domingo, 16 de setembro de 2012

Refúgio, antídoto do orgulho

Tulku Pema Wangyal Rinpoche

"O maior milagre que pode acontecer a um ser ao longo de infinitas vidas, é leva-lo a tomar Refúgio nas Três Jóias".



O Refúgio, antídoto do orgulho

Na maior parte do tempo, o orgulho, que nasce e cresce sob a influência da ignorância, leva-nos a sustentar com tenacidade posições sem fundamento real. O orgulho não é de fato a tendência de pensar e de tentar provar que as nossas idéias, mesmo falsas, são as melhores? Se elas o fossem verdadeiramente, isso não seria tão grave. Mas com frequência esse não é o caso, e nós sofremos terrivelmente por não termos sempre razão. Certas formas de orgulho, muito sutis, são difíceis de reconhecer. De uma maneira geral, o orgulho impede-nos de estarmos satisfeitos com aquilo que temos. Esta insatisfação traz consigo sentimentos de insegurança e de angústia crescentes e, para acabar, deixam-nos totalmente desorientados. Assim, a primeira das práticas preliminares é o refúgio, uma técnica de meditação que transforma a nossa propensão de sermos terrivelmente egocêntricos. Para transformar o orgulho em sabedoria libertando-o na natureza absoluta, a prática do refúgio associa visualização, oração, mantras e exercícios físicos.

Em tibetano, refúgio é kyap dro (kyap: refúgio, proteção; dro: ir, tornar-se). Como regra geral, os seres que não se sentem em segurança, vão à procura de proteção. A prática do refúgio dá confiança àquele que a ela se consagra fazendo-o redescobrir a proteção da sua natureza profunda. A aquisição de uma verdadeira confiança interior varre todos os véus que geram o medo e a insegurança.

Uma tal confiança não pode eclodir se não for sob a proteção de um mestre cuidadosamente escolhido: um cego não pode guiar outro cego. Temos necessidade de nos apoiarmos em seres completamente despertos, e isso, até à descoberta do verdadeiro refúgio interior, a natureza de Buda latente em cada um de nós. “Todos os seres possuem o embrião do despertar, e é isso que lhes permite atingir o estado de Buda dizem os ensinamentos”. Ninguém poderá jamais perder este potencial que lhe é natural; só os nossos véus mentais nos impedem de o reconhecer. Todos os treinos têm por fim dissipá-los.

Pode parecer inconcebível que um minúsculo grão guarde uma árvore magnífica, e todavia... Da mesma maneira, todos os seres dispõem do potencial do despertar total. Assim, para acedermos ao refúgio último, o estado de Buda, é necessário que primeiramente nos entreguemos a seres perfeitamente despertos. A prática do Dharma permite a seguir ter uma realização íntima do refúgio. Os ensinamentos tornam-se assim no caminho que leva a bom porto - o despertar perfeito.

Do ponto de vista exterior, é o Buda que é o refúgio inultrapassável. Do ponto de vista interior, o termo buda designa o estado desperto do nosso próprio espírito. O ensinamento, ou Dharma, constitui a via necessária ao desabrochar das qualidades do espírito. Para seguir este caminho, é necessário apoiarmo-nos na Sangha, a comunidade daqueles que conhecem o Dharma.

Podemos dizer assim: ‘’O refúgio absoluto é o estado de Buda, o Dharma é a via, e a Sangha aqueles que nos acompanham na via’’.

O Buda

Em sânscrito, boud significa totalmente desperto do sono da ignorância, dha quer dizer eclosão perfeita da potencialidade fundamental e designa o pleno desabrochar do conhecimento, da sabedoria, da compaixão - em resumo, de todas as qualidades que é possível desenvolver.

Dentro desse contexto, quando falamos de buda, trata-se não somente do Buda histórico chamado Gautama (ou Shâkyamuni), mas também de todos aqueles que atingiram o despertar. Isso situa-se acima do plano universal, bastante além das limitações específicas do Oriente e do Ocidente. Os Budas desvendaram perfeitamente os dois aspectos da omnisciência: eles conhecem todos os fenômenos logo que eles aparecem, e a natureza de todas as coisas tal como ela é. Os seres despertos atualizaram as cinco sabedorias: para eles, os cinco venenos transformaram-se em cinco sabedorias. Tendo libertado tudo o que há a libertar (boud) e realizado tudo o que havia para ser realizado (dha), eles são Budas, despertos.

Na impossibilidade de encontrar tais seres, é possível tomar refúgio no ensinamento que eles deixaram, apoiando-nos naqueles que seguem esta via e o assimilaram.

O Dharma

A palavra dharma tem etimologicamente dez sentidos. Aqui significa aquilo que guia, que leva a um bom caminho indicando aquilo que devemos adotar e rejeitar. O Dharma, também chamado de caminho, inclui todos os ensinamentos que nos chegaram desde Buda até hoje por uma transmissão ininterrupta de mestres.

Existem diferentes níveis de ensinamentos. O ensinamento principal descreve em detalhe como os seres estão mergulhados na ilusão, e a forma pela qual se poderem libertar. A característica dos ensinamentos de Buda é que, pondo-os em prática, traz uma claridade de espírito que mostra a totalidade do caminho e dissipa os obscurecimentos.

Encontramos por todo o mundo uma abundância de ensinamentos religiosos e filosóficos. Alguns têm por efeito aumentar a cólera e as emoções. O Dharma de que falamos aqui possui, ao contrário, o poder de libertar os seres de emoções perturbadoras. Essa é a sua primeira virtude, consequência de ele estar fundamentado na não-violência. O aspecto irado de algumas representações de Budas na iconografia tibetana é puramente simbólica. A espada que o Buda Manjushri brande, por exemplo, representa a sabedoria que corta os obscurecimentos e subjuga as manifestações demoníacas interiores.

A Sangha

Em tibetano, qualificamos a Sangha em duas palavras, rig dreul, expressão que une a sabedoria rig e a liberdade dreul; mais precisamente, a tomada de consciência do nosso potencial e a libertação daquilo que nos afasta dela.

Aquele que consagra a sua vida ao caminho da liberdade faz parte da Sangha. Não podemos considerar como  membro da Sangha uma pessoa que não tem a menor noção do que é a via, nem o menor desejo de dedicar a sua vida a outrem; como, então, apoiarmo-nos numa pessoa tal para atingir a libertação?

A Sangha designa todos aqueles que detêm e vivem os seus ensinamentos e as suas práticas. Esse termo tem  vários níveis de significado, mas traduzimos literalmente por aqueles que inspiram o desejo de seguir o caminho da virtude, os amigos espirituais, o grupo de praticantes, ou de maneira mais geral, todas as pessoas que consagram a sua vida ao socorro e à paz de todos os seres.
O voto do refúgio

Quando fazemos a escolha consciente de tomar refúgio, é melhor escolher o refúgio último. É a melhor maneira de progredir no caminho espiritual.

Entre as Três Jóias; Buda, Dharma e Sangha; alguns dão primazia ao mestre ou ao guia espiritual, uma vez que ele representa os seres despertos sendo a fonte dos ensinamentos. Outros dão mais importância aos ensinamentos, pois eles permitem atingir o despertar. Para outros ainda, o contacto com os companheiros espirituais tem um papel maior. Não existe uma regra absoluta, somos todos diferentes e podemos escolher de acordo com as nossas necessidades e inclinações.

Saibam sobretudo, no momento de tomar refúgio, que a vossa motivação pode ser mais ou menos vasta: podem considerar o triplo refúgio como um barqueiro, indispensável somente para vos fazer chegar à outra margem, ou decidir tomar enquanto vós e todos os seres não estiverem livres do sofrimento e do perigo. Assim cada um toma refúgio pelo tempo que corresponde à medida da sua motivação. De fato, alguns tomam refúgio para se protegerem durante esta vida apenas, e preferem não pensar naquilo que a seguir se passará; outros, com uma abertura de espírito inconcebível, a compaixão imensa, comprometem-se até que todos os seres, sem exceção, tenham atingido o despertar. Definitivamente, cada um é livre de orientar a sua ou as suas vidas de acordo com os seus desejos e capacidades.

A seguir, aquele ou aquela que decidir apoiar-se nas Três Jóias deve saber o que é preciso evitar ou adotar:

Tomando refúgio no Buda, renunciamos a tomar refúgio em seres ou pessoas que não estão ainda perfeitamente despertas, ou de objetos exteriores (árvores, montanhas, sol, etc.).

Tomando refúgio no Dharma, comprometemo-nos a fundamentar pensamentos, palavras e atos na não-violência e a não fazer mal aos outros, bem como a todas as formas de vida em geral.

Tomando refúgio no Sangha, escolhemos evitar associarmo-nos àqueles que perturbam os outros ou que os prejudicam, pelo menos até termos adquirido a capacidade de libertá-los da sua confusão, e comprometemo-nos a cultivar o altruísmo incansavelmente.

A prática do refúgio

Apesar desta prática ser um antídoto eficaz para todas as emoções perturbadoras, a prática do refúgio tem efeitos principalmente sobre o orgulho.

Esta prática recorre a duas abordagens, uma relativa, outra absoluta. No plano relativo, fazemos apelo às técnicas que tomam a luz como suporte da concentração. Visualizando diante de vós uma forma luminosa e vazia de seres despertos, concentrem-se na sua presença e recitem os diferentes mantras e orações ligadas ao refúgio. Podem por exemplo reportar-vos ao texto do refúgio dos Preliminares do Novo Tesouro de Dudjom Rinpoche:

De hoje em diante, e enquanto eu não tiver atingido o coração do despertar,
Tomo refúgio no Lama, no Buda, no Dharma e na Sangha.

A forma elaborada desta prática é acompanhada de prostações. Mantenham a mesma visualização e ofereçam uma prostação para cada recitação da oração.
No plano absoluto, o refúgio consiste em deixar a mente repousar no estado livre de todos os conceitos de sujeito, objeto e ação, experimentando ficar na simplicidade natural da mente. (Aqui o sujeito é aquele que toma refúgio, o objeto aqueles em quem tomamos refúgio, e a ação o fato de tomar refúgio. Este tema será aprofundado em capítulos seguintes).

Vejamos mais precisamente este treino. O princípio é de implicar simultaneamente o corpo, a fala e a mente no processo da purificação. Sentem-se confortavelmente mantendo a coluna vertebral bem direita. Podem juntar as mãos à frente do vosso coração ou pousá-las sobre os joelhos, de acordo com aquilo que melhor vos convier. Na moldura de uma meditação extremamente simplificada, é suficiente concentrar o espírito sobre uma esfera de luz. Com um pouco de treino poderão visualizar no espaço à vossa frente um ser desperto e considerá-lo como a essência de todos os Budas do passado, do presente e do futuro. Se as inquietações ou os pensamentos começarem a desfraldar, apliquem-se simplesmente a afinar os detalhes da visualização. Mantendo quer a visualização, quer o estado de simplicidade, cantem as estrofes do refúgio, recitem mantras e, em casos limites, multipliquem as prostações.

Consoante o nível da prática, uma prostação pode ser considerada como uma homenagem, ou como um meio de se ligar à energia interior. O exercício físico é o seguinte: pomo-nos de pé, os pés unidos, as mãos em botão de lótus diante do coração. Elevando as mãos juntas para levá-las sucessivamente à frente da testa, à garganta e ao coração, abrimo-las seguidamente inclinando-nos para pousá-las no chão ao lado dos nossos joelhos, antes de escorregar para a frente, de maneira a alongarmo-nos completamente. A testa vai tocar o chão entre os braços estendidos, as mãos juntam-se na parte mais elevada do crânio. Levantando-se rapidamente no movimento inverso, tomamos a posição inicial.

Este treino de movimentos reveste-se de um simbolismo muito completo. Os pés unidos representam o equilíbrio das energias solar e lunar que se apoiam sobre a terra, recordando também que o relativo e o absoluto se unem sem conflito. As mãos unidas ao nível do coração - a base das palmas das mãos unidas, as extremidades dos outros dedos tocando-se ligeiramente, os polegares no interior da cavidade - formam um botão de lótus representando a sabedoria (ou a vacuidade) inseparável da compaixão. Aliás, este gesto, ou mudra, leva todas as energias positivas ao coração. Levar as mãos sucessivamente à testa, à garganta e ao coração, exprime a sublimação das energias desviadas do corpo, da palavra e do espírito. Tocar o chão com as mãos, os joelhos e a testa, portanto em cinco pontos, simboliza a libertação dos bloqueios físicos.

É uma prática muito eficaz, uma yoga completa posto em prática especialmente por praticantes que dedicam a maior parte do seu dia à meditação imóvel. Estaríamos muito errados se a puséssemos de parte alegando que ela é muito simples.

A formulação da oração do refúgio é especial para cada conjunto de práticas preliminares. A sua expressão mais breve é:

Namo Boudhâya
Namo Dharmâya
Namo Sanghâya

Isto significa: Homenagem ao Buda, homenagem ao Dharma, homenagem ao Sangha. Quem rende homenagem, e a quem? Visualizem no espaço à vossa frente o objeto do refúgio: um Buda ou uma assembléia de seres despertos, emitindo raios de compaixão e de luz. Em toda a vossa volta, vejam a infinidade de seres do universo a tomarem refúgio convosco: à direita e à esquerda os vossos pai e mãe atuais, que vos deram esse precioso corpo humano, em seguida os vosso familiares e amigos e todos os seres sem exceção.

A prática dos ensinamentos fundamenta-se na não-violência, pelo que devem pôr à vossa frente os vossos inimigos. Serão eles realmente inimigos? Examinem em quê eles vos parecem hostis: o mais frequênte é por causa de uma ligação negativa estabelecida pelo passado que um ser será julgado ameaçador. Na realidade, nada nem ninguém pode ser qualificado como inimigo. Mesmo uma pessoa maldosa não procura fazer mal se não estiver sob a influência do seu próprio sofrimento; ela merece por isso um lugar de eleição nas vossas orações.

Durante a recitação do refúgio, ou durante as prostações, pensem que os raios de luz provenientes dos Budas transmutam todo o sofrimento: esta luz enche e purifica todos os seres, dissipando os bloqueios e os véus ligados ao corpo, à fala e a mente. Ela regenera as vossas forças e protege-vos, evitando que executem atos negativos. Inundando o corpo, a fala e a mente de todos os seres, as suas vagas purificam igualmente a atmosfera e o ambiente.

Pratiquem assim o refúgio durante um certo tempo, mergulhados na oração e na luz. No fim da sessão, considerem que vós mesmos e todos os seres saem purificados. Dissolvendo-se em luz, estes últimos dissolvem-se uns nos outros e fundem-se em vós. Agora, vocês tornam-se luz, para se dissolverem finalmente na forma do ser desperto que, por sua vez, desaparece em luz.

A mente fica no momento presente, aqui e agora, sem seguir os pensamentos do passado, do presente ou do futuro: é a purificação absoluta. É aquilo a que chamamos repousar no estado natural da mente, um estado de frescura e de simplicidade, além de todos os conceitos.

Treinar encontrar esta simplicidade fundamental permite restaurar a confiança na nossa verdadeira natureza. A pulsão do orgulho, essa necessidade de provar a nossa superioridade que não é mais do que um sintoma de falta de confiança em nós, desaparece, completamente liberta dentro do estado da sabedoria equânime.

Conclua cada sessão de prática dedicando os méritos ao despertar de todos os seres.

Tomar refúgio é uma forma de dar de si, uma oferenda. Com o voto do refúgio, comprometemo-nos a consagrar o treino espiritual ao bem de todos; esta resolução suporta a nossa prática e atrai, por intermédio do mestre espiritual, o apoio de todos os seres despertos. Pronunciar formalmente o voto do refúgio e receber um nome espiritual estabelece com efeito uma ligação profunda com a linhagem de transmissão de Buda. Um praticante sente com frequência a necessidade de se comprometer de uma forma tradicional, não porque seria impossível de progredir sem isso, mas simplesmente porque a sua prática recebe muitos benefícios.

Para concluir este capítulo, citarei três estrofes de um ensinamento de um dos meus principais mestres, Dilgo Khyentse Rinpoche:

Para desenvolver a verdadeira confiança
Que varre tendências e véus kármicos
Fazendo-nos reconhecer o nosso despertar inato,
Tomemos apoio no refúgio relativo.

O refúgio absoluto, nosso despertar inato, é o fruto:
A natureza de Buda, presente mas ignorada,
O estado natural de cada ser, de cada coisa.
Ao reconhecer o nosso despertar inato, tomamos refúgio absoluto.

O refúgio absoluto é a verdadeira natureza da mente
Cujo conhecimento imediato tem três aspectos:
A vacuidade, que constitui a sua essência, a luminosidade a sua expressão.
E a sua bondade profunda como uma imensidade onde nada faz obstáculo.

                       
                                                                                         Tulku Pema Wangyal Rinpoche
                                                                                          em “O Cortador de Diamantes”




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