domingo, 21 de agosto de 2011

Devolvendo a liberdade



     Kalu Rinpoche tinha uma grande afeição pelos animais. Ele gostava muito de visitar os zoológicos e recitar mantras para os animais enjaulados. Gostava também de lhes devolver a liberdade. Ele o fazia cada vez que podia, resgatando, mais especialmente, centenas, milhares de peixes, que comprava no mercado de Siliguri, a grande cidade na planície abaixo de Sonada, em Benares ou em outros locais. Durante suas estadas em Hong Kong e em Taiwan, resgatava um grande número de peixes, de moluscos, de crustáceos, de tartarugas e de pássaros. Desejando que essa prática fosse estabelecida regularmente, fundou uma associação encarregada de coletar fundos e organizar cada mês a soltura de animais. O texto que segue é uma carta escrita nessa ocasião.   

 "Aos benfeitores e discípulos de Taiwan que tem fé e devoção:
     Todos os seres, quaisquer que sejam, consideram seu corpo e sua vida muito caros e lhes são muito apegados; daí surgem as dores, os medos e os sofrimentos. Caso nos trespassassem, nos batessem e nos dessem pancadas para nos matar, qual não seria nossa angústia e nossos sofrimentos! Os animais não nos fazem nenhum mal; entretanto, nós nos apoderamos deles contra sua vontade, nós lhes infligimos insuportáveis sofrimentos físicos e nós lhe tomamos a vida.
     Esses animais, durante numerosas vidas passadas, foram nosso pai e nossa mãe. Nós mesmos gozamos agora - resultado de atos anteriores virtuosos - uma existência dotada de uma certa liberdade e de uma certa tranquilidade. Se, graças a ela, podemos salvar da morte e do sofrimento animais que nada podem fazer para se proteger, com isso retribuímos a bondade de nossos pais em vidas passadas. A supressão de uma única vida leva ao renascimento no inferno durante um kalpa. Em seguida, quinhentas vezes nossa vida será tomada de volta; enfim, no curso de numerosas existências teremos um corpo feio e miserável e contínuas ameaças pesarão sobre nossa vida. Em contrapartida, salvar um único ser da morte e do sofrimento leva, durante centenas de vidas, ao renascimento como deva ou homem dotado de boas condições de existência; teremos uma vida longa, boa saúde, abundância de bens, perfeitas felicidade e tranquilidade. Se, mais particularmente, dermos substâncias sagradas que liberam pelo paladar aos animais, areia que libera pelo contato, e se recitarmos para eles os nomes dos Budas e mantras, onde quer que nasçamos teremos uma vida longa, beleza física, voz agradável, grande sabedoria, riqueza e companhia de bons amigos; nossos desejos serão atendidos, nasceremos em um país agradável, estaremos livres de todas as ameaças e encontraremos o dharma; no momento da morte, não experimentaremos os sofrimentos da agonia, nunca cairemos nos mundos inferiores, viveremos em harmonia com todos e renasceremos finalmente no Campo de Beatitude. Os benefícios são ilimitados já que levam, numa perspectiva última, ao Despertar. Tudo isso foi explicado pelo próprio Buda.
     Assim, quando com fé e grande compaixão, fazemos aos animais sem proteção nem recursos, aos pássaros, aos passarinhos, aos peixes, às tartarugas e a todas as espécies de animais minúsculos ou grandes, os quatro tipos de dons - dom do dharma, dom do amor, dom de bens materiais e dom da segurança -, e quando ao mesmo tempo só lhes desejamos o bem, não estaremos fazendo um benefício apenas para eles, mas para nós mesmos, que obteremos nesta própria vida, longevidade, saúde, riqueza e ausência de adversidade; em todas nossas vidas futuras, obteremos esses mesmos benefícios que proporcionamos aos outros.
     É inútil ter esperanças ou dúvidas quanto a isso, já que a lei do karma é inelutável. Eu lhes peço, portanto, para tomar parte nesta prática virtuosa, de onde retirarão, para vocês mesmos e para os outros, temporariamente e definitivamente, benefícios e felicidade, filiando-se a associação "Tirar dos mundos inferiores" e trabalhando com ela."
                                                                   Kalu Rinpoche - Taipei, 23 de abril de 1986 

Nenhum comentário: