners long to emulate.
Naropa’s Mahamudra lineage continues to the present day thanks to great Mahamudra merchants from the Far East, like Chogyam Trungpa Rinpoche, who even transported it to the wild west of America.
More than thirty years ago, Trungpa Rinpoche commanded his students, including successful lawyers and dentists from Boulder, Colorado, to move to the gloomiest place on the planet: Halifax, Nova Scotia. And they did. In modern times, such a command is the equivalent of ordering Naropa to steal soup. Amazingly, decades after Trungpa Rinpoche’s passing, those obedient dentists and lawyers are still living in Halifax, and have gone on to spawn a third generation of practitioners.
By the way, if you’re ever surrounded by a few of these practitioners, they’ll talk about the glories of Trungpa Rinpoche until your ears fall off!
This kind of story – from the time of Naropa to Trungpa Rinpoche in the 20th century – exemplifies the guru-disciple relationship on which the Mahamudra transmission entirely depends.

Did Sogyal Rinpoche Do ‘Wrong’?

Recently, it was alleged by some of Sogyal Rinpoche’s students, who also consider themselves to be practitioners in the Vajrayana tradition, that Sogyal Rinpoche regarded abusive behaviour as the ‘skilful means’ of ‘wrathful compassion’ in the tradition of ‘crazy wisdom.’
However you describe Sogyal Rinpoche’s style of teaching, the key point here is that if his students had received a Vajrayana initiation, if at the time they received it they were fully aware that it was a Vajrayana initiation, and if Sogyal Rinpoche had made sure that all the necessary prerequisites has been adhered to and fulfilled, then from the Vajrayana point of view, there is nothing wrong with Sogyal Rinpoche’s subsequent actions. (By the way, ‘initiation’ includes the pointing out instruction which is the highest Vajrayana initiation, known as the fourth abhisheka.)
Frankly, for a student of Sogyal Rinpoche who has consciously received abhisheka and therefore entered or stepped onto the Vajrayana path, to think of labelling Sogyal Rinpoche’s actions as ‘abusive’, or to criticize a Vajrayana master even privately, let alone publicly and in print, or simply to reveal that such methods exist, is a breakage of samaya.
This is not to say, as has been suggested, that tantra provides teachers with a list of ways they can abuse students sexually, emotionally and financially – you will not find such a list in any of the tantras. At the same time, a Vajrayana guru will use anything he can to challenge and go against each individual student’s ego, pride, self-cherishing and dualistic mind, and might well end up telling a sexually voracious, horny man to become a monk.
I’m sorry, but we can’t bend the rules on this point. When both the giver and receiver of a Vajrayana initiation are fully aware and clear about what has happened, they must then both accept that pure perception is the main view and practice on the Vajrayana path. There is no room whatsoever for even a glimmer of an impure perception.
But what is ‘pure perception’? Ultimately, according to the Vajrayana, the practice of pure perception doesn’t mean just seeing the guru as a god, or even as a tantric deity. Although the Vajrayana does famously include techniques for visualizing not only the guru but every being on this planet and in the universe as a deity, the main point of pure perception is to go beyond dualistic perception altogether and realize the union of emptiness and appearance.
To put it simply, pure perception is the highest form of mind training – dag nang byang in Tibetan. Dag means ‘pure’; nang means ‘perception’, and byang means ‘train’ or ‘get used to.’
So, how does pure perception work? As a Vajrayana student, if you look at Sogyal Rinpoche and think he’s overweight, that is an impure perception. To try to correct your impure perception you might then try visualizing him with the body of Tom Cruise, but that is still not pure perception. One of the Vajrayana’s infinite number of skilful methods that are used to deconstruct and dismantle impure perception, is to visualize Sogyal Rinpoche with a horse’s head, a thousand arms and four legs. But even this technique must ultimately be transcended in order fully to realize pure perception.
Basically, while the student’s perception remains impure, the guru they see will be a projection based on their own impure projection, and so it can only ever be imperfect. The only way we can change our impure perception and see the guru as an enlightened being is by training our minds, using the visualization practises provided by the Vajrayana path.
No Vajrayana teaching or qualified Vajrayana teacher would ever expect a student’s perceptions to be completely pure from the moment they step onto the Vajrayana path. This is why the techniques we apply are called ‘training’ – and even the English word ‘training’ implies that mistakes are inevitable. But there’s a very simple way of checking your progress with this practice. In the Vajrayana, you are supposed to see not only the guru but yourself as a deity. So if, having just been taught that you are a deity, you skip lunch and feel hungry, it means your training is not complete. You will only be perfectly trained in pure perception once you have finally actualized the union of appearance and emptiness.
So if a student of Sogyal Rinpoche were to see him floundering in the middle of a lake and based on their impure perception, project onto him the idea that he seems to be drowning, it would probably not be a good idea for that student to think, “Rinpoche is an enlightened being and should be able to walk on water.” A much better thought would be, “This is my impure perception! Rinpoche is manifesting as a drowning man so that I can accumulate the merit of rescuing him.”
As your practise improves, your perception of the guru will no longer be bound or limited by the causes, conditions and effects that once made you think he was drowning. This is the point in your spiritual development when you will truly see the outer guru as the Buddha and will also be able to see your own inner guru.
Until then, when your guru chairs a board meeting and it becomes obvious that he has no clue about an issue, as a prudent member of that board you shouldn’t hesitate to supply him with the information he needs. At the same time, as a Vajrayana student, you must skilfully remind yourself the guru only looks clueless to you because of your own impure perception, and that by appearing to need your assistance the guru is actually giving you the chance to accumulate merit.
We all have habits, and it’s habit that makes impure perception inevitable. The moment we step onto the Vajrayana path, we start breaking ‘samayas’ – which are our commitment to maintaining pure perception. This is why the assumption that all Vajrayana practitioners will make mistakes is built into the Vajrayana path. A practitioner’s path is then to immediately confess, expose and fix any impure perceptions the moment they arise, and to continually aspire to make fewer and fewer mistakes.
This is what is meant by keeping the samaya vows. In fact, Vajrayana practice cannot be separated from keeping samaya. There is no such thing as: “Let’s keep samaya and then practice.”
Ultimately, once we transcend all possibility of making errors or breaching samaya, even thinking that there is something to confess or such a thing as a confessor is a breakage of samaya. In Buddhadharma, not just the Vajrayana, the only way any of us can keep all the samayas, is by fully realizing a perfect understanding of shunyata.
If an impure perception – such as criticism of one’s guru – is made deliberately and consciously, and if it then goes on to become a well-organized, choreographed public discussion with no room for amendment or correction, it constitutes a total breakage of samaya.
Once an initiation has been given and received, neither the guru nor the student can continue to analyze each other – the guru cannot analyze the student and the student cannot analyze the guru. Having given someone an initiation, no matter how irritating, stubborn, neurotic or even criminal they may be, the guru must accept that person as his student and look after him or her as if they were his own child – even more so, actually. I know that many of you don’t want to hear it, but this is the Vajrayana view and this is what is taught in all the tantras.
It’s a big mistake to speculate about the possibility of continuing to analyze and criticize the guru after having received a major initiation – actually it’s totally wrong. We cannot modify Vajrayana’s fundamental view just because it doesn’t suit the minds of a few liberal, puritanical, Abrahamic, or individualistic activists.
If you find this view doesn’t suit you, but you still want to follow the Buddha’s path, you can always try the Mahayana and Sravakayana paths instead. If neither of those paths work for you – if you are uncomfortable with the non-dual groundlessness of Buddhism – you might just as well follow one of the Abrahamic religions. These are the religions that follow a clearly grounded dualistic path and say things like “don’t eat pork, do eat fish, and women must wear burqas”. If the label ‘religion’ is altogether too embarrassing for your elitist so-called progressive minds, you might try some kind of quasi-atheistic secularism, coated with moralistic ethics and bloated with dogmatic liberal self-righteousness. Or you could blindly allow yourself to be swallowed up by existentialist angst, then get annoyed with those who get blissed out on hope.
And yet, there may be some among you who long for tantric teachings because you quickly want to gain all the spiritual accomplishments you can, but without suffering any of the pain; or because you’re the kind of person who has a strong sense of entitlement and love to bypass preliminary practices. Or you might be very smart and want to follow the simplest path that gets the quickest results, so you might try outwitting the system by cutting corners to get at the highest Dzogchen and Mahamudra teachings more quickly. Or you might be one of those who whine bitterly when the guru says it’s not the right time to give such teachings and then apply intense emotional blackmail to get what you want. If you fall into any of these categories, the all-or-nothing guru-disciple relationship is what you will get. I’m sorry, but that’s the way it is and there’s nothing I can do about it.
We can’t change the Vajrayana view or invent some ‘moderate’ version of Vajrayana Buddhism just to suit the 21st century western mind-set. If we did, it would be like saying that in these modern times, we should say that certain compounded phenomena are permanent and some phenomena do exist inherently – but we can’t do that either. The view is fundamental to Buddhadharma and therefore to the Vajrayana path.
In Buddhism, the general idea is that we train our minds to actualize non-duality. Tantra offers us the most profound way of achieving that non-duality through the practice of pure perception; and in the Vajrayana we essentialize that practice by maintaining a pure perception of the guru.
Ultimately, as Vajrayana practitioners, we must apply pure perception to everyone and everything without exception, which means we must also apply it to Donald Trump and even Hitler. But we will only manage to achieve a pure perception of everyone and everything if we can first maintain a pure perception of our guru. If you try to retain the option of questioning, criticizing and analyzing – in other words if you retain some kind of selective impure perception as an insurance policy that allows you to question your very path – then how will you achieve the cessation of the dualistic mind? How will ‘one taste’ be actualized? How will you realize the union of samsara and nirvana?
One of Buddhism’s fundamental practices is that of working with our own projections. It’s a practice that is particularly emphasized in the Vajrayana. I know many of you will roll your eyes and accuse me of copping out when I say this, but everything Sogyal Rinpoche’s critical students are accusing him of is based on their projection. I know it’s hard to accept, I know it seems very real, but even so, it is a projection.
The bottom line here is: if both student and guru are consciously aware of Vajrayana theory and practice, I can’t see anything wrong in what Sogyal Rinpoche then does to his so-called Vajrayana students – especially those who have been with him for many years. Those students stepped onto the Vajrayana path voluntarily; it’s a journey that they chose to make. At least, I assume they did.
Do aspects of this journey go against commonly-accepted laws? Possibly. Do they contradict the way 21st century modern human beings usually think? Yes. From a worldly point of view, much of the Vajrayana seems unthinkable, perhaps even criminal. If Tilopa were alive today, he would have been locked up long ago. Come to think of it, which western country or culture would actually brag in its great literature about Marpa beating up Milarepa? Yet the Tibetans celebrate this story, holding it up as one of the most glorious examples of a true guru-disciple relationship.
I also assume that these critical close students of Sogyal Rinpoche didn’t originally go to him for advice about how to achieve worldly success or for therapy, but to find out how to transcend this ordinary world – which necessarily involves going beyond all kinds of worldly values like morality, the rule of law, accountability, transparency and so on. You can’t leave one foot firmly grounded in your worldly comfort zones and ambitions, then expect to be able to transcend them.
This is the very reason the Vajrayana is said to be exclusively for disciples of ‘superior faculties’ – which in this context, has nothing to do with being clever enough to qualify for a Rhodes scholarship or graduate from Stanford. A person with ‘superior faculties’ is totally disgusted with the dualism of samsara and nirvana, repulsed by ideas of fundamentalism and moderation, revolted by anarchism and morality, and single-minded and sincere in their devotion to the transcendence of duality. And this is why students are given so many warnings before they receive Vajrayana teachings.
Were Sogyal Rinpoche’s Students Warned? Were the Necessary Foundations for Entry into the Vajrayana Laid?
Anyone with even a modicum of common sense knows that a warning must come before, not after the event. So it’s a Vajrayana master’s duty to warn aspiring students repeatedly and in advance about what they are letting themselves in for. Students must be warned about what they are about to undertake – the full picture, not just the highlights.
If Sogyal Rinpoche had given these warnings, if he had laid proper foundations by teaching the fundamentals of Buddhism, if he had made sure his students had established a strong foundation through study and practice, and if he had told them before they received initiation and teaching about the nature of the Vajrayana path and the consequences they would face if they broke samaya, the chances are that this current situation would never have arisen.
But I suspect that’s not quite what happened. What are my suspicions based on? Partly my knowledge of Tibetan teaching habits, and also what little I know of Sogyal Rinpoche’s teaching methods.
First of all, many Tibetan teachers are still in the habit of teaching non-Tibetans as if they were Tibetan. In Tibet, the Vajrayana wasn’t taught nearly as secretly as it was in India, where the necessity for maintaining absolute secrecy about the nature of the teachings and even the identity of the teacher was emphasized again and again. Even initiations were given in secret, often in uninhabitable places like cemeteries and mountain tops. This is quite the opposite of how Tibetan lamas – who usually sit on huge thrones in front of thousands of people – give initiations.
In India, our tantric predecessors were already extremely well-informed – Naropa, for example, knew exactly what he was getting himself into. That was not the case in most of Tibetan Buddhist history.
It’s ironic that today’s western students are so eager to emulate the Tibetan way of doing things – habits which, by and large, really aren’t worth cherishing. Two millennia before the European Renaissance brought a new culture of inquiry and investigation into the modern world, the Buddha had already pointed out and emphasized the vital part analysis plays in the discovery of the nature of reality. More than two millennia before the downfall of authoritarianism in the west, the Buddha taught, “You are your own master. No one else is your master.” Neither of these pieces of advice has ever been taken seriously in Tibet. Not taking such teachings seriously is a very bad habit and certainly nothing to be proud of.
Tibetan lamas often use tantric rituals as part of local public events, which means that Vajrayana initiations take place alongside flag hoisting and ribbon cutting. This use of tantra was unheard of among the Tibetans’ Buddhist predecessors in India, where not even a trace of sacred Vajrayana transmission or ritual could be seen before, during or after its discrete performance. Tibetan lamas also openly boast about their gurus, as if they are unveiling a commemorative plaque. But I would be extremely surprised to learn that Naropa put any effort at all into building up his CV, or that he ever announced publicly that his tantric guru was Tilopa.
It might be possible to give Vajrayana initiations and teachings openly and publicly in places where the initiates are completely devoted, largely illiterate and have no academic training or custom of analysis. But it’s difficult to find that kind of person in a world that’s full to overflowing with smart-arses. So nowadays, when Tibetan lamas apply their habit of openly giving Vajrayana teachings to non-Tibetans – particularly westerners – but forget that they are presenting these disciplines to people who read The New York Times, are groomed in critical thinking, trained to cherish analysis and contemplation, and applauded for rebelling against convention, isn’t it inevitable that things fall apart?
In stark contrast to the characteristics that mark out modern western Dharma students, the majority of Tibetan disciples were culturally obliged to receive initiations and teachings as part of their traditional life. Very few Tibetans approached the Vajrayana with any thought of applying the proper, recommended analysis, and instead relied on blind devotion. To this day, many of us Tibetan lamas, not just Sogyal Rinpoche, stick closely to our traditional habits and therefore devote very little time to giving students the appropriate warnings and laying the necessary foundations prior to giving initiations and teachings.
I know a little about Sogyal Rinpoche because I have visited several Rigpa centres and have witnessed the Rigpa set-up first hand. To be frank, I didn’t see enough evidence to convince me that the appropriate warnings had been given, or that adequate foundations had been laid, or that the fundamental teachings were properly given. On several occasions it seemed to me that some of the students had been Christians until perhaps the day before they attended the teaching, then suddenly, 24-hours later, they were hearing about guru devotion, receiving pointing out instructions and practising Guru Yoga – it was as extreme as that.
If that’s how it happened – if no proper warnings and no fundamental training were given prior to the Vajrayana teachings¬ ¬– then Sogyal Rinpoche is even more in the wrong than his critical students. Why? Because it is his responsibility to prepare the ground in accordance with the Vajrayana’s prescribed and well-established foundation teachings and practice. There is no question that the person with the greater knowledge, power and therefore responsibility is also more culpable when those obligations are not fulfilled.

How Western Students Respond

But there are things about all this that puzzle me. The students criticizing Sogyal Rinpoche seem to be highly intelligent. Why, then, weren’t they smart enough to examine and analyze the teacher before signing up? How did they allow themselves to get so carried away by the Rigpa experience, those glossy, well-crafted pamphlets and all the other hoo-ha? And I really don’t understand why they waited ten or even thirty years before saying anything? How come they didn’t see all these problems in the first or second year of their relationship with Sogyal Rinpoche?
I should also say that my puzzlement is mixed with sympathy, because we human beings are not only subject to our intellects, we get stirred up by our feelings. I can only speculate, but perhaps these students were moved and even awed by everything they encountered at Rigpa? Perhaps the glossy pamphlets, the incense, thrones and chanting did their job? And of course, Rigpa has hosted many very highly respected, illustrious lamas, including the highest of them all, which must have cemented the veneration and respect these students felt not only for the whole tradition, but for Sogyal Rinpoche himself. As a result of the unexpected eruption of pious feelings they then experienced, there must have been very little room left in their minds for further analysis, because emotionally they just wanted to ‘jump!’ From what I have seen in Rigpa, this may well have been what happened.
Alas, karma does also seem to play a role in all this, doesn’t it? And now that I’ve brought up karma, I’m sure some of you will accuse me falling back on another cop-out. Nevertheless, the reality is that falling for glossy advertising and Tibetan paraphernalia, feeling inspired and touched by Tibetan exoticism and the endangered Tibetan species, and everything else that pops into our minds, all arise from the causes and conditions that are the essence of karma.
That’s the way it is and all I can do is encourage each one of us to accumulate more good karma so that we won’t be faced with this kind of situation again in our lifetimes. Feelings are karmic. And I am afraid this situation won’t be settled until that karma is exhausted.
If a Vajrayana Teacher and Student Fall Out, What are the Consequences?
If the teacher and student have reached a genuine understanding about the path being practised, and if all the necessary and appropriate foundations have been laid and a clear idea of possible consequences conveyed, but the student still has a wrong view and acts on it by slandering and criticizing the teacher, then, according to tantra, that student will face grave and unimaginable consequences.
But the same also applies to the teacher. In fact, if the teacher hasn’t laid the proper foundations, if the teacher takes advantage of a student physically, emotionally or financially, and if the teacher gives the highest yoga tantric teachings to those who have not established a proper foundation and as a result an immature student breaks the most fundamental root samayas, then the teacher will also suffer extremely grave consequences – consequences even more serious and terrible than those faced by the student.
If the proper foundations have been laid, but the guru’s actions – physical, verbal, emotional etc. – do not bring the student a centimetre closer to enlightenment, and if the teacher’s actions are aimed at personal gain, sex, money, power or selfish indulgence, it’s clear he doesn’t know what he’s doing. He is therefore obviously not a great Vajrayana master, let alone a mahasiddha. And he will therefore experience extremely grave consequences.
When I say ‘grave consequences’, I don’t mean exposure in social media, or having his image ruined by scandal, or even that he is arrested and imprisoned. That’s nothing! The consequences for the teacher are far worse than mere worldly humiliation: he would end up in vajra hell. What is vajra hell? It isn’t merely being boiled in molten iron or fried by hell guardians – which actually sound quite comfortable by comparison. The unbearably awful characteristic of vajra hell is that once you’re there, you will not hear a word about the teachings on cause and condition, dependent arising, shunyata and the rest, for aeons and aeons and aeons. A thousand buddhas might come and go, but in vajra hell, you will hear absolutely nothing about them or their teachings.
If a teacher’s actions ruin the image of the Buddhadharma, or spoil an aspiring student’s appetite for the Dharma, or if the seed of inspiration that leads just one person to follow Buddhadharma is burnt irrevocably, the consequences are so terrible that they are, in fact, inexpressible.
Few people seem to know how difficult it is to be a Vajrayana student, but almost no one knows that it is far more difficult to be a Vajrayana master. I think the widespread woeful ignorance of these consequences is why so many people today fall over themselves to get a job as a guru – even the non-religious secularists. But given the opportunity, these so-called gurus dish out abuse in exactly the same way ordinary people do. If people knew how precarious and dangerous a guru’s job really is, I doubt anyone would want it.
A guru’s very prestige and all the perks he or she appears to enjoy, signify just how much greater the guru’s opportunities to deceive and be deceived are, in comparison with the student’s opportunities. As Patrul Rinpoche stated in The Words of My Perfect Teacher, when a student offers a single penny or makes any kind of effort, however small, to show respect for the teacher – by standing when the teacher enters a room, or bowing to the teacher, or letting the teacher go first – there are consequences; and if the so-called Vajrayana master is not enlightened, he or she is not above the karmic debts these offerings create.
Of course, ideally, a Vajrayana master should be an enlightened being. But the reality is that many Vajrayana masters may not be, yet for reasons that have nothing to do with personal gain, fame and power, they take on that role. Some assume it out of necessity. Or when the teachings need to be upheld or the lineage is at risk of being broken, they accept the role of Vajrayana master out of love for the teachings themselves. Basically, if they find themselves in the position of having no choice but to pass on these precious teachings, then very reluctantly, they become Vajrayana masters.
So an unenlightened master should be under no illusions. He must know in himself that he isn’t enlightened, and he should never deceive himself by claiming that he is. As his student, though, you must see your Vajrayana master as an enlightened being. This is the choice you must make. But doesn’t that contradict the Buddha when he said, “You are your own master. No one else is your master”? No, it doesn’t, because you are the one who is making that choice.
A Vajrayana master is definitely not a mahasiddha if he is affected by scandal, afraid of being publicly shamed and terrified of being thrown into jail. Neither is he a mahasiddha if he worries about losing disciples. A genuine mahasiddha, like Marpa or Tilopa, wouldn’t give a damn about any of that, nor would he give a second thought to being thrown into prison. And a mahasiddha would certainly never feel the need to apologize for any of his actions, because everything he does is done out of compassion.
On the other hand, if your Vajrayana master is not a mahasiddha and not only beats up his own students but also random people in the street, prefers shit to gourmet food, tears up $100 notes, carries around a suitcase full of footballs or sand, gets equally turned on by a rock and sexy man or woman, talks gibberish, and doesn’t guide you onto a path that has a view, meditation and action, or a ground, path and fruition, then he is simply mad and belongs in a lunatic asylum.
But what if a Vajrayana master is neither a mahasiddha nor mad, what should he do? He should behave ‘decently’.
Whether he’s enlightened or not, a Vajrayana master will have studied many precious, profound teachings and techniques. Now that he’s a teacher, he can share what he’s learned with sincere and devoted students. He knows that by using these teachings and the methods his masters used to teach him, there is every possibility that his disciples will get enlightened before him. So he has very good reason for being decent and for not taking advantage of those who have surrendered everything to him. Whatever his students have sacrificed and offered – time, money, offerings, respect, whatever – he must use it to help them. If he lights one candle and puts it in front of a statue of a Buddha with genuine aspirations for his students’ enlightenment, that will do.
Being decent also means that the Vajrayana master must know his students’ limits – what they can and can’t take. To do that, he simply has to use his common sense and ask himself what his own limits might be. What, for example, wouldn’t he have done even if his own Vajrayana master had told him to do it? If Sogyal Rinpoche’s Vajrayana master had told him to become celibate, would he have?
To always obey the guru’s orders is difficult. Fortunately, none of my Vajrayana masters ever told me to do anything that I would have found impossible to attempt – I’m quite certain they knew that I lacked the capacity to do absolutely anything they asked of me.
At the very least, an unenlightened Vajrayana master must always consider the consequences of his actions. In particular, he should ask himself if his actions might turn people away from the Buddhadharma in general and the Vajrayana in particular. And an unenlightened but decent Vajrayana master must always remind himself to distinguish between the fearlessness of ‘crazy wisdom’ and the stupidity of ‘I will never get caught!’
Lost in Translation: Misreading Cultural Cues
From my own very limited point of view, and after the experience of having western friends for several decades, I would say that only one lama has really understood western culture and acted on it appropriately, Chogyam Trungpa Rinpoche.
Most Tibetan lamas, as I said earlier, teach non-Tibetans in exactly the same way they teach Tibetans. In the process, they try to do the impossible by transforming their western students into Tibetans. Believe it or not, I have met people who genuinely believe that the only way they can study and practice the Dharma is by learning Tibetan, chanting Tibetan-style, saying prayers in Tibetan, and even wearing Tibetan traditional dress.
I’ve also noticed that Tibetan lamas spend a great deal of time teaching their students Tibetan traditions that have nothing at all to do with the Dharma. I wouldn’t be surprised if, by so doing, some lamas have led their western students to believe that it’s only possible to attain enlightenment as a Tibetan.
If Buddhadharma in general and Vajrayana in particular are to be passed on and taught to non-Tibetans, it is so important that there is a proper cultural understanding between teacher and student that allows the genuine Dharma to be transmitted properly and accurately. This is really difficult, but absolutely necessary.
Culture, after all, is a habit, and habits are the fundamental manifestation of ignorance. So it is totally unfair to blame the Vajrayana system when lamas and students don’t follow Vajrayana procedures because they prefer to rely on their cultural assumptions and habits – which I’m afraid most lamas like to do.
The Vajrayana system itself lays out all the necessary procedures very clearly. Almost all major initiations – even the very first of the usual four initiations – are preceded by at least six warnings. These warnings include instructions about the lama showing the vajra, giving the oath water, and more. But how many of us lamas really emphasize these warnings?
When Tibetan lamas give initiations to Tibetans and Bhutanese, most recipients have no clue about what’s going on, and very few even care to know. By and large, Tibetan lamas take for granted that western students have the same attitude. These lamas sometimes give initiations to thousands of students at a time, but too often students don’t know what they received, let alone what the ritual meant, because the Vajrayana’s warnings were simply read out loud and left unexplained.
To be fair, some responsibility must also rest with the western students, who are sometimes more interested in looking and speaking like Tibetans than actually practising the Dharma. If they are Tibetologists, activists who yearn to be the saviours of Tibetan culture, then that’s the way to go – and I assume there might be some benefit in it.
But here we are talking about Buddhadharma, and Buddhadharma is way beyond ‘culture’ and ‘country’. So if you are interested in attaining so-called enlightenment, if you want to be ‘awakened’ and liberated from all defilements and the effects of defilements, then obviously you have to go beyond culture altogether – even the curry-eating, tsampa-chewing and coffee-drinking cultures.
Clear distinctions between Dharma and culture must be made if we are ever to sort out the current confusions – which, as I’ve said, will probably continue for a while longer. Looking at the next generation of lamas and how they are currently manifesting, I must say, I can’t see a glimmer of awareness of this issue amongst any of them.
I’ve been told that Chogyam Trungpa Rinpoche made his students do sitting practice – shamatha – for several years. He also made them study the Sravakayana and Mahayana teachings in detail, putting them through years of preparation before they were granted any Vajrayana initiations or pointing out instructions. Trungpa Rinpoche went so far as to create the Shambhala phenomenon – Shambhala training and sitting practice – to ensure that his students were really well prepared for the Buddhadharma
All the prescribed preparatory procedures are important. Remember, Naropa was already a celebrated scholar and the Dean of Nalanda University before he even tried to find his guru – in other words, he was fully prepared.

Direct Warnings that were Misinterpreted

Another factor that adds to the complexity of the current situation is that however familiar students are with the advice that they should analyze and test the guru before becoming his student – and even when they are given direct warnings – part of being human is that there are some things we simply don’t want to hear, especially when we have been hit by the arrow of inspiration. This means that in practice, on the rare occasions when the proper warnings are given, many people simply don’t listen. Some don’t even hear the words of the warning. For many of us human beings, the skill of being able to listen and actually hear isn’t easy to pick up.
Sadly, warning people of potential danger or trouble can itself end up causing even more problems. Recently, I was very frank with a young woman who was new to the Dharma and suggested that she stay away from a particular young lama because of a few things I knew about him. My advice was heartfelt and disinterested. I wasn’t only concerned for her, but also for the young Rinpoche and for the Buddhadharma. But she didn’t take my advice well – actually, she took it completely the wrong way. To her I was being controlling, possessive and jealous. Of course, many young people have rebellious natures and often do the opposite of what you suggest. But in this case, she repeated everything that I’d told her confidentially to the young lama, and the upshot was that a rift opened up between the lama and me. This was very unfortunate.
Something similar happened when a student complained to me about how her guru was constantly asking her to buy him things – expensive Rolex watches, cars, antiques etc. By the time she came to me, she had already bought him many things, but now, she said, she couldn’t keep it up because she also had financial obligations to her family. I replied that generally speaking, if she, as a student, really wanted to make expensive offerings to her teacher, she should make as many as she could, for as long as she could. But, if she felt the slightest awkwardness about what she was doing, she should express her concern directly to her guru instead of to me. So she spoke to her teacher. Unfortunately, she also told him that I was the one who had told her to address him directly, and from that day to this, he and I have not been on speaking terms. Giving advice can be hazardous.
What if, years ago, I’d warned the Rigpa students who wrote the letter critical of Sogyal Rinpoche, to examine and analyze their teacher carefully before they became his students. Would they have listened to me? I doubt it. At worst, an overt warning could have resulted in major misunderstandings and serious conflict – which as a human being I certainly want to avoid. I also remember some very defensive reactions from Rigpa students after a joke I made about the excessive Tibetan paraphernalia I saw in Rigpa centres.
But what if I had taken on the role of devil’s advocate? What if I had not only advised these students to check and analyze their guru, but gone further and said: “Sogyal Rinpoche has introduced you to so many truly great Vajrayana teachers. Why did you choose to continue following him rather than one of those great masters?”
What if I’d raised the question: “Apart from what Sogyal Rinpoche himself tells you, what proof do you have that he was fully and properly trained? He was only a child when he received teachings from Jamyang Khyentse Chökyi Lodrö – did you know that? Did you know he was just ten or twelve years old when Khyentse Chökyi Lodrö passed away? Did you know that he went to a Catholic school in Kalimpong and then to Delhi University? So when did he do his training?”
What if I’d asked: “Do you see Tibetans flocking to Sogyal Rinpoche for teachings? Tibetans are always very polite to each others’ faces, but do you know what they really think? Maybe, in spite of the fact they know he hasn’t been well-trained, they are polite to Sogyal Rinpoche because they are following Tibetan custom.”
What if I had raised such questions? Would any of the students who are now being so critical have listened to me? I’m not just talking about Sogyal Rinpoche here. What if I raised such questions about all our present lamas, rinpoches and khenpos?
Karma so often undercuts analysis and bypasses warnings. And of course, karmic links and karmic debts always play out, including the continual misreading of cultural cues – for example, whatever they think of each other, Tibetans are always publicly polite to each other, which many westerners misinterpret as a confirmation of high regard.
The Tibetans and the Bhutanese – and I myself am a Tibetan-Bhutanese hybrid – have been thoroughly marinated in umpteen cultural habits. I must admit that more often than not, when it comes to talking frankly and honestly about these important issues, these habits really get in the way. People like me think we should always act humbly and often misunderstand the difference between being humble and not being upfront. But the habit of humility often serves a purpose, and can, for example, prevent unnecessary arguments from breaking out. Personally, I would still opt for this approach, partly out of habit and partly to stay out of trouble – and as human beings, most of us usually try to stay out of trouble if we can.
Of course, lamas often don’t say certain things openly because their words have, in the past, been misreported, misquoted and cut and edited to mean something else entirely –lamas are too often misrepresented in all kinds of ways. So, being able to say what they really think can become problematic.
Basically, as I said earlier, warning people about how to choose their guru is one of the most difficult things a lama can do. But if we hold back from warning students openly, how can consequences be avoided?

Different Times, Different Challenges

I have received abhishekas from about thirty lamas, but I cannot claim to have properly analyzed all of them. To be perfectly honest, I’m one of those Tibetans who mostly jumps into initiations without taking the time to examine the preceptor much at all. But before I decided to receive a particular initiation or teaching from a lama, I did usually remember to use my common sense.
One method you can use to choose which lamas to receive initiations from is very similar to the way you can, for example, find out where to get good pasta in Italy. We assume that the places local Italians eat will be pretty good, because Italians know about pasta. Based on that common sense principle, I have myself avoided receiving teachings from certain lamas.
Orgyen Tobgyal Rinpoche once told me that when Kyabje Dilgo Khyentse Rinpoche first visited France, hardly anyone attended his teachings, but as soon as it was known that Sogyal Rinpoche would teach, everyone would go to hear him. Of course, I understand why people flock to hear Sogyal Rinpoche; he speaks English and is humorous, so students can relate to him ¬– they feel connected. We human beings do tend to opt for accessibility when we can, so that may also have been a factor.
I have to say that none of the gurus from whom I received initiations and teachings ever abused me financially, sexually, physically or emotionally. But I must admit, I also assumed that they would never do such a thing – which was wrong of me. Once you decide to take a teacher as your guru, you are not supposed to make any assumptions about whether you will be treated well or not, because the point is to have the courage to surrender completely before you embark on the completely unknown and unpredictable Vajrayana journey. And as a Vajrayana student, I like to aspire that in future lifetimes I really will be able to maintain pure perception of my guru and have the ability to do whatever he or she asks of me, no questions asked.
However, the common sense method for choosing a guru that I spoke of using the pasta example has its limitations. I am quite sure that many people fall for a guru because he or she happens to be the student of a great master, or because he or she has been publicly lovey-dovey with many other great gurus. My own experience has taught me that this approach doesn’t always work.
Kyabje Dilgo Khyentse Rinpoche so venerated and respected Jamyang Khyentse Chökyi Lodrö, Shechen Gyaltsab and Khandro Tsering Chödrön that anyone connected with them also became very precious to him – even their pet dogs. I couldn’t see much greatness in several of the people for whom Kyabje Dilgo Khyentse Rinpoche showed such great affection. When I mentioned how I felt to my personal tutor, he replied that Kyabje Dilgo Khyentse Rinpoche had perfectly pure perception of everyone and everything, especially those connected with his own guru. Then he scolded me, “This is something you need to learn.” Now I realize just how priceless that advice was.
In a nutshell, for those of us who set out on a spiritual journey, judging a guru by his own CV and the illustrious masters he knows is not always a reliable method. In fact, on this path the very existence of that type of CV is fishy. Naropa didn’t go to Tilopa because he had a great CV. On the contrary, Naropa had to seek Tilopa out. No one knew Tilopa because he was a common fisherman, so just finding him was extremely difficult.

Checks and Balances

To institute checks and balances in the spiritual world isn’t easy. As the Buddha himself said a couple of millennia before it was recognized in the American constitution, no system is perfect. Buddhism is, nevertheless, a system, but a system that itself doesn’t actually believe in system; and its ultimate checks and balances are karmic causes and conditions. Buddhism also recognizes that only an enlightened being can tell if another person is perfect or not.
Some of you are currently trying to do everything you can to ensure that lamas who misbehave are not left unpunished. Your motivation may well be good: you may want to spare more innocent people the suffering caused by that kind of bad behaviour, and you may not want to see anyone else driven away from the Dharma because of it.
My personal feeling is that, these days, there are very few morally decent, compassionate, kind, caring and uncorrupted human beings in the world – the kind of person for whom we instantly feel a sense of awe when we meet them. And as the mentality of ‘each man for himself’ grows stronger every day, the few decent human beings left on this planet are disappearing fast. Perhaps exposing people’s faults publicly like this, in social media and elsewhere, will make others afraid to act badly? Maybe this is the best we can do in this degenerate day and age. At least some lamas, especially the younger generation, are being sent a powerful message that they can’t get away with this kind of behaviour. So at a time when power and prestige are so intoxicating that some lamas consider themselves untouchable and forget that they could well be held to account, perhaps it is necessary? But I really don’t believe that public shaming or legal punishment is the answer, or that it will actually solve the whole problem.
Many people seem to be so disillusioned by this current situation that they think we have reached a turning point that signifies the beginning of the final decline and demise of Buddhadharma. Sadly, some students may be so disillusioned that for them, there is no turning back.
I’m afraid there is no doubt about it: Buddhism is declining in this world. I am certain that the misgivings people have about the key stakeholders in Buddhadharma – like the Tibetan rinpoches who should have a vested interest in the survival of Buddhism – is one of the reasons why so many feel so discouraged.
While Buddhism has always faced outer obstacles – like invasions, forced conversion by Islam, cunning conversion by Christianity, patronizing assimilation by Hinduism, and so on – its main obstacle is internal and stems from sectarian attitudes. Today, most of us are barely aware of this, even though it’s the greatest of all the threats Buddhism is facing.
There are many factors contributing towards the degeneration of Buddhadharma. Under the banner of rational objectivity as opposed to superstition, and clothed in a supposedly undogmatic liberalism, many among the European and American Buddhist elite are currently promoting a version of Buddhism that completely does away with reincarnation. Their campaign has the potential to destroy Buddhism far more surely than any of its internal scandals. After all, the current scandal is about just one person, whereas the pernicious and apparently contagious trend of misrepresenting the Dharma – which is being perpetrated by many and affecting even more – is spreading so fast that it is far more insidious and destructive.
In addition, there’s a large group of ‘respectable’ life-style teachers who cherry-pick and plagiarize Buddhist ideas without compunction. They market their approaches as ‘mindfulness’ and ‘secular ethics’, but are careful to leave out any terms, expressions or jargon that sound even remotely religious, on the pretext of making the Buddha’s ideas accessible to modern people. They lack the decency even to acknowledge the original author of the ideas and practices they peddle, and instead often try to insinuate or even baldly claim that they have discovered it all for themselves. To me that’s theft, plain and simple. I would have thought that westerners, who so cherish notions about intellectual property and whose countries enforce strict copyright rules for the protection of writers and institutions, would behave better.
Even more dangerous are the self-made gurus who use mindfulness and other Buddhist practices to turn the essence of the Buddhist path into techniques for increasing our love of samsara. By doing so, they utterly destroy the entire purpose of the Buddhadharma, which is to liberate suffering beings from samsara. If this perversion of the Buddha’s teachings is not demonic – the ‘devil incarnate’, as Christians might say – what is?
At the other extreme, Buddhism is also being undermined by the pervasive tendency in Sikkim, Nepal and Bhutan to preserve so-called ‘precious culture’ and ‘age-old tradition’ at any cost. In the process of trying to embalm their traditions, they are effectively hijacking Buddhism and stripping it of all meaning and relevance for this modern age.
Sogyal Rinpoche’s misbehaviour may be his ruin and, sadly, it may be the ruin of some of his students. But the other far more destructive trends within Buddhadharma have the power to affect millions and will ultimately destroy Buddhism far more completely than this present scandal. Frankly, they are even more deadly than the decimation wreaked on Buddhadharma by the Cultural Revolution and other external forces.

What Now?

The present situation is difficult and unfortunate, there’s no doubt about it. But at the same time it’s nothing new. In the course of Buddhist history many such scandals have blown up – and some were much worse. I think that this particular situation is giving us all the opportunity to show how resilient we are. It’s also our chance to think about Buddhism’s big picture rather than just one small corner.
For followers of the Buddha, particularly Vajrayana students and especially students of Sogyal Rinpoche and those who are asking very hard questions, I firmly believe that the current discussion about how gurus behave is rooted in a sincere desire to sort things out and to help the Rigpa sangha and larger Buddhist world. This is the positive aspect of the kind of questioning we are seeing today, and it’s an aspect that really must be recognized and appreciated.
Like it or not, as members of the wider Buddhist sangha and specifically as vajra brothers and sisters, we have created a bond between us that is far more important than family. But in our close relationships, we human beings often suffer as a result of miscommunication. What is the antidote for miscommunication? Communication! So now’s the time to clear a space in which genuine, wholehearted communication can take place. In fact, I’ve already seen a number of letters and on-line postings by people who are making a big effort to find a good solution.
Above all, though, we really must look at the big picture – this is most important. We must not make outcasts of the Rigpa sangha or of any of its individual members. It’s also vital that we remember and acknowledge just how much goodness Sogyal Rinpoche has brought to Europe and to America. The fact that he introduced so many people to such truly great teachers alone is a contribution to the Dharma that can’t be repaid, because those outstanding masters were not just authentic Dharma teachers, they were some of the greatest living beings of the century.
On balance, I would argue that Sogyal Rinpoche has contributed far more benefit to this world and Buddhadharma than harm. We must remember this. It’s far too easy to view this current situation simplistically, then take sides and gang up on those with opposing views – especially where devotion is involved.
For myself, what’s been happening recently amongst the Rigpa sangha has really enhanced my appreciation of many of Rigpa’s students – those that some might label as blind sycophants. I myself know many who are diligent, kind, eager to learn, and who really care about the continuity of the Buddhadharma and lineage – which is rare in this world. In this day and age, for anyone even to attempt the practice of pure perception and maintain devotion for their teacher and the teachings is truly admirable. It is so encouraging to see so many first or second generation western practitioners dedicating themselves to Buddhist practice in this way. While it is tempting to focus entirely on the scandal and the disgrace, what we should really try to do is view it through a much larger and more positive lens. From what I can see, most Rigpa students recognize that there is something incredibly good in the teachings they have heard and in their lineage. And of all the western Vajrayana students I've come across, Rigpa students are among the best and humblest.
Tibetans should also recognize that these westerners, unlike Tibetans themselves, were born and grew up in countries that lacked any form of Dharma influence. Yet many of these western students go to great lengths to seek out the Buddhist teachings. Without any historical Buddhist roots and absolutely no Buddhist culture in their countries of birth, they have nevertheless tried to do everything the Tibetans, who were their teachers, have asked of them. They have always tried to do their best. Many have even done things like turn their living rooms into small gathering places where people can practice. And most of them are not rich – many can barely make ends meet.
In this extreme, fanatical age, when so many are lost and desperately looking for some meaning in their lives, these westerners’ pursuit of Buddhadharma is remarkable and worthy of lavish praise. This is especially so at a time when so many people in the world voluntarily opt to follow the most extreme of all views and paths which glorifies harming themselves and others. Yet our so-called liberal, free, intellectual society tries so hard to justify this kind of extreme outlook and action. Some even label it ‘moderation’, laying the blame for its violence on an errant few, rather than recognizing that it’s the view and the path that are mistaken.
I would go as far as to say that there seems to be a trend amongst liberals and intellectuals – all those who pride themselves on being objective and love to criticize – for finding fault in things that are obviously good, and finding good in things that are obviously very bad. As a result, they put a remarkable amount of time and energy into deriding a path that’s based on love and compassion, has virtually no historical record of violence, and that teaches the most profound wisdom of dependent arising. And they put even more time and energy into justifying a path that glorifies violence and dualism.
The present upheaval caused by the very public criticisms of Sogyal Rinpoche is distressing for many genuine Buddhist practitioners, especially now that the western media are seizing on it with such enthusiasm. I suspect that many liberals, atheists and much of the western media would be delighted if news of a Jain suicide bomber now hit the headlines, because it would prove their point that all religions have a dark side and harbour extremists. How can we not be discouraged when Germany’s largest daily newspaper, the Süddeutsche Zeitung with a daily readership of more than one million, publishes a lead article about the Sogyal Rinpoche scandal under the section heading ‘Buddhism’, and entitled “Abuse.” Imagine the outcry if the western press were to report every Muslim bombing and massacre under the heading ‘Islam!’
So in this hypocritical age, followers of the Buddha must be braver and more courageous than ever before. At a time when there is almost no support or encouragement for those who follow a genuine path, and when doubt is sown at every turn, it’s more important than ever that we – as individual practitioners and sanghas – don’t get swallowed up by scandal and factional conflicts. In an era when wrong views and murderous actions not only prevail, but are celebrated and even justified by respected liberal intellectuals, we must redouble our efforts to study the authentic view of Buddhadharma. By focusing on the big picture and the long-term future of Buddhism, this present crisis could be the perfect opportunity for us all to renew, for the sake of all suffering beings, our commitment and dedication to the study and practice of the Buddha’s authentic path to enlightenment.