domingo, 26 de janeiro de 2014

Carta e fotos de Mingyur Rinpoche em retiro

    Mingyur Rinpoche entrou em retiro em 2011, deixando uma carta (postada aqui em outubro de 2011) para seus familiares e alunos. Desde então, pouco se sabe sobre Rinpoche. Recentemente seu site oficial publicou uma carta e alguns fotografias. Segue a reprodução da carta e as fotografias feitas por Lama Tashi em setembro de 2013.


Mingyur Rinpoche alegre e contente


    Recebemos as seguintes cartas e fotografias do Lama Tashi, amigo próximo e assistente de Mingyur Rinpoche. Quando no ano passado se encontraram, Mingyur Rinpoche tinha acabado de sair de um retido rigoroso em Yolmo, um local de retiros sagrado situado na profundidade dos Himalaias, e ia a caminho de Dolpo, outro local sagrado perto da fronteira entre o Tibete e o Nepal. Mingyur Rinpoche procurava provisões quando Lama Tashi o encontrou. Nessa altura, Rinpoche estava numa pequena pensão com falta de roupas e alimentos. O saco de dormir e o colete que veem nestas fotografias foram-lhe então oferecidos pelo Lama Tashi. Atualmente não sabemos onde o Rinpoche está, nem quando sairá de retiro, mas a julgar por esta carta, está com saúde e obviamente a gozar a vida de um yogi errante!

 Carta original escrita a mão por Mingyur Rinpoche

    Para a minha querida mãe, parentes, comunidade monástica, estudantes e todos com quem partilho uma conexão,

    Graças às bençãos dos gurus, estou de boa saúde e não tenho tido quaisquer obstáculos. De momento vagueio de um lado para o outro, sem me fixar em local algum. Neste momento estou com o Lama Tashi, com quem me encontrei inesperadamente. O Lama Tashi pediu insistentemente para me acompanhar e eu aceitei o seu pedido. Ele deu-me alguma comida, roupa e outras necessidades. Deu-me também algumas boas e más notícias, que me deixaram com uma mistura de sentimentos de alegria e tristeza.

    Recentemente, o Lama Tashi tem estado a realizar diligentemente as práticas de fundação (ngondro) e as práticas principais do Mahamudra e do Dzogchen. Quanto a mim, vagueio sem locação fixa, ficando em ermidas isoladas nas montanhas e noutros locais semelhantes. Pude experimentar sentimentos de felicidade e sofrimento, altos e baixos como os das ondas à superfície do mar. Houve alturas em que os alimentos e as roupas tiveram dificuldade em aparecer e em que senti frio, fome e sede. Mesmo quando pedia esmolas, apenas recebia insultos e palavras duras. Noutras alturas recebi sem esforço comida e roupas, mesmo sem as pedir, e senti no meu espírito como se estivesse a gozar os prazeres dos deuses. Embora tivesse experimentado tanto a felicidade como o sofrimento, o mais importante é que um profundo e sentido sentimento de certeza surgiu da profundidade do meu ser, um sentimento tal que, aconteça o que acontecer, sei que a verdadeira natureza dessas experiências, a sua própria essência, é consciência primordial e vasta compaixão.

    Esta claridade natural da consciência está conosco desde sempre. É a própria essência e a verdadeira natureza do nosso espírito. Dia e noite está sempre presente. Assim, devemos manter o fluxo da consciência pura tanto quanto somos capazes de o fazer, sem meditarmos e contudo sem nos deixarmos perder na distração. Grande amor e compaixão são também qualidades inatas do nosso ser. Todos os pensamentos, emoções destrutivas e sofrimentos que encontramos são, em essência, completamente permeados pela vasta compaixão. Como um sinal disto, desejamos naturalmente gozar da felicidade e estar livres do sofrimento. Embora todos os seres tenham grande sabedoria e compaixão, nem sempre isso é aparente O que se deve simplesmente ao não reconhecimento daquilo que possuem desde já. Assim, à parte o mero reconhecimento da nossa verdadeira natureza, não há a mais pequena coisa a meditar. Tendo reconhecido a importância disso, tenho passado os dias sentindo-me alegre e contente, andando de vales em montanhas e permanecendo aqui e acolá. Do fundo do meu coração, encorajo-vos a todos a praticarem igualmente desta maneira.

    O Lama Tashi volta agora para a cidade com esta carta e, a seu pedido, com algumas fotografias do meu retiro. Espero que fiquem contentes em recebê-las. Rezo para que nos encontremos de novo em breve, numa reunião alegre e feliz, para gozarmos juntos as riquezas do Dharma.

Mingyur Tulku
2 de Janeiro de 2014



 Caminhando pelos altos himalaias



Em frente sua caverna de retiros


Rinpoche em sua caverna de retiro


Rinpoche preparando sua refeição




Retirado na montanhas 


 Lama Tashi e Mingyur Rinpoche


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